É possível gostar de um jogo sem jogá-lo?

Televisão com um jogo de corridas ligado. Mais próximo à câmera, em foco, uma mão tom de pele bege segura um controle preto de PlayStation 3. A imagem está com filtro de arco-íris.

Uma sala cheia de crianças e/ou adolescentes. Uma pequena televisão de tubo de 14 polegadas. Uma pequena máquina com um ou dois controles. Todos os presentes estão vidrados na tela com os acontecimentos enquanto uma ou duas pessoas jogam; às vezes os controles vão passando de mão em mão a cada round ou cada vez que o personagem morria no jogo. Para quem cresceu nos anos 1990 e e nos primeiros anos da década de 2000, essa provavelmente foi uma cena comum para aqueles que tiveram acesso ao mundo dos videogames desde aquela época. Podia ser um SNES, um Playstation 1 ou 2, um Nintendo 64, um DreamCast, e isso quando não era em torno de uma máquina de arcade em alguma lanchonete ou lanhouse local.

Foram muitas as pessoas que entraram em contato com os videogames vendo seus irmãos mais velhos, primos ou amigos jogarem enquanto assistiam fascinadas. Mesmo não experimentando o jogo em si na época ou até mesmo nunca chegando a jogar aquele jogo em específico, assim fomos nos apaixonando por histórias e por personagens que estão conosco até os dias de hoje.

Anos mais tarde, com o advento da internet e principalmente do YouTube e das plataformas de streaming como a Justin.tv (hoje a Twitch), passamos a ter acesso a gameplays de jogos que achávamos que nunca mais veríamos e a muitos outros que foram lançados posteriormente. Pessoas que nunca terão dinheiro para ter um videogame podem apreciar essa arte – porque videogame é uma arte – por esses meios e assim estarem inseridas na comunidade de algum modo.

Modelo 2D de um controle de videogame genérico, com botões direcionais, Select, Start, A e B.

É claro que jogar e assistir são experiências muito diferentes. Quem não joga não consegue avaliar gameplay com profundidade e nem explorar totalmente os cenários (eu mesma sinto muita falta disso hoje em que quase não jogo mais), assim como muitas vezes uma pessoa joga muito um jogo mas conhece pouco de sua história (olá, files!). Mas nem por isso um ou outro deixa de ser fã, deixa?

Uma vez, meu companheiro comentou que, em um período de ressaca literária, ele recorria aos games para se inserir em novas histórias. E eu nunca tinha parado para pensar em como, de fato, os games fazem o mesmo papel que os livros e os filmes em nos levar ao mundo da ficção. Parecia muito diferente por conta da experiência ativa que é jogar videogame, porém, de fato acompanhar a narrativa e os personagens de um jogo nos envolve e apaixona tanto quanto em outras mídias.

E essas histórias também nos fazem refletir. Olhem só quantas discussões temos feito aqui no Arklay’s Library sobre Resident Evil e a nossa realidade, sobre inspirações históricas e culturais, sobre literatura. E são infinitos jogos que trazem essa possibilidade para além da mera diversão: Silent Hill e suas reflexões sobre os próprios demônios; Death Stranding sobre recriar as conexões que destruímos com nossas guerras; Red Dead Redemption e sua belíssima recriação do Velho Oeste; Assassin’s Creed com seus cenários muito bem estudados, além de modos incríveis como o Museu Virtual do Egito Ptolomaico de Assassin’ Creed Origins (que inclusive é o tema de mestrado de uma das minhas melhores amigas); a discussão sobre o meio ambiente em Final Fantasy VII; e assim podemos continuar por uma infinidade de possibilidades.

Print do gameplay da IGN de Assassin's Creed Origins no Discovery Tour. O personagem está na entrada de uma das pirâmides de Gizé.

Minha experiência pessoal

Eu conheci e me interessei por Resident Evil vendo meus primos jogando. Levei alguns anos para jogar pela primeira vez RE3, depois RE2 e mais ainda RE1, que era mais difícil para um pessoa como eu que sempre jogou videogame muito mal. Na mesma época, joguei RE Code Veronica – sem nunca terminar sozinha –  e um pouco depois Resident Evil 4, que terminei várias vezes. O último Resident Evil (pela cronologia dos lançamentos) que eu joguei pra valer foi Resident Evil: The Darkside Chronicles.

Depois disso, joguei pouquíssimos dos jogos subsequentes – o REmake eu joguei uma vez só; eu não me lembro se cheguei a pegar no controle para jogar RE5 e RE6 eu comprei na semana de lançamento, mas detestei a jogabilidade. E desde então não joguei quase nada – de vez em quando jogo um pouco aqui ali, mas há muitos anos que jogar videogame deixou de ser uma atividade frequente na minha vida por uma diversidade de fatores. E, quando jogo, acabo preferindo jogos mais fáceis e em estilos mais antigos, como Super Mario World ou mesmo Resident Evil 2 no modo rookie. Nem por isso deixei de amar Resident Evil e tudo o que vem com sua história – seus personagens, suas conspirações, suas artes, as animações, os livros.

Inventário de Resident Evil 2 no modo rookie, mostrando a metralhadora com munição infinita que começa conosco no game nesse modo.

É por isso que acabo falando mais de história e narrativa em meus textos; e é por isso que escrevo em vez de fazer lives. Vários leitores do blog já me convidaram para jogar com eles, mas eu fico até sem graça de recusar, pois sempre fico me sentindo uma traidora do movimento, uma poser, como costumávamos falar até uns anos atrás.

Mas a verdade é que eu amo Resident Evil e amo muitos jogos que acompanho pelo YouTube, pela Twitch, pelas páginas da Wiki, vendo meus amigos ou primos jogarem e de diversos outros meios que não são jogar. Isso não vai mudar.

Então…pode gostar de games sem jogar, né?

Gostar de um jogo de videogame é uma experiência além do ato de jogar. Games são também histórias, são projetos de arte, e isso tudo pode ser apreciado mesmo que a pessoa não consiga, não tenha acesso ou simplesmente não goste de jogar. Não à toa os canais de streaming são o maior sucesso na internet hoje. Cada um gosta à sua maneira. O que importa é que todos possam se divertir e compartilhar esse hobby respeitando a experiência de cada um.

Um comentário em “É possível gostar de um jogo sem jogá-lo?”

  1. Não precisa ter vergonha de não jogar os jogos atuais, como você se propõe a analisar a história de Resident Evil, não o gameplay e é honesta quanto a isso, ao meu vê tá tudo bem. Eu também não jogo os lançamentos atuais, não por falta de vontade e sim por não ter como mesmo. Tenho um ps3 e último lançamento da série que joguei foi o Revelations 2, no tempo certo eu jogo os próximos.

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