Debate: como está a representatividade de pessoas negras em Resident Evil?

Há algum tempo, estava assistindo a O Exterminador do Futuro (1984) pela 453972ª vez, mais especificamente a cena do ataque à delegacia, na qual o Sargento Ed Traxler leva um tiro do Exterminador. Nesse momento, me vieram à cabeça dois personagens de Resident Evil: Kenneth Sullivan e Marvin Branagh, dois policiais negros que também morrem nos jogos em que aparecem. Fiquei com aquilo na mente: será que é comum o policial negro morrer nos filmes dos anos 1980, 1990 e 2000?

Parando um pouco para pensar nisso, percebi que não necessariamente, já que há uma porção de filmes com policiais negros vivos por aí, como Máquina Mortífera, Bad Boys, A Hora do Rush, As Branquelas, Predador 2, Homens de Preto e tantos outros que variam entre ação e comédia.

Ainda assim, a questão me intrigou e acabou me fazendo pensar um pouco no papel do policial negro nos filmes de Hollywood e também nos policiais e militares de Resident Evil. Ponderando, achei que seria uma boa opção para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra no Brasil, falar um pouco sobre os personagens negros de Resident Evil.

A pergunta sobre a morte de policiais negros na mídia me levou a pesquisar um pouco sobre o assunto. Alguns resultados foram: 1) bastante discussão sobre personagens negros (policiais ou não) desumanizados ou mortos sem mais nem menos 2) um antigo debate sobre o papel do policial (ou qualquer personagem) negro como alívio cômico 3) a ideia de que o policial negro, na maioria das vezes, traz uma falsa representatividade, pois eles servem para auxiliar o protagonista branco ou mascaram a realidade de violência policial contra pessoas negras (algo bem forte nos Estados Unidos e no Brasil).

Em Resident Evil, temos vários personagens negros que são policiais ou treinados militarmente. Mas boa parte deles se encaixa em algum desses modelos que acabei de mencionar, como veremos a seguir.

Protagonistas?

Resident Evil tem uma variedade de personagens negros em seu elenco desde o primeiro jogo. Nenhum deles, no entanto, está entre os principais protagonistas. A única protagonista negra da franquia foi Sheva Alomar já em Resident Evil 5, que mesmo assim ficou apagada por uma série de motivos.

Não podemos esquecer que RE5 gerou uma grande discussão (extremamente importante) a respeito de racismo nos videogames, a ponto de a Capcom precisar fazer modificações no produto final. Ainda assim, diversos problemas permaneceram. Alguns estão especificamente ligados a Sheva: ela, a protagonista boa, tem a pele mais clara que os homens negros de Kijuju, os quais, mesmo antes de serem tomados pelo controle das plagas, já eram representados como brutos, vide o militar que tenta assediar a moça no início do game. Isso traz uma velha ideia que infelizmente ainda é muito difundida de que é o tom de pele mais claro que está associado a ser bom e “civilizado”.

Também é válido lembrar que a inteligência artificial do modo co-op de RE5 é conhecida por ser horrorosa, e como a maioria das pessoas jogavam com Chris, Sheva ficou estigmatizada como burra e como se só servisse para atrapalhar. Isso não é intrínseco à personagem, e sim um problema de jogabilidade, mas contribuiu para a impopularidade dela. A Capcom não fez muita questão de melhorar isso trazendo Sheva em outros jogos, e assim ela se perdeu.

Mais lembrado que Sheva é Marvin Branagh, provavelmente o personagem negro de maior destaque de Resident Evil.

Marvin apareceu no RE2 original para retornar em quase todos os outros jogos que se passam durante o apocalipse zumbi em Raccoon City. Destaco o Outbreak File #2, no cenário Desperate Times, e Resident Evil 2 e 3 Remake, em que tivemos uma perspectiva diferente dos acontecimentos. Infelizmente, no entanto, Marvin faz o papel do negro que existe apenas para sofrer, auxiliar os personagens brancos (primeiro Rita e Kevin e depois Claire e Leon) e morrer logo em seguida, sem ter muito mais aprofundamento. O desejo de ver mais do tenente é bem comum entre os fãs.

Há outros personagens com papeis importantes, mas bastante curtos nos games de Resident Evil. O primeiro deles foi Kenneth J. Sullivan, que por mais talentoso e qualificado que fosse, existiu na franquia apenas para morrer para o primeiro zumbi. Tivemos Tyrell Patrick, que no Resident Evil 3 original só aparece para ser morto por Nicholai. É interessante, no entanto, que ele foge um pouco do estereótipo por não ser americano e nem africano, e sim do Suriname, um país aqui do lado do Brasil que tem uma composição étnica bem particular. No Remake, Tyrell ganhou uma nova personalidade e mais destaque, mostrando-se um bom parceiro de Carlos, mas também terminou de um jeito bastante patético e bem mais “jogado” que em sua versão original. Em RE5, tivemos a breve participação de Josh Stone, mentor de Sheva, cujo papel é fundamentalmente auxiliar, e que nunca mais apareceu.

Temos ainda, nos Outbreaks, dois personagens negros jogáveis com histórias próprias: o guarda noturno Mark Wilkins e o funcionário do metrô Jim Chapman. Mark é outro personagem que tem treinamento militar, pois é veterano do Vietnã, e isso define a forma como ele lida com o caos zumbi. O seu é um raro caso de final feliz, pois ele consegue escapar de Raccoon e reencontrar sua família, que também havia escapado. Jim, por sua vez, acaba sendo apenas irritante por sua personalidade falante e medrosa.

A vantagem dos Resident Evil Outbreak é colocar esses personagens em uma posição de protagonismo. Infelizmente, porém, os jogos não são parte da série principal e por isso eles acabam tendo pouca visibilidade entre os fãs menos hardcore.

RE Code Veronica não tem personagens negros, tendo como personagem não branco Rodrigo, que é latino. RE4 introduziu Ingrid Hunnigan, que é descrita oficialmente como caucasiana ao mesmo tempo em que tem traços que poderiam caracterizá-la como negra (só eu acho isso estranho?). RE6 não se deu ao trabalho de trazer um personagem negro sequer. E em RE7 mais um policial negro morre.

Racismo na franquia?

Resident Evil nunca realizou uma discussão de raça, mas é de conhecimento geral que Resident Evil 5 gerou um enorme debate a respeito de racismo à época de sua produção e após seu lançamento.

É fundamental que lembremos que não importava que Chris não estivesse atirando nos majini por serem negros e sim por causa da plaga. Só a imagem de um homem branco americano atirando em africanos negros agindo como selvagens trazia uma carga simbólica de passado colonial e racismo extremamente explícita e pesada ao conteúdo do jogo, algo que incomodou muita gente e com total razão.

Essa imagem de RE5 toca temas muito sensíveis, já que ainda vivemos em uma sociedade profundamente racista e herdeira do colonialismo e da escravidão atlântica. No futuro, quero dedicar toda uma série de textos a Resident Evil 5 e essa discussão do racismo no jogo certamente estará presente.

Outra coisa que sempre me chamou a atenção foi um possível caso de whitewashing (quando um personagem não branco é interpretado por um branco, o que em geral acontece para agradar um público branco, apagar sua etnicidade ou por apropriação cultural, por exemplo). Talvez ninguém nunca tenha reparado, mas vejam a amada foto dos S.T.A.R.S.:

Nela, vemos 3 personagens negros ou de pele mais escura: Kenneth e outros dois que, pensando pelos dois que não aparecem em Resident Evil 1, seriam Edward e Kevin Dooley (o piloto; não confundam com o Kevin de Outbreak!). Oras, quando eles apareceram in gaming, Edward é branco e loiro e Kevin é branco também. Seria isso apenas um erro ou uma coisa deliberada? Será que aqueles homens da foto eram membros dos S.T.A.R.S. que não estavam mais na equipe? Será que a qualidade da foto é baixa demais para termos certeza do tom de pele dos personagens? Isso continua a me deixar com a pulga atrás da orelha.

Dentro da comunidade

Nos últimos tempos, o debate de raça veio forte para a comunidade de Resident Evil. Muitas pessoas na internet não esconderam seu racismo pelo fato de Jill Valentine e Leon S. Kennedy serem interpretados por atores não brancos no longa Bem-Vindo a Raccoon City (e lembremos que Avan Jogia é de ascendência indiana, não negra e nem latina!). E não se trata simplesmente de não gostar que o personagem não tem a mesma aparência do original – muitas pessoas foram atacar os atores nas redes sociais!

Hannah John-Kamen como Jill Valentine em Resident Evil: Welcome to Raccoon City.

O mesmo aconteceu com Lance Reddick, que vai interpretar um Albert Wesker totalmente diferente do dos jogos na série em live-action da Netflix. Muita gente dizia que o ator devia ser Kenneth ou Marvin e não Wesker, além de associarem a aparência dele com personagens ou pessoas que não se parecem em nada com ele, como se ele fosse somente a cor de sua pele.

É muito triste ver que uma parte muito grande da comunidade de Resident Evil prefere se doer com a cor de pele de atores que estão apenas fazendo seu trabalho do que com o fato de que a franquia tem pouquíssimos personagens negros importantes e com a discussão racial extremamente relevante gerada por Resident Evil 5.

Um debate longo

Este texto, evidentemente, foi bastante superficial na análise. Minha intenção foi mais trazer algumas perguntas, incômodos e um pouco do que encontrei a respeito desses questionamentos. Há diversas outras questões a serem abordadas ou aprofundadas dentro da discussão de raça em Resident Evil, inclusive a respeito de outras etnias dos personagens.

Eu gostaria muito de ouvir de vocês a respeito desse assunto. Os comentários estão abertos, desde que o debate seja inteiramente respeitoso. Racismo é crime e não será tolerado no Arklay’s Library.


Referências: