Há vários anos a Capcom tenta inserir multiplayers em Resident Evil. Não é novidade para ninguém, entretanto, que isso não tem funcionado muito bem. Desde pelo menos o Operation Raccoon City até o mais recente RE:Verse, foram algumas fórmulas que fracassaram, tanto em termos de recepção dos fãs quanto comercialmente.
Isso quer dizer que Resident Evil não tem nenhum espaço para multiplayers de ação? Pois eu acredito que tem sim e a resposta está numa turminha muito querida na franquia: a UBCS (Umbrella Biohazard Countermeasure Service), carinhosamente conhecida como os Mercenários.
Quem não se lembra da marcante abertura de Resident Evil 3 Nemesis? Os mercenários aterrissando, os zumbis chegando, o caos tomando conta e a UBCS sendo dizimada aos poucos? E mais: quantos de nós não sentiram vontade de jogar aquelas cenas? Tivemos um gostinho disso no minigame The Mercenaries: Operation Mad Jackal, que foi a estreia do modo Mercenários na série, mas em outros jogos pouco foi visto da UBCS de forma mais aprofundada até Resident Evil 3 Remake.
E como isso tudo poderia ser incorporado a um multiplayer de ação de Resident Evil?

Acredito que a primeira vantagem, em termos técnicos e práticos, é que já temos os modelos prontos de Carlos, Nicholai, Mikhail, Tyrell e Murphy na RE:Engine, personagens conhecidos pelos fãs antigos e por quem adentrou a franquia nos jogos mais recentes. Se RE3R não agradou aos fãs dos clássicos, as reformulações feitas na UBCS, especialmente no Carlos, foram muito bem-vindas e a muita gente ficaria feliz em vê-los de volta.
Também já temos bastante material pré-existente de Raccoon City de RE2R e RE3R que poderia ser usado, além de assets do REsistance que podem ser úteis para reconstruir Raccoon no caos.
Há, ainda, muito material de apoio que pode inspirar a história desse jogo, que se for pensado com carinho, poderia até ser canônico, vindo a complementar a história de Resident Evil 3 de um jeito que acho que muitos de nós já quisemos ver.
Só o RE3 original já traz uma infinidade de materiais interessantes: a inesquecível abertura (que por mim era refeita igualzinha na RE Engine; imagina que beleza?); uma porção de files; os cenários em que encontramos mercenários mortos cujas histórias poderíamos conhecer; e o próprio Operation Mad Jackal. RE3R traz suas próprias versões de tudo isso, assim como conteúdos próprios.
Um material pouco conhecido que também retrata a UBCS é o filme Biohazard 4D-Executer, lançado apenas no Japão em 2000, mas que hoje pode ser assistido com legendas em português aqui. O curta conta a história de uma equipe da UBCS enviada a Raccoon City para resgatar uma pesquisadora da Umbrella. Não é um material muito rico, mas mostra os mercenários em uma missão bem particular.
Não podemos deixar de mencionar ainda a novelização Nemesis da S.D. Perry, que a meu ver seria um acréscimo maravilhoso na história, pois não somente traz alguns desses momentos iniciais do caos da UBCS chegando em Raccoon City como também um Nicholai psicopata, frio e calculista absolutamente impecável que fica fora das telas. Eu amaria ver certas coisas que ele faz no livro serem colocadas em um jogo.
Aliás, o Nicholai está em todas, não é mesmo? Se tem um dos mercenários que foi muito bem explorado no lore, foi o russo, pois ele aparece em quase todos os jogos ligados ao apocalipse em Raccoon City e é mencionado em muitos arquivos. Isso nos traz uma diversidade de pormenores interessantes, como a relação de Nicholai com Sergei Vladimir e mesmo sua rivalidade com Vector (ainda que esta última não seja canônica). Ainda no universo dos jogos, temos também o cenário Decisions, Decisions de Resident Evil Outbreak File #1, em que a UBCS enfrenta o Tyrant Thanatos e Nicholai faz uma aparição importante.
Raccoon City era um tipo de reino assombrado onde ele era o soberano, capaz de fazer o que quisesse – qualquer coisa que desejasse. Mentir, matar, banhar-se na glória da derrota de outro homem. Era tudo dele, e ainda receberia uma recompensa no final.
Sentiu-se vivo novamente. Era hora de brincar.
Nicholai em Nemesis, novelização de S.D. Perry
E como tudo isso poderia ser transformado em um jogo? Aqui, vejo uma certa possibilidade de mesclar terror e ação, com momentos com mais de um ou com mais do outro (mas sem fazer uma bagunça à la RE6), pois você pode tanto estar na rua no meio de várias B.O.W.s numa ação frenética quanto passando por um beco escuro onde um licker está casualmente passeando pela parede. Mas isso dependeria justamente do quanto o fator multiplayer (e a possibilidade de jogar sozinho offline) poderia afetar essas sensações, então fica em aberto.
Um ponto que considero essencial é que cada personagem tenha uma habilidade própria. Operation Raccoon City e REsistance, apesar de não terem obtido sucesso, têm como ponto forte personagens interessantes, cada um com sua habilidade própria que pode fazer diferença no desenvolvimento da operação. Se formos pensar bem, desde Resident Evil 1 o fator que fazia os gameplays de Jill e Chris serem diferentes era justamente que cada um tem uma competência diferente.
Uma multiplicidade de personagens (jogáveis ou não) também oferece a possibilidade de contar novas e boas histórias sobre os mercenários, sobre cidadãos anônimos que não sobreviveram e sobre a própria Raccoon. Até mesmo a luta da polícia nas ruas de Raccoon City poderia ser aproveitada e quem sabe até usada (e jogável) em um capítulo especial, uma possibilidade bastante atrativa.

Não sou uma jogadora de multiplayers, então honestamente não saberia quais seriam outros aspectos acertados de jogabilidade para fazer um projeto como esse acontecer. No entanto, como fã, tenho uma noção do tipo de história que a comunidade quer ver ser contada e quais personagens poderiam participar. Acredito que a UBCS tem um grande potencial para suprir essa demanda de forma satisfatória para os públicos que a Capcom quer atingir, mas, como sabemos, eles gostam de engavetar algumas de suas melhores possibilidades. Enquanto isso, só podemos sonhar.
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