Deixo aqui meu agradecimento pela revisão técnica feita no texto pelo meu amigo Patrick, doutor em Agroecologia.
Resident Evil tem um universo que se aproxima muito do nosso. Não há magia, a história se passa no presente e não tem nada de distopia cyberpunk ou coisa do tipo. Apesar de momentos pontuais, como Village com sua aparência sobrenatural ou mesmo a cantoria da Queen Leech em Resident Evil 0, a franquia sempre foi “naturalista”, no sentido de que tudo tem uma explicação biológica e tecnológica coerente com a lógica própria daquele universo. Mutações, alucinações e “poderes” têm sempre uma explicação a partir de vírus, parasitas e fungos, e a criação de novos seres a partir deles tem uma implicação não somente na produção de armas biológicas, mas também na natureza.
Às vezes, esses monstros ficam confinados a espaços limitados, como o aeroporto de Harvardville ou a Ilha Rockfort. Porém, é muito claro que mesmo nesses espaços há risco de espalhamento, uma vez que desde Resident Evil 1 e 2 já temos vírus e monstros vazando de laboratórios para as montanhas Arklay e para Raccoon City.
Isso significa que o mundo de Resident Evil pode estar cheio de armas biológicas soltas por aí! E isso muito provavelmente causa um desequilíbrio no meio ambiente, pois esses seres são espécies invasoras sem predadores e com grande potencial de contaminação de plantas e animais.
O dano ambiental que Resident Evil já mostrou
Embora o impacto ambiental da criação e espalhamento indiscriminado de organismos artificiais pelo planeta não tenha sido abordado de forma central em Resident Evil, vários jogos e animações já nos trouxeram evidências bem explícitas de que ele acontece.
O primeiro a mostrar isso de maneira direta foi Resident Evil: Revelations, de 2012. O jogo já começa com Jill e Parker sendo acionados para verificar os cadáveres de criaturas estranhas encalhadas na praia. Na medida em que avançamos na história, vamos encontrando outros bichos, como Oozes, Sea Creepers e Scarmigliones, todos frutos de um novo vírus, o T-Abyss.

A princípio, a maioria desses monstros está presa nos cruzeiros Queen Zenobia, Queen Semiramis e Queen Dido. Porém, fica evidente que alguns deles já escaparam para o mar aberto, provavelmente atacando outros animais sem ter outros predadores à altura (ou contaminando quem os comesse) e disseminando o vírus. O terrorista Jack Norman ameaçou espalhar o T-Abyss no oceano justamente porque ele sabia o tamanho do desequilíbrio ambiental que isso causaria e, consequentemente, o quanto isso seria catastrófico para a humanidade.
Uma situação muito semelhante acontece no início de Resident Evil: Death Island. A TerraSave é chamada quando animais marinhos com mordidas incompatíveis com as de seus predadores naturais chegam mortos nas praias de São Francisco, na Califórnia. Claire imediatamente liga os pontos com alguns casos de zumbificação na cidade, e ao longo do filme descobrimos que o vilão Dylan Blake também criou uma arma biológica supertubarão que está atacando grandes animais marinhos. Imagina se essa coisa sai comendo as baleias sem nada para impedir e as leva à extinção?
Vale dizer, no entanto, que antes dessas alusões mais claras, já podíamos pensar no impacto ambiental dos organismos de Resident Evil desde o primeiro jogo. O primeiro sinal disso está nos ataques de zumbis e cerberus às pessoas que visitavam as montanhas Arklay e posteriormente em Raccoon City, que são um desequilíbrio por si só.
Pouco depois, monstros formados de maneira acidental por meio da contaminação pelo T-vírus começaram a surgir. Os corvos que se alimentavam no corpo das vítimas nas Montanhas Arklay se infectaram de maneira natural, chegando até à cidade e possivelmente contribuindo para a epidemia. Os Drain Deimos e os Brain Suckers também têm origem em insetos (pulgas) infectados com o T-vírus por meio, por exemplo, do consumo do sangue dos zumbis que perambulavam pelas ruas de Raccoon City.

A Gravedigger é um exemplo de mutação acidental resultante do espalhamento do T-vírus em Raccoon City.
Isso sem contar as diversas infecções que não geraram mutantes tão disformes, como os cães, o jacaré de Resident Evil 2, a pulga gigante do metrô e os animais do zoológico vistos em Resident Evil Outbreak.
Ao que parece, com a explosão de Raccoon City e seus arredores, junto ao processo de limpeza de provas por parte da Umbrella e do governo dos Estados Unidos, esses animais infectados foram exterminados. Mas os corvos, por exemplo, voam, podendo ter saído da cidade antes da chegada da bomba. E se eles resolvessem migrar para outras regiões, infectando outros animais e espalhando o T-vírus de maneira incontrolável?

E o mofo de Resident Evil 7? Ele não contaminou só a propriedade dos Baker, mas também parte das florestas nos arredores e a água do pântano quando o navio Annabelle, que levava Eveline e Mia, naufragou na costa da Louisiana. Tudo dá a entender que a Umbrella Azul e a BSAA fizeram um trabalho de descontaminação no local, mas será mesmo que não sobrou nada?
O mesmo poderia ser dito, talvez, dos Novistadores de Resident Evil 4. Sob ordens da Plaga Mestre ou não, esses insetos malditos poderiam voar para outras regiões da Espanha causando bastante estrago. Sem predadores e altamente velozes e letais para seres humanos, eles seriam uma praga bem difícil de controlar.
Temos ainda que pensar que as B.O.W.s não seriam perigosas somente por infectar outros animais, mas também pela posição que elas teriam na cadeia alimentar. Elas provavelmente assumiriam o topo imediatamente, já que não só não teriam predadores quanto provavelmente comeriam tudo que vissem pela frente.

O pântano próximo da propriedade dos Baker e o navio Annabelle não estavam imunes ao mofo.
Isso sem nem entrar no mérito de como os vírus, fungos e parasitas poderiam interagir com outros microrganismos. Na própria saga, temos incontáveis exemplos de misturas artificiais de vírus entre si ou com outros organismos, a começar pelo próprio T-vírus, que é uma mistura do vírus Progenitor com o DNA de sanguessugas. O surgimento do G-vírus no corpo de Lisa Trevor também é resultado desse tipo de interação.
Assim, não seria impossível que essas fusões ocorressem naturalmente, por exemplo, com uma plaga sendo infectada pelo T-vírus e se tornando muito mais agressiva ou mesmo gerando um mutualismo (quando dois seres vivos vivem em conjunto com benefícios mútuos entre espécies, como líquens e a polinização feita por abelhas).

O G-vírus é resultado de uma série de misturas genéticas ocorridas no corpo de Lisa Trevor.
Exemplos da vida real
Hoje em dia, é proibido viajar entre regiões de flora diferente com sementes ou plantas vivas. Isso porque, se essas plantas não têm predadores naturais no local de destino, elas podem causar sérios desequilíbrios ecológicos, multiplicando-se, prejudicando as espécies nativas e até causando alterações no clima local. Um exemplo disso é a famosa amendoeira-da-praia, que é uma árvore muito comum no litoral brasileiro, mas que tem origem asiática e faz tanta sombra que prejudica o crescimento de plantas locais, podendo até alterar as características do solo.
Outro exemplo muito conhecido foi a varíola e a gripe trazidas pelos europeus para as Américas. Sem imunidade aos vírus estranhos, as populações indígenas foram brutalmente acometidas por essas doenças e isso teve um papel significativo em seu genocídio. O mesmo pode acontecer hoje se uma nova epidemia de varíola surgir; gerações mais jovens, como a minha e possivelmente a sua, não foram vacinadas contra o vírus porque a doença foi erradicada no final dos anos 1970.

Podemos mencionar ainda casos que trazem a engenharia genética como ponto em comum com Resident Evil. Existe uma grande discussão em torno do uso de sementes transgênicas na agricultura e a contaminação de espécies nativas (chamadas de crioulas) com genes modificados. Isso porque, enquanto uma planta transgênica é modificada, por exemplo, para produzir em qualquer época do ano e para resistir a certos insetos, ela pode não ter resistência a características de uma região específica onde foi plantada, enquanto as plantas nativas estão acostumadas àquele ambiente. Com a mistura genética das duas plantas por meio da polinização, a resistência ao clima e a pragas locais pode diminuir, tornando-as mais frágeis e ameaçando o equilíbrio daquele ecossistema.
A própria atividade agrícola natural faz isso, mas de um ponto de vista evolutivo. É comum que espécies domesticadas tenham dificuldade de sobreviver na natureza, pois elas foram adaptadas às necessidades humanas, mas muitas perderam capacidades importantes para existir no ambiente selvagem. O milho que consumimos hoje, por exemplo, não se reproduz facilmente sem a intervenção humana, pois ao longo dos milênios de agricultura suas variedades foram sendo cruzadas e selecionadas para terem sementes grandes e firmes que não se soltam sozinhas da espiga, característica benéfica ao consumo, mas não para sua reprodução natural, que depende do espalhamento das sementes. Outro exemplo são as ovelhas domésticas, que não conseguem mais soltar a lã do corpo, dependendo da tosquia (a “tosa”) feita por humanos.

O milho como conhecemos hoje é resultado de milênios de adaptação do teosinto. A imagem mostra a comparação da planta original com a que consumimos hoje. Imagem: Wikimedia Commons.
Até os vírus se modificam naturalmente para infectar mais hospedeiros. Se lembram das variantes da covid-19, que em geral eram menos letais, porém mais infecciosas? Quanto mais um vírus se espalha, mais oportunidade de multiplicar-se ele tem, e nessa multiplicação em larga escala ele sofre mutações, sendo uma das possibilidades a de se tornar mais contagioso. O mesmo acontece com os vírus da gripe, os adenovírus e rinovírus causadores de resfriados e todos os outros, e por isso as vacinas são atualizadas para combater novas cepas e variantes.
Perspectivas futuras
Eu gostaria muito de ver Resident Evil abordar mais o impacto ambiental das armas biológicas. Talvez isso não tenha sido feito até agora porque tornaria a história apocalítica demais (e já tivemos uma amostra bem ruim disso com os filmes do Paul Anderson) ou dificultaria o foco narrativo no bioterrorismo. Mas em um nível mais local, isso seria bastante interessante.
Me pergunto se Resident Evil Requiem, que nos fez a promessa de retorno ao que restou de Raccoon City, vai nos trazer alguma dica sobre isso.
Nos resta esperar.
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Referências consultadas e leituras úteis:
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CAMILO, Cicera J.; SILVA, Risoneide H. da. “A domesticação da natureza como marco da história humana” In GONÇALVES-SOUZA, Thiago; DE ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino. Introdução ao antropoceno. 1.ed. Recife: Nupeea, 2022, p. 23-40.
Cientistas se baseiam em evidências genéticas e arqueológicas para uma nova versão da história do milho. EMBRAPA, 13 de dezembro de 2018. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/40019246/cientistas-se-baseiam-em-evidencias-geneticas-e-arqueologicas-para-uma-nova-versao-da-historia-do-milho Acesso em 26 de junho de 2025.
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OLIVEIRA, Cila de. Sementes transgênicas reduzem a biodiversidade, aponta estudo da Unicamp. Brasil de Fato, 26 de abril de 2016. https://www.brasildefato.com.br/2016/04/25/sementes-transgenicas-reduzem-a-biodiversidade-aponta-estudo-da-unicamp/. Acesso em 17 de junho de 2025.
ROCHA, Elaine P. “A colonização dos corpos. A doença como ferramenta de dominação” e PREZIA, Benedito G.. “Epidemias entre indígenas do litoral do Brasil no Século XVI” In BRIGHETTI, Clovis A. (org.). Memórias indígenas da peste: epidemias e pandemias na América Latina. São Carlos (SP): Pedro & João Editores, 2022, p.31-98.
VALVERDE, Ricardo. O que são mutações, linhagens, cepas e variantes?. Agência Fiocruz de Notícias, 30 de março de 2021. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/o-que-sao-mutacoes-linhagens-cepas-e-variantes Acesso em 25 de junho de 2025.













