Os vários Doutores Frankenstein de Resident Evil [Série RE e Frankenstein, Texto 2]

Este é o texto de número 2 da série Resident Evil e Frankenstein do blog e contém spoilers de todos os Resident Evils mencionados e da obra Frankenstein ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley.

No primeiro texto desta série, que eu recomendo que você leia antes deste, expliquei como Resident Evil tem muito de Frankenstein com suas criaturas e experimentos violadores das regras da natureza. Cientistas obcecados por suas criações destrutivas e pela vitória sobre a morte são a pedra fundamental das desgraças de ambas as narrativas, de modo que podemos pensar que Resident Evil tem, afinal, vários Doutores Frankensteins. Hoje é dia de falar um pouco de cada um deles.

Desde as origens

Podemos começar pelo próprio Ozwell Spencer, o “pai” dos Frankensteins de Resident Evil, que começou sua jornada querendo justamente criar um novo ser – uma versão evoluída de seres humanos de inteligência e genética superior (e foi daí que nasceu o projeto das Crianças Wesker). Totalmente alinhado com as ideias eugenistas, o velho aristocrata se incluía entre as pessoas dignas de serem chamadas de superiores, como fica bem explícito em suas últimas palavras para Wesker:

“Eu deveria me tornar um deus… criando um novo mundo com uma raça avançada de seres humanos. (…) Agora minha chama está fraca na vela. Irônico, não é? Para alguém que tem o direito de ser um deus, enfrentar sua própria mortalidade…”  [“I was to become a god…..creating a new world with an advanced race of Human beings. (…) Now my candle burns dimly. Ironic, isn’t it? For one who has the right to be a god! To face his own mortality…”]

E, antes disso, o fundador da Umbrella achava que poderia driblar também a morte, exigindo de Alex a fórmula perfeita para viver para sempre. A filha favorita até conseguiu alcançar algo próximo disso com o T-Phobos, mas foi embora com seu experimento, deixando Spencer para trás.

William Birkin talvez seja o caso mais semelhante a Victor Frankenstein. Obcecado por sua obra, ele esquece do resto do mundo, inclusive negligenciando sua família, exatamente como Victor. Quando o cientista está à beira da morte após ser baleado pelos soldados da U.S.S., ele tenta burlar o fim injetando o G-virus em si: “My creation will save me” (“Minha criação me salvará”). Sua versão em RE2 Remake dá a entender que ele está arrependido, já que podemos ouvi-lo gritando por ajuda e pedindo para que Leon e Claire o matem. Nisso ele se diferencia dos outros cientistas, que não demostram arrependimento, tornando-o mais próximo de Victor.

Alexia Ashford, por sua vez, acabou sendo uma Frankenstein de si mesma e no caminho para isso criou monstros como Steve infectado e Alexander Ashford. Embora o Ashford pai em sua forma monstruosa tenha nome de um vampiro (Nosferatu), ele carrega grandes semelhanças físicas com a Criatura de Mary Shelley. E o próprio Alexander é digno de menção como Victor Frankenstein também, afinal, Alexia e Alfred são “criaturas” suas desenvolvidas por meio da engenharia genética. E sabemos que ele se arrependeu de como conduziu isso, pois chegou ao ponto de criar uma arma especial para destruir a obsessão de sua filha pelo T-Veronica.

Um Frankenstein menos lembrado, mas que me chama bastante a atenção, é Greg Mueller, do cenário Decisions, Decisions, de Resident Evil Outbreak. O cientista da Umbrella não admitia que a empresa quisesse realizar uma produção em massa de seu Tyrant Thanatos, o qual era para ele a perfeição. Para Mueller, uma arma biológica não deveria ser somente “força bruta”, mas também deveria ser bela, ser “como um deus”. Um cientista que cria um monstro que é “como um deus” provavelmente se sente ele mesmo um quase deus, não é mesmo?

Greg Mueller admira seu Tyrant Thanatos exaltando sua perfeição: “Crescer demais enfraquece uma organização. O que devia ser importante é ofuscado pela ganância. Produção em massa? Ridículo! (…) Uma obra de arte é suficiente”

Os mais recentes

Derek Simmons é um tipo de Frankenstein bem particular. Em vez de burlar a morte, ele tentou recriar a mulher amada, ao estilo A Pele Em Que Habito (e o saudoso Resident Evil SAC do Felipe Demartini tem um texto ótimo sobre isso). A forma como ele violou a natureza talvez seja até mais grotesca que a Criatura de Frankenstein; afinal, ele transformou uma mulher viva em outra e a fez acreditar que era a original. Os Tyrants, ao menos até onde sabemos, sequer têm consciência da pessoa que eram, o que torna suas cobaias originais ao menos mortas.

Entre os Frankensteins mais recentemente acrescentados a Resident Evil, temos um que foi baseado diretamente no cientista de Mary Shelley: Karl Heisenberg. A infeliz fábrica do Lorde foi o palco de diversas experiências de criação de homens-máquina. No entanto, Heisenberg não possui aquela loucura obsessiva pela pesquisa – seu objetivo é construir um exército para enfrentar Mãe Miranda, não driblar a morte ou ser visto como um deus. Assim, ironicamente, o personagem baseado diretamente em Victor Frankenstein acabou sendo o menos Frankenstein de todos entre os cientistas loucos de Resident Evil.

Bem mais Victor do que Heisenberg é sua algoz Mãe Miranda. A vilã de RE Village almeja literal e diretamente burlar a morte, mas não a sua própria (ela mesma já era imortal graças ao megamiceto), e sim a de sua filha Eva, que já está morta. Para isso, ela cria diversas novas espécies, a começar pelo parasita Cadou que, ao infectar outros organismos, pode gerar mutações que criam novos seres genéricos, como os licanos, ou seres únicos, como Alcina Dimitrescu. Podemos dizer que a própria Eveline é uma espécie de criatura de Miranda nesse sentido, ainda que não diretamente.

Miranda conta com a ajuda de um tipo de Frankenstein muito peculiar que é também baseado em outro cientista louco da literatura oitocentista: Salvatore Moureau, nomeado a partir da Ilha do Dr. Moureau, um romance de H.G. Wells que trata de um cientista que tenta transformar animais em humanos. O livro é um forte herdeiro do legado de Frankenstein e seu cientista maluco possui diversas características comuns a Victor, como a obsessão, o brincar de Deus e os experimentos antiéticos. Salvatore Moureau, por sua vez, quer o reconhecimento de Mãe Miranda, e não mede esforços com suas cobaias para agradá-la. Assim, ele criou muitos licanos e também os Vârcolac, um híbrido entre os licanos comuns e o DNA de lobos.

É notável que, em boa parte dos casos citados, criadores são destruídos por suas criações, pois as criaturas perdem o controle ou adquirem vontade própria. Birkin é dominado pelo G e deixa de ser ele mesmo; Eveline infecta tudo o que vê pela frente e mata muita gente no caminho, não se mostrando uma arma confiável; o mutamiceto de Miranda gera o Ethan “puro mofo” e é ele quem a mata; Heisenberg, mesmo não tendo sucesso, voltou-se com força contra Miranda; Simmons não consegue fazer de Carla sua Ada, e ela ainda cria uma organização terrorista que causa muitos problemas para ele e o infecta com o C-vírus; Alex vai embora com o projeto que poderia dar a vida eterna a Spencer e é Albert quem mata o fundador da Umbrella com as próprias mãos.

Um longo legado

Poderíamos ir atrás das minúcias e buscar muitos outros Frankensteins em Resident Evil. Mas, cobrindo os principais, acredito que podemos ter uma boa ideia de como, de fato, há uma enorme proximidade entre os criadores e criaturas das duas histórias. Todas as armas biológicas são criaturas e todos os cientistas são Frankensteins. Pois todos eles revelam a violação da natureza por meio da criação de novas espécies e da tentativa de vencer o processo mais natural da vida, a morte.

O fato de Resident Evil ser basicamente composto de Drs.Frankensteins é uma demonstração clara de como a figura do cientista louco criando uma criatura horrenda com objetivos absurdos concebida por Mary Shelley foi poderosa e transformadora em sua época. Ela influenciou praticamente tudo o que veio depois, até mesmo nossa franquia favorita. Obrigada por isso, Mary Shelley!

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