Los Illuminados, a história de uma religião

Resident Evil 4 Remake veio, para muitas pessoas, substituir o jogo original. Com um gameplay muito bem adaptado e uma história aprofundada e aperfeiçoada, a nova versão nos trouxe muitas possibilidades de discussão e reinterpretação da história de Resident Evil.

Um dos aprofundamentos foi na história do culto Los Illuminados, que desde o jogo clássico já era bastante interessante. Agora, conhecemos o nome de seu fundador, seus membros através das gerações, seu exílio, seu espaço sagrado na Ilha e a extensão de sua obra maligna. Essas informações nos permitem construir um quadro mais claro de sua trajetória e também situá-los em um contexto mais amplo de história.

Por isso, hoje trago para vocês um pouco da história de Los Illuminados, com base na história da ficção e na história da vida real.

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Como Resident Evil: Veronica vai tratar Alfred Ashford? (Teoria)

O tão esperado remake de Resident Evil: Code Veronica foi anunciado e há muitos elementos do jogo que estamos curiosos para ver. Há muitas teorias sobre como a história será adaptada, a gameplay refinada e os personagens aprofundados. E um personagem em especial recebe muita atenção nesse sentido: Alfred Ashford. Como Resident Evil: Veronica (RE:V) vai tratar o controverso vilão? Esse é o assunto deste texto.

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Spencer e a preservação da memória para viver para sempre

Quando uma pessoa morre, suas lembranças, seu conhecimento, suas memórias, tudo se perde para sempre. E isso é verdade tanto para pessoas comuns com vidas comuns quanto para grandes cientistas ou filósofos. Ozwell E. Spencer acreditava que isso era uma lástima e que a partida de grandes mentes era uma perda para a humanidade. Porém, mais do que isso, ele mesmo se considerava uma dessas mentes, o que o levou a buscar uma maneira de contornar a morte e o desaparecimento de sua memória.

De todas as formas de memória que Resident Evil Requiem aborda, a memória “física” extrapolou as minhas expectativas, já que eu não imaginava sequer que Spencer teria um papel tão central na trama e muito menos que veríamos uma outra frente da pesquisa que ele confiou a Alex Wesker.

Mas há algo de mais profundo nessa preservação de memória. Spencer sabia que poderia não alcançar seus objetivos de vida eterna; por isso, ele garantiu que sua memória perante o mundo — seu legado — permanecesse viva, manipulando tudo e todos até o fim de sua vida.

O texto de hoje é sobre tudo isso e mais um pouco.

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Especial de 5 anos do Arklay’s Library

É com uma alegria imensa que celebro com vocês o aniversário de 5 anos do Arklay’s Library!

E para comemorar em grande estilo, hoje, 7 de maio de 2026 às 19h15, teremos uma live especial para falarmos de um pouco da lore do Arklay’s em conjunto com a lore de Resident Evil.

Se você está aqui há algum tempo, você sabe que uma live no Arklay’s Library é um evento mesmo!

Então não perca a oportunidade!

Opinião: Resident Evil Requiem tem o coração no lugar certo

Já há um mês que Resident Evil Requiem foi lançado, mas devo dizer que precisei digerir muito bem tudo o que recebemos com esse jogo antes de falar sobre ele por aqui. Houve muitas surpresas, para o bem e para o mal, mas acima de tudo houve muito Resident Evil em sua essência. Assim, finalmente, depois de analisá-lo com muita calma, trago minhas impressões sobre REquiem, com foco em narrativa e lore.

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A coleção de artefatos históricos do Chefe Irons em Resident Evil 2 Remake

O chefe de polícia de Raccoon City, Brian Irons, era conhecido por seu gosto exótico pela taxidermia e por obras de arte famosas e caras. E, se já era visível no Resident Evil 2 original, Resident Evil 2 Remake elevou isso a outro nível, mostrando a coleção do delegado com riqueza de detalhes.

Várias dessas obras chamaram minha atenção, pois são reproduções de obras e artefatos reais. É muito provável que, no universo de Resident Evil, vários tenham sido adquiridos ilegalmente, já que há artefatos cuja venda é proibida, principalmente os mais antigos. Assim, decidi trazer para vocês um pouco sobre o peculiar escritório de Brian Irons.

Considerações iniciais

A coleção do chefe de polícia de Raccoon City era imensa. Ela incluía desde objetos de civilizações antigas até quadros caros. Outros fãs já pesquisaram sobre os quadros e as miniaturas de Leonardo da Vinci da coleção; portanto, focarei nos objetos restantes. Alguns são mais conhecidos, mas outros não, e por isso quero trazer para vocês o conhecimento das peças menos famosas.

Uma primeira observação interessante é que a maioria dos artefatos da sala existem na vida real e boa parte deles se encontra no acervo do Museu Metropolitano de Nova York, que mencionarei muitas vezes e, por isso, chamarei pela abreviação MET. Claramente foi no site do MET que a Capcom buscou boa parte da base para os assets, uma vez que o acervo é de fácil acesso e suas fotos são majoritariamente de domínio público.

Quero deixar meu agradecimento ao meu amigo Fabio Hirata por ter gentilmente cedido alguns prints de gameplay dele para que eu pudesse ilustrar o texto. Também usei alguns prints de um vídeo do canal Alertemos Conspirador.

Será um texto longo, então peguem um café e uma pipoca para acompanhar a leitura!

Sumário

Os artefatos descritos estão organizados pela ordem em que aparecem. Para facilitar a movimentação pelo texto, deixarei um sumário clicável com as seções. Porém, vale a pena ver todas, pois há objetos muito interessantes e eu levei meses para fazer a pesquisa!

Máscaras rituais e vasos antigos

Pratos de diversas épocas

Egito Antigo

México

Irã

Cerâmicas mediterrâneas

Como Brian Irons adquiriu essas peças?

As máscaras rituais e vasos antigos

Em uma das primeiras prateleiras que vemos logo que entramos na sala do Chefe Irons, há uma porção de máscaras rituais. Fiz uma pesquisa bem grande e infelizmente nenhuma delas é uma máscara típica de uma cultura real. Provavelmente, os designers reuniram alguns elementos de máscaras africanas reais para criar a máscara do meio, que tem características comuns em algumas regiões do continente, como padrões geométricos e olhos fechados.

Uma estante com várias máscaras rituais penduradas, além de alguns vasos e tigelas de metal.

O provável motivo para isso é que a maioria das máscaras mais bonitas do MET não estão em domínio público. Suas fotos estão no site do museu, mas não podem ser usadas sem autorização, e a Capcom provavelmente não estava disposta a pagar pelos direitos de uso. De qualquer forma, vou deixar aqui o link do acervo, caso você queira conferir e comparar as máscaras. Algumas interessantes são dos Senofu, dos Lega e dos Baule.

Junto às máscaras, há uma porção de vasos de metal. Eles também não levam a nenhuma peça real específica, mas parecem remeter às ânforas, crateras e lécitos gregos e romanos. Na estante ao lado, também há vasos do tipo, sendo um deles (o maior, à esquerda) uma clara referência a uma cratera romana.

Vários vasos de formatos diferentes em uma estante em Resident Evil 2 Remake.

Recipientes diversos de origem ou inspiração grega e romana. O objeto pendurado, que parece ser uma escultura de madeira com várias pessoas, não consegui encontrar em outro lugar.

Pratos de diversas épocas

Na segunda estante, há dois nichos de pratos decorativos. Todos eles foram encontrados no acervo do MET.

O primeiro prato da estante é datado da virada do século XV para o XVI. Ele foi feito em Sevilha, na Espanha, utilizando a técnica cuerda seca, que é a aplicação de esmaltes coloridos à cerâmica, que provavelmente é a técnica usada na maioria dos pratos que veremos a seguir. Ele mostra um pássaro aquático que pode ser um tarro canelo, que é encontrado no sul da Espanha e tem essa coloração alaranjada e bico fino.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica de um pássaro de bico comprido e penas laranjas. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador, Original: MET.

O segundo prato também vem do que hoje é a Espanha, da cidade de Málaga, do reino de Granada, e data da virada do século XIII para o XIV. A cerâmica de Málaga era bastante prestigiada na época. O prato é originalmente uma tigela e mostra um cavaleiro atacando uma serpente com uma lança, o que possivelmente remete a São Jorge derrotando o dragão.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica mostrando um homem num cavalo lutando com uma serpente, sendo o desenho feito em dourado. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Original: MET.

O terceiro prato é uma típica arte otomana, originária de Iznik, na Turquia, datada do século XVI. A região é conhecida por sua cerâmica e os motivos de pássaros com flores em tons de azul, roxo e verde são bem comuns.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica mostrando pássaros empoleirados em ramos de flores. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Original: MET.

O primeiro prato da segunda estante também é de Iznik e data do século XVI.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica com desenhos azuis e cinzas. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Original: MET.

Mais um prato de Iznik. Pratos pintados com barcos parecem ter sido muito apreciados ao longo de várias épocas e lugares, uma vez que há peças de várias origens e épocas na coleção do MET, onde há dois exemplares dele. Os dois são datados do século XVII, mas provavelmente são de décadas diferentes.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica mostrando um navio. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Originais: MET (mais recente e mais antigo).

O último prato me deu um trabalho imenso para encontrar, e originalmente ele é uma tigela. Nele, dez pessoas assistem a uma mulher tocando alaúde, provavelmente em uma festividade. Ele é datado entre os séculos XII e XIII e é atribuído ao Irã/Pérsia. Se prestarmos atenção, veremos que as pessoas retratadas, apesar das vestes tipicamente persas, têm feições asiáticas. Isso é bem comum na arte medieval persa e também de outras regiões do Oriente Médio, e em parte se deve a trocas culturais com a China. Durante a Idade Média, o mundo muçulmano se estendia da Península Ibérica (Al-Andalus) até a Índia e a China, e as pessoas viajavam muito por esse território, gerando um intercâmbio cultural intenso.

Comparação de imagens de um prato azul que mostra várias pessoas assistindo a uma mulher persa com traços chineses tocando alaúde. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Original: MET.

Egito Antigo

A maioria das peças egípcias antigas de Irons estão no segundo corredor de sua coleção. Ao fazermos a curva, o primeiro que se destaca é um grande vaso posicionado ao lado de um Dodô empalhado.

Um  vaso egípcio com o corpo semioval e o pescoço longo. Ele tem desenhos que parecem um colar em torno do pescoço. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Essa peça é muito bonita e foi inspirada nos vasos encontrados na tumba de Sennedjem, um artesão que viveu e trabalhou durante os reinados dos faraós Seti I e Ramsés II. Alguns deles estão no MET e outros não. Seu tamanho está exagerado, já que os vasos originais tinham cerca de 30 cm de altura. Ele mostra alguns sinais de desgaste, o que indica que o jogo quis dizer que a peça é original.

Logo atrás do vaso de Sennedjem, podemos ver três vasos com cabeças de deuses egípcios na estante, que paravelmente são originais. Esses itens são chamados de vasos canópicos ou canopos e eram utilizados para guardar os órgãos internos do morto retirados durante o processo de mumificação.

Cada um tinha a cabeça de um dos filhos do deus Hórus e guardava um órgão específico: Imseti (homem), o fígado; Hapi (babuíno), os pulmões; Duamutef (chacal), o estômago; e Kebehsenuef (falcão), os intestinos. O coração não era retirado da múmia, pois os antigos egípcios atribuíam ao coração não só o sentimento quanto também o pensamento, fazendo o papel do cérebro (que eles tiravam pelo nariz do morto). Os vasos canopos tinham como função a proteção dos órgãos, considerados essenciais para a ressurreição do defunto.

  • A sala de Brian Irons no jogo Resident Evil 2 Remake. Há estantes com diversos artefatos arqueológicos do Egito Antigo e de antigas civilizações das Américas.

1: Print de Fabio Hirata (ampliado). 2: Wikipedia. 3: MET.

Para não perder o fio da meada do Egito, vou usar um cheat e pular para a última prateleira. Nela, encontramos dois artefatos egípcios bastante conhecidos do público em geral e que Brian Irons com certeza não ia querer deixar de lado. Ambos são, com certeza, réplicas que o delegado encomendou, uma vez que, já que elas são tão famosas, seria impossível para ele contrabandeá-las.

A primeira é do busto da Rainha Nefertiti, um dos itens mais importantes da Arqueologia do Antigo Egito e também um dos que o Egito mais luta para retornar a seu país (atualmente ele está no Neues Museum, em Berlim, na Alemanha). Nefertiti era a principal esposa do Faraó Akhenaton da 19ª Dinastia, aquele que centralizou o culto no deus solar Aton. Seu busto foi encontrado por escavadores egípcios em 1919, porém em uma expedição alemã, que reivindicou o objeto para si.

Comparação de imagens do busto da rainha egípcia Nefertiti. Ela é representada como uma mulher madura e bonita com uma coroa azul.Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: Wikipedia.

A outra réplica é da máscara mortuária de Tutankhamon, o Rei Menino. A tumba do jovem faraó, morto com 19 anos, foi encontrada em 1922 pela equipe do egiptólogo inglês Howard Carter e se tornou uma das descobertas arqueológicas mais famosas do Antigo Egito.

Comparação de imagens da máscara do faraó egípcio Tutankhamon. Ela é dourada com entalhes azuis em formato de listras.Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: Wikipedia.

 O Rei Tut (apelido carinhoso) é filho do homem enterrado na tumba KV55, que provavelmente é Akhenaton, mas não de Nefertiti. Seu reinado foi breve e virou até tema de uma série estrelada por ninguém menos que Avan Jogia – sim, o Leon de Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City – como Tutankhamon.

Hoje, a máscara de Tutankhamon está no Grande Museu do Cairo, aquele próximo às pirâmides de Gizé que até hoje foi apenas parcialmente inaugurado. Sua múmia é a única de um faraó que permanece em sua tumba, à qual foi atribuída uma maldição que era nada menos que uma fake news inventada por Howard Carter para impedir que pessoas aleatórias ficassem passeando por ali e depredando o local.

A última peça da prateleira é um vaso que num primeiro momento pensamos ser grego, já que ele aparece em um dos formatos mais conhecidos da cerâmica grega: uma ânfora de terracota, com fundo preto e figuras vermelhas.

Curiosamente, no entanto, a cena representada nele não é grega, e sim egípcia: trata-se de uma representação do deus Anúbis preparando um corpo, acompanhado das deusas Ísis e Nephtis. A figura é uma reprodução da pintura da tumba KV47 do Faraó Siptah (1197 – 1191 a.C).

À esquerda, uma representação de um vaso de terracoota grego, porém com uma cena egípcia. Ao lado, há a referência da cena original, um mural egípcio mostrando o deus Anúbis preparando o corpo do faraó ao lado das deusas Ísis e Nephtis.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: Tumba KV47 do Faraó Siptah, foto de Pierre Tetrel no Getty Images.

Embora tenha havido convergência entre a cultura grega e egípcia durante o período Ptolomaico (de Cleópatra), esta peça não existe na vida real. Um fato interessante sobre a tumba KV47 é que ela foi registrada por um conhecido fotógrafo de expedições arqueológicas no vale dos reis chamado Harry Burton, quase um xará do nosso querido paizão Barry Burton.

México

Uma estante da sala de Brian Irons no jogo Resident Evil 2 Remake com diversos artefatos arqueológicos de antigas civilizações das Américas.

Print: Fabio Hirata (ampliado).

Voltando um pouco, ao lado dos vasos canopos, encontramos algumas peças variadas. A maior parte delas tem origem mexica, que nós costumamos chamar de asteca. Todas elas existem na vida real (embora com dimensões um pouco diferentes) e estão no acervo do MET.

A primeira escultura à esquerda é uma representação de Macuilcoatl, uma das divindades astecas conhecidas como “cinco lordes das almas”, os Ahuiateteo. Essas divindades estavam ligadas aos prazeres excessivos com bebida, sexo e jogos de azar e às consequências negativas desses excessos. A posição em que o deus se encontra, sentado com as pernas contra o peito, é típica de figuras masculinas. Mais informações podem ser lidas aqui (em inglês).

Comparação de imagens de uma estátua de pedra do deus asteca Macuilcoatl. Ele está sentado e usa adornos diversos. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Bem no meio, podemos ver uma figura feminina esculpida em pedra. Trata-se de uma representação de Chalchiuhtlicue, a deusa asteca da água, principalmente de rios, lagos e córregos. Se as figuras masculinas costumavam ser representadas sentadas, as femininas apareciam de joelhos. Ela está representada em trajes nobres, demonstrando sua importância. Chalchiuhtlicue é casada com Tlaloc, o deus das chuvas, e juntos eles governam o clima.

Comparação de imagens da deusa asteca Chalchiuhtlicue, com adornos na cabeça e na posição ajoelhada. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Esta outra escultura de pedra pode ser vista ao fundo da estante, entre Macuilcoatl e Chalchiuhtlicue, e mostra uma mulher asteca de joelhos. Ela tem um grande enfeite na cabeça. Ela data de 1325–1521 d.C., e não há mais informações sobre ela.

Comparação de imagens de uma estátua de pedra de uma mulher asteca ajoelhada com adornos na cabeça Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Aos fundos, no canto direitos, vemos mais uma figura masculina representada em pedra. A única informação disponível é que a escultura data do século 15 ou do início do 16. A versão de RE2R também é bem menor que a original, que tem cerca de um metro de altura.

Comparação de imagens de uma estátua de pedra de um homem sentado de cócoras. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Esta pequena estátua de cerâmica representa uma figura antropomórfica com corpo humano e cabeça de pássaro em uma postura imponente. Por incrível que pareça, ela é um apito (de 51 cm de altura!), e provavelmente tinha uma função cerimonial.

Comparação de imagens de uma estátua de cerâmica de uma figura com corpo de homem e cabeça de pássaro em uma postura imponente. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Esta peça data dos séculos VIII e IX e tem origem no México, mas não é mexica/asteca. Ela vem da região de Veracruz, ao norte do país, que tinha semelhanças culturais com seus vizinhos mexicas e maias, mas era uma cultura à parte que já não existia mais na região quando da chegada dos europeus.

Já este passarinho barbudo e mal-humorado que está bem ao centro da estante, assim como a peça descrita anteriormente, é um apito, mas de duas câmaras sonoras. Este artefato é maia e é datado entre os séculos VII e IX.

Comparação de duas imagens de um apito de argila em formato de pássaro com uma espécie de juba e uma expressão carrancuda. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Irã

Na mesma estante das peças mesoamericanas, estão duas figuras que destoam do resto: uma estátua verde de um homem caminhando e a de um boi antropomorfo segurando um vaso. Ambas são muito antigas e foram feitas por uma civilização que existiu no sudoeste do Irã entre 3300 e 2800 a.C, que precedeu os elamitas. Ela ficava muito próxima da Suméria, na Mesopotâmia.

O boi original é bem mais elaborado: é feito de prata e veste uma túnica adornada, além de ter cerca de metade do tamanho da que vemos na estante de Irons. Segundo o MET, “representações de animais em posturas humanas eram comuns na arte protoelamita, possivelmente como símbolos de forças naturais, mas provavelmente também como protagonistas de mitos ou fábulas”.

Comparação de duas imagens de um boi antropomorfo de prata segurando um vaso. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Já a estátua verde à esquerda, que se parece estranhamente com um duende do Polo Norte por seu chapéu e botas pontudas, é um herói mítico ou demônio. Seu adorno de cabeça são chifres. A estátua é de cobre, e sua cor esverdeada se dá pela oxidação do metal ao longo do tempo.

Comparação de imagens de uma estátua verde de um um homem com características sobrenaturais. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Cerâmicas mediterrâneas

Por fim, há quatro vasos muito bonitos na estante seguinte.

O vaso do meio foi feito em Florença, na Itália, e data do início do século XVI. Florença é a cidade referência do Renascentismo, e esta peça, embora ainda não carregue toda a sofisticação da arte renascentista mais conhecida, já mostra uma transição entre o estilo medieval e o estilo moderno.

Imagem 1: vaso de RE2 Remake.
Imagem 2: vaso original.
O vaso é bege e redondo, tem duas alças e tem adornos pretos em formato de ramos de folhas compridos.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Já esses belos vasos longos são na verdade jarros para fins farmacêuticos. Todos têm originalmente cerca de 30 cm de altura, sendo os de RE2R um pouco maiores, e datam do século XV. Eles foram feitos no que hoje é a Espanha, mas têm uma grande influência da arte árabe-muçulmana, dado entre 710 e 1492 os muçulmanos de origem árabe e amazigh (conhecidos vulgarmente como berberes) dominaram politicamente a Península Ibérica.

Fontes das imagens: Print do canal Alertemos Conspirador, Vaso 1, Vaso 2, Vaso 3.

Estes foram os últimos itens da nossa lista. Agora, cabe refletir um pouco sobre eles estarem na coleção do delegado de Raccoon City.

Como Irons adquiriu essas peças?

Sabemos que Brian Irons era um homem sem escrúpulos. Não há dúvidas de que várias das peças que ele possuía em seu escritório (e que foram pelos ares com Raccoon City, por sinal) foram adquiridas ilegalmente. E isso é mais comum do que se pensa.

Há um difícil e intenso trabalho de rastreio e recuperação de objetos históricos contrabandeados e vendidos no mercado ilegal. Isso acontece desde que as escavações arqueológicas começaram no Egito durante a expedição de Napoleão iniciada em 1798. Isso se expandiu para outros lugares do globo que foram sendo sugados pelo domínio colonial europeu.

As escavações, no início, não tinham fins somente científicos, mas também comerciais. Muitos dos artefatos eram saqueados por “exploradores” e comprados por colecionadores ou museus; nisso, muitos objetos foram tirados de contexto, de modo que sequer podemos estudá-los com propriedade, já que não sabemos de onde eles vieram. Isso sem contar o que foi roubado, contrabandeado ou destruído, sendo perdido para sempre.

A própria arqueologia compactuou com isso por muito tempo, não respeitando objetos, locais e muito menos os povos de cuja cultura esses objetos vieram. Os europeus se apropriaram de artefatos como esses e de vestígios arqueológicos em suas pesquisas na África, na Ásia e até aqui nas Américas, levando-os para museus como o Museu Britânico, o Louvre, o Neues etc. Quem assistiu Pantera Negra se lembra muito bem da cena de Eric Killmonger jogando isso na cara da funcionária do museu e pegando a ferramenta de vibranium da exposição. Hoje em dia, diversos desses objetos são reivindicados por seus países de origem.

Isso só reforça que alguns dos itens da coleção de Brian Irons foram adquiridos de forma ilegal e, por que não, imoral. Outros podem, claro, ser réplicas encomendadas. Como nem sempre é possível ter peças originais, alguns museus encomendam réplicas ou peças exclusivas que são usadas para fins educacionais em suas exposições. Boa parte do Museu Egípcio Rosacruz em Curitiba é composta de réplicas que cumprem muito bem seu papel. O próprio MET, que tanto mencionei neste texto, tem uma vasta coleção de itens produzidos por seus povos de origem especificamente para o museu.

Sala de arte de Resident Evil 2. É um depósito para vários objetos como esculturas, vasos e relógios antigos.

E, é claro, não podemos esquecer que o prédio da delegacia de Raccoon City foi, no passado, um museu, do qual Irons surrupiou várias coisas. Desde o Resident Evil 2 original, existe a sala de arte, onde Irons deixava parte de sua coleção e possivelmente parte do que restou do acervo do museu.

Mas me conta, o que achou dos artefatos da coleção do famigerado chefe de polícia de Raccoon City? Você esperava que tantos deles fossem reais e tivessem tanta história para contar?


Referências:

Referências consultadas para além das páginas de cada artefato nos museus.

  • AGUILAR-MORENO, Manuel. Handbook to Life in the Aztec World. New York: Oxford University Press, 2007.
  • Art In Video Games: The Macabre and Unusual Collections of Chief Irons in Resident Evil 2 Remake. Strange Dark Stories. 1 de março de 2019. Disponível em: https://www.strangedarkstories.com/2019/03/treasures-of-chief-irons.html Acesso em 18 de setebro de 2025.
  • COLLECTION – METROPOLITAN MUSEUM OF ART (várias pesquisas). https://www.metmuseum.org/art/collection
  • MURSELL, Ian. While Aztec women knelt, men squatted. Mexicolore (online). Sem data. Disponível em: https://www.mexicolore.co.uk/aztecs/aztec-life/squatting Acesso em 18 de agosto de 2025.
  • SALES, José das Candeias. A arqueologia egípcia no século XIX: da “caça ao tesouro” à salvaguarda da herança faraónica. Cadmo: Revista do Instituto Oriental da Universidade de Lisboa. Actas do Colóquio Internacional: Orientalismo ontem e hoje, Lisboa, p.85-112, 2002.
  • WATSON, Oliver. Chinese-Iranian Relations xi. Mutual Influence of Chinese and Persian Ceramics. Encyclopædia Iranica, online edition, 2015. Disponível em: http://www.iranicaonline.org/articles/chinese-iranian-xi Acesso em 18 de agosto de 2025.

Resident Evil Requiem será uma história sobre memória

Resident Evil Requiem nos levará de volta a Raccoon City, uma cidade onde nós, jogadores, criamos muitas lembranças, e onde vários personagens viveram imensos traumas impossíveis de esquecer. O jogo também levará Grace Ashcroft a um lugar e a um momento de seu passado que ela não gostaria de revisitar, mas cujas lembranças ela não pode apagar.

Essa composição narrativa me diz uma coisa: o principal tema de Resident Evil Requiem será, sem sombra de dúvidas, a memória.

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Por que Alyssa Ashcroft foi escolhida para aparecer em Resident Evil Requiem?

Uma das maiores surpresas do trailer de Resident Evil Requiem foi a escolha de trazer Alyssa Ashcroft, uma personagem de Resident Evil Outbreak, para a série principal. Embora seja sua filha Grace e não a própria Alyssa que nos foi apresentada como protagonista, a proposta animou os fãs do lore e levanta uma pergunta: por que Alyssa, e não outro personagem?

A vida dos personagens após Raccoon City

Considerando que RE Requiem tem a proposta de retornar a Raccoon City, o mais lógico é trazer personagens relacionados aos eventos ocorridos na cidade, em especial seus sobreviventes.

Porém, a Capcom tentou pensar além dos protagonistas principais, Chris, Jill, Leon, Claire e Rebecca. Estamos carecas de saber que eles dedicam suas vidas a combater o legado da Umbrella após terem sobrevivido ao incidente da mansão e a Raccoon City. E, desde RE7, eles vêm mudando sua função na série, deixando de ser protagonistas para agirem por trás das câmeras. Isso ficou evidente com Chris realizando sua investigação sobre o mofo e Mãe Miranda enquanto a família Winters assumia o papel central.

Cabe então lembrar que, assim como nossos amados veteranos, diversas outras pessoas estiveram em Raccoon City e sobreviveram ou poder ter sobrevivido. E nisso ganham destaque os personagens de Resident Evil: Outbreak, entre eles Alyssa Ashcroft.

Grace Ashcroft em Resident Evil Requiem. Ela é loira, usa cabelos curtos nos ombros e veste uma roupa formal com um crachá do FBI. Ela está de cabeça baixa e com uma expressão muito triste.

Grace muito triste ao ser lembrada do local do assassinato de sua mãe.

É claro que, caso tenham sobrevivido, nem todos os personagens do jogo teriam interesse em lutar contra o bioterrorismo. Por exemplo, Jim Chapman, o funcionário assustado do metrô de Raccoon, provavelmente tentou buscar a vida mais pacata possível. Mark WIikins, já em Raccoon um veterano do Vietnã, pelo que vimos em seu final bom em Outbreak File #2, parece também ter buscado uma vida de paz.

Já Yoko Suzuki, pelo que o final bom dá a entender, decide testemunhar contra a Umbrella. Se ela não foi presa por ter participado do trabalho ilegal da empresa, seria bem possível que ela estivesse usando seus conhecimentos científicos em pesquisas contra as armas biológicas, de forma semelhante ao trabalho de Rebecca Chambers.

É difícil ter certeza sobre os rumos da vida desses personagens, já que os finais de Outbreak File #2 indicam que, caso tenham sobrevivido, praticamente todos buscaram uma nova vida logo após Raccoon. Não sabemos, no entanto, se o avanço do bioterrorismo no mundo pode tê-los feito mudar de ideia.

Mas entre eles temos Alyssa Ashcroft, uma jornalista.

O jornalismo e a busca da verdade

Alyssa Ashcroft em Resident Evil Outbreak trocando uma ideia com Ben Bertolucci. Ambos são jornalistas. Ele está trancado em uma cela da delegacia, e ela está fora.

Alyssa encontrando Ben Bertolucci, também jornalista e seu possível rival, nas celas do R.P.D. no cenário Desperate Times.

De maneira geral, jornalistas têm uma personalidade curiosa, ávida por informações e por informar. A profissão é muito associada à busca da verdade e à responsabilidade social, e pode ser bastante perigosa dependendo das escolhas temáticas do jornalista. Alyssa é corajosa, focada e teimosa, e no final bom de Outbreak File #2 ela reflete que prefere viver uma vida com riscos e lutar pelo que acredita. Essas características são perfeitamente compatíveis com sua profissão.

Além disso, ela é uma jornalista investigativa, que é um ramo do jornalismo ligado a desvendar crimes, mistérios e atos ilícitos que estão ocultos do público. Um exemplo claro disso na franquia está no cenário Flashback de Resident Evil Outbreak File #2, do qual Alyssa é a protagonista. Nele, ela tenta se lembrar de seu amigo e colega de trabalho Kurt, que foi assassinado (na verdade devorado pela zumbi Dorothy Lester) enquanto investigava uma série de mortes misteriosas ocorridas em um hospital das montanhas Arklay. Ela ainda foi responsável por uma série de matérias sobre os acontecimentos estranhos em Raccoon City ligados à Umbrella.

Assim, como jornalista e como sobrevivente de Raccoon City, Alyssa certamente sentia um dever ético de mostrar ao mundo o que havia acontecido na cidade e como outros incidentes como aquele continuavam acontecendo. Tal como Chris ou Leon, ela tinha todos os motivos e habilidades próprias para continuar lutando pela memória de Raccoon e para evitar que o horror continuasse.

Alyssa Ashcroft em Resident Evil Outbreak. Ela é uma mulher jovem, branca de cabelos louros na altura dos ombros. Sua expressão na imagem é reflexiva.

Alyssa teve um papel importante no desmantelamento da Umbrella. Após fugir da cidade, ela escreveu um artigo intitulado “What is BOW? Blowing the Lid off this Horrifying Secret Project” (tradução livre: “O que é B.O.W.? Expondo esse horripilante projeto secreto”) para o jornal Daily Advisor, que foi um dos pontapés para o julgamento da empresa farmacêutica e a exposição do que houve em Raccoon City.

Tudo isso torna Alyssa Ashcroft uma personagem perfeita para ser colocada – ou referenciada – em um jogo da série principal. Ainda mais em um jogo que pretende ser um réquiem de Raccoon City.

Muitos personagens para escolher

Sabemos que Alyssa continuou na ativa com casos de possível bioterrorismo após o incidente em Raccoon City. Em Resident Evil 7, Ethan encontra uma reportagem sobre os desaparecimentos de Dulvey (ou seja, as pessoas sequestradas por Jack Baker e Eveline) escrita por ela na casa dos Baker. Ali, a preferência da Capcom por ela em relação a outros personagens já estava sendo delineada.

É claro que nada impede que os outros personagens de Outbreak apareçam em Resident Evil 9, tenham eles se juntado à luta contra o bioterrorismo ou não. Descobrir o que houve com eles, se sobreviveram ou não e o que fizeram com suas vidas, seria um presente para nós, fãs apaixonados por lore. 

Há ainda outros personagens importantes de Resident Evil que queremos ver em novos jogos. Esperamos ansiosamente para ver Alex Wesker, agora no corpo de Nathalia Korda, mais uma vez. Nathalia foi adotada por Barry, o que daria uma chance de ele aparecer. Também seria ótimo ver Morgan Lansdale, talvez comandando as intrigas contra a BSAA, e até mesmo um Clive O’Brien, que poderia estar envolvido na relação da organização com a Umbrella Azul. Aliás, está mais que na hora de explicar essa volta da Umbrella, né não?

E quem sabe Alyssa não estava investigando isso também? Tenho esperança de que sua presença em Resident Evil REquiem pode estar relacionada às lacunas que ficaram dos últimos jogos.

Nos resta aguardar.

O impacto ambiental das armas biológicas em Resident Evil

Resident Evil tem um universo que se aproxima muito do nosso. Não há magia, a história se passa no presente e não tem nada de distopia cyberpunk ou coisa do tipo. Apesar de momentos pontuais, como Village com sua aparência sobrenatural ou mesmo a cantoria da Queen Leech em Resident Evil 0, a franquia sempre foi “naturalista”, no sentido de que tudo tem uma explicação biológica e tecnológica coerente com a lógica própria daquele universo. Mutações, alucinações e “poderes” têm sempre uma explicação a partir de vírus, parasitas e fungos, e a criação de novos seres a partir deles tem uma implicação não somente na produção de armas biológicas, mas também na natureza.

Às vezes, esses monstros ficam confinados a espaços limitados, como o aeroporto de Harvardville ou a Ilha Rockfort. Porém, é muito claro que mesmo nesses espaços há risco de espalhamento, uma vez que desde Resident Evil 1 e 2 já temos vírus e monstros vazando de laboratórios para as montanhas Arklay e para Raccoon City.

Isso significa que o mundo de Resident Evil pode estar cheio de armas biológicas soltas por aí! E isso muito provavelmente causa um desequilíbrio no meio ambiente, pois esses seres são espécies invasoras sem predadores e com grande potencial de contaminação de plantas e animais.

O dano ambiental que Resident Evil já mostrou

Embora o impacto ambiental da criação e espalhamento indiscriminado de organismos artificiais pelo planeta não tenha sido abordado de forma central em Resident Evil, vários jogos e animações já nos trouxeram evidências bem explícitas de que ele acontece.

O primeiro a mostrar isso de maneira direta foi Resident Evil: Revelations, de 2012. O jogo já começa com Jill e Parker sendo acionados para verificar os cadáveres de criaturas estranhas encalhadas na praia. Na medida em que avançamos na história, vamos encontrando outros bichos, como Oozes, Sea Creepers e Scarmigliones, todos frutos de um novo vírus, o T-Abyss.

Os personagens Jill Valentine e clive O'Brien em Resident Evil Revelations observando criaturas estranhas mortas em uma praia.

A princípio, a maioria desses monstros está presa nos cruzeiros Queen Zenobia, Queen Semiramis e Queen Dido. Porém, fica evidente que alguns deles já escaparam para o mar aberto, provavelmente atacando outros animais sem ter outros predadores à altura (ou contaminando quem os comesse) e disseminando o vírus. O terrorista Jack Norman ameaçou espalhar o T-Abyss no oceano justamente porque ele sabia o tamanho do desequilíbrio ambiental que isso causaria e, consequentemente, o quanto isso seria catastrófico para a humanidade.

Uma situação muito semelhante acontece no início de Resident Evil: Death Island. A TerraSave é chamada quando animais marinhos com mordidas incompatíveis com as de seus predadores naturais chegam mortos nas praias de São Francisco, na Califórnia. Claire imediatamente liga os pontos com alguns casos de zumbificação na cidade, e ao longo do filme descobrimos que o vilão Dylan Blake também criou uma arma biológica supertubarão que está atacando grandes animais marinhos. Imagina se essa coisa sai comendo as baleias sem nada para impedir e as leva à extinção?

Vale dizer, no entanto, que antes dessas alusões mais claras, já podíamos pensar no impacto ambiental dos organismos de Resident Evil desde o primeiro jogo. O primeiro sinal disso está nos ataques de zumbis e cerberus às pessoas que visitavam as montanhas Arklay e posteriormente em Raccoon City, que são um desequilíbrio por si só.

Pouco depois, monstros formados de maneira acidental por meio da contaminação pelo T-vírus começaram a surgir. Os corvos que se alimentavam no corpo das vítimas nas Montanhas Arklay se infectaram de maneira natural, chegando até à cidade e possivelmente contribuindo para a epidemia. Os Drain Deimos e os Brain Suckers também têm origem em insetos (pulgas) infectados com o T-vírus por meio, por exemplo, do consumo do sangue dos zumbis que perambulavam pelas ruas de Raccoon City.

Minhoca gigante e disforme com garras em sua boca, conhecida como gravedigger (cavador de covas) em Resident Evil 3 Nemesis.

A Gravedigger é um exemplo de mutação acidental resultante do espalhamento do T-vírus em Raccoon City.

Isso sem contar as diversas infecções que não geraram mutantes tão disformes, como os cães, o jacaré de Resident Evil 2, a pulga gigante do metrô e os animais do zoológico vistos em Resident Evil Outbreak.

Ao que parece, com a explosão de Raccoon City e seus arredores, junto ao processo de limpeza de provas por parte da Umbrella e do governo dos Estados Unidos, esses animais infectados foram exterminados. Mas os corvos, por exemplo, voam, podendo ter saído da cidade antes da chegada da bomba. E se eles resolvessem migrar para outras regiões, infectando outros animais e espalhando o T-vírus de maneira incontrolável?

Claire Redfield em Resident Evil 2 de 1998 passando por um corredor enquanto corvos zumbis quebram as janelas e adentram violentamente o recinto.

E o mofo de Resident Evil 7? Ele não contaminou só a propriedade dos Baker, mas também parte das florestas nos arredores e a água do pântano quando o navio Annabelle, que levava Eveline e Mia, naufragou na costa da Louisiana. Tudo dá a entender que a Umbrella Azul e a BSAA fizeram um trabalho de descontaminação no local, mas será mesmo que não sobrou nada?

O mesmo poderia ser dito, talvez, dos Novistadores de Resident Evil 4. Sob ordens da Plaga Mestre ou não, esses insetos malditos poderiam voar para outras regiões da Espanha causando bastante estrago. Sem predadores e altamente velozes e letais para seres humanos, eles seriam uma praga bem difícil de controlar.

Temos ainda que pensar que as B.O.W.s não seriam perigosas somente por infectar outros animais, mas também pela posição que elas teriam na cadeia alimentar. Elas provavelmente assumiriam o topo imediatamente, já que não só não teriam predadores quanto provavelmente comeriam tudo que vissem pela frente.

Mia Winters em um bote no pântano chegando perto de um grande navio abandonado.

O pântano próximo da propriedade dos Baker e o navio Annabelle não estavam imunes ao mofo.

Isso sem nem entrar no mérito de como os vírus, fungos e parasitas poderiam interagir com outros microrganismos. Na própria saga, temos incontáveis exemplos de misturas artificiais de vírus entre si ou com outros organismos, a começar pelo próprio T-vírus, que é uma mistura do vírus Progenitor com o DNA de sanguessugas. O surgimento do G-vírus no corpo de Lisa Trevor também é resultado desse tipo de interação.

Assim, não seria impossível que essas fusões ocorressem naturalmente, por exemplo, com uma plaga sendo infectada pelo T-vírus e se tornando muito mais agressiva ou mesmo gerando um mutualismo (quando dois seres vivos vivem em conjunto com benefícios mútuos entre espécies, como líquens e a polinização feita por abelhas).

William Birkin em Resident Evil 2 olhando obsessivamente para um  frasco do G-vírus.

O G-vírus é resultado de uma série de misturas genéticas ocorridas no corpo de Lisa Trevor.

Exemplos da vida real

Hoje em dia, é proibido viajar entre regiões de flora diferente com sementes ou plantas vivas. Isso porque, se essas plantas não têm predadores naturais no local de destino, elas podem causar sérios desequilíbrios ecológicos, multiplicando-se, prejudicando as espécies nativas e até causando alterações no clima local. Um exemplo disso é a famosa amendoeira-da-praia, que é uma árvore muito comum no litoral brasileiro, mas que tem origem asiática e faz tanta sombra que prejudica o crescimento de plantas locais, podendo até alterar as características do solo.

Outro exemplo muito conhecido foi a varíola e a gripe trazidas pelos europeus para as Américas. Sem imunidade aos vírus estranhos, as populações indígenas foram brutalmente acometidas por essas doenças e isso teve um papel significativo em seu genocídio. O mesmo pode acontecer hoje se uma nova epidemia de varíola surgir; gerações mais jovens, como a minha e possivelmente a sua, não foram vacinadas contra o vírus porque a doença foi erradicada no final dos anos 1970.

Carlos Oliveira vacinando Jill Valentine desacordada em Resident Evil 3 Remake.

Podemos mencionar ainda casos que trazem a engenharia genética como ponto em comum com Resident Evil. Existe uma grande discussão em torno do uso de sementes transgênicas na agricultura e a contaminação de espécies nativas (chamadas de crioulas) com genes modificados. Isso porque, enquanto uma planta transgênica é modificada, por exemplo, para produzir em qualquer época do ano e para resistir a certos insetos, ela pode não ter resistência a características de uma região específica onde foi plantada, enquanto as plantas nativas estão acostumadas àquele ambiente. Com a mistura genética das duas plantas por meio da polinização, a resistência ao clima e a pragas locais pode diminuir, tornando-as mais frágeis e ameaçando o equilíbrio daquele ecossistema.

A própria atividade agrícola natural faz isso, mas de um ponto de vista evolutivo. É comum que espécies domesticadas tenham dificuldade de sobreviver na natureza, pois elas foram adaptadas às necessidades humanas, mas muitas perderam capacidades importantes para existir no ambiente selvagem. O milho que consumimos hoje, por exemplo, não se reproduz facilmente sem a intervenção humana, pois ao longo dos milênios de agricultura suas variedades foram sendo cruzadas e selecionadas para terem sementes grandes e firmes que não se soltam sozinhas da espiga, característica benéfica ao consumo, mas não para sua reprodução natural, que depende do espalhamento das sementes. Outro exemplo são as ovelhas domésticas, que não conseguem mais soltar a lã do corpo, dependendo da tosquia (a “tosa”) feita por humanos.

Imagem comparativa entre o teosinto, com espigas pequenas o milho e um milho intermediário entre os dois cereais.

O milho como conhecemos hoje é resultado de milênios de adaptação do teosinto. A imagem mostra a comparação da planta original com a que consumimos hoje. Imagem: Wikimedia Commons.

Até os vírus se modificam naturalmente para infectar mais hospedeiros. Se lembram das variantes da covid-19, que em geral eram menos letais, porém mais infecciosas? Quanto mais um vírus se espalha, mais oportunidade de multiplicar-se ele tem, e nessa multiplicação em larga escala ele sofre mutações, sendo uma das possibilidades a de se tornar mais contagioso. O mesmo acontece com os vírus da gripe, os adenovírus e rinovírus causadores de resfriados e todos os outros, e por isso as vacinas são atualizadas para combater novas cepas e variantes.

Perspectivas futuras

Eu gostaria muito de ver Resident Evil abordar mais o impacto ambiental das armas biológicas. Talvez isso não tenha sido feito até agora porque tornaria a história apocalítica demais (e já tivemos uma amostra bem ruim disso com os filmes do Paul Anderson) ou dificultaria o foco narrativo no bioterrorismo. Mas em um nível mais local, isso seria bastante interessante.

Me pergunto se Resident Evil Requiem, que nos fez a promessa de retorno ao que restou de Raccoon City, vai nos trazer alguma dica sobre isso.

Nos resta esperar.


Referências consultadas e leituras úteis:

ABDALA, Vitor. Mais de 200 plantas invasoras ameaçam vegetação nativa do país. Agência Brasil, 23 de janeiro de 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-03/mais-de-200-plantas-invasoras-ameacam-vegetacao-nativa-do-pais.  Acesso em 25 de junho de 2025.

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OLIVEIRA, Cila de. Sementes transgênicas reduzem a biodiversidade, aponta estudo da Unicamp. Brasil de Fato, 26 de abril de 2016. https://www.brasildefato.com.br/2016/04/25/sementes-transgenicas-reduzem-a-biodiversidade-aponta-estudo-da-unicamp/. Acesso em 17 de junho de 2025.

ROCHA, Elaine P. “A colonização dos corpos. A doença como ferramenta de dominação” e PREZIA, Benedito G.. “Epidemias entre indígenas do litoral do Brasil no Século XVI” In BRIGHETTI, Clovis A. (org.). Memórias indígenas da peste: epidemias e pandemias na América Latina. São Carlos (SP): Pedro & João Editores, 2022, p.31-98.

VALVERDE, Ricardo. O que são mutações, linhagens, cepas e variantes?. Agência Fiocruz de Notícias, 30 de março de 2021. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/o-que-sao-mutacoes-linhagens-cepas-e-variantes Acesso em 25 de junho de 2025.