O impacto ambiental das armas biológicas em Resident Evil

Resident Evil tem um universo que se aproxima muito do nosso. Não há magia, a história se passa no presente e não tem nada de distopia cyberpunk ou coisa do tipo. Apesar de momentos pontuais, como Village com sua aparência sobrenatural ou mesmo a cantoria da Queen Leech em Resident Evil 0, a franquia sempre foi “naturalista”, no sentido de que tudo tem uma explicação biológica e tecnológica coerente com a lógica própria daquele universo. Mutações, alucinações e “poderes” têm sempre uma explicação a partir de vírus, parasitas e fungos, e a criação de novos seres a partir deles tem uma implicação não somente na produção de armas biológicas, mas também na natureza.

Às vezes, esses monstros ficam confinados a espaços limitados, como o aeroporto de Harvardville ou a Ilha Rockfort. Porém, é muito claro que mesmo nesses espaços há risco de espalhamento, uma vez que desde Resident Evil 1 e 2 já temos vírus e monstros vazando de laboratórios para as montanhas Arklay e para Raccoon City.

Isso significa que o mundo de Resident Evil pode estar cheio de armas biológicas soltas por aí! E isso muito provavelmente causa um desequilíbrio no meio ambiente, pois esses seres são espécies invasoras sem predadores e com grande potencial de contaminação de plantas e animais.

O dano ambiental que Resident Evil já mostrou

Embora o impacto ambiental da criação e espalhamento indiscriminado de organismos artificiais pelo planeta não tenha sido abordado de forma central em Resident Evil, vários jogos e animações já nos trouxeram evidências bem explícitas de que ele acontece.

O primeiro a mostrar isso de maneira direta foi Resident Evil: Revelations, de 2012. O jogo já começa com Jill e Parker sendo acionados para verificar os cadáveres de criaturas estranhas encalhadas na praia. Na medida em que avançamos na história, vamos encontrando outros bichos, como Oozes, Sea Creepers e Scarmigliones, todos frutos de um novo vírus, o T-Abyss.

Os personagens Jill Valentine e clive O'Brien em Resident Evil Revelations observando criaturas estranhas mortas em uma praia.

A princípio, a maioria desses monstros está presa nos cruzeiros Queen Zenobia, Queen Semiramis e Queen Dido. Porém, fica evidente que alguns deles já escaparam para o mar aberto, provavelmente atacando outros animais sem ter outros predadores à altura (ou contaminando quem os comesse) e disseminando o vírus. O terrorista Jack Norman ameaçou espalhar o T-Abyss no oceano justamente porque ele sabia o tamanho do desequilíbrio ambiental que isso causaria e, consequentemente, o quanto isso seria catastrófico para a humanidade.

Uma situação muito semelhante acontece no início de Resident Evil: Death Island. A TerraSave é chamada quando animais marinhos com mordidas incompatíveis com as de seus predadores naturais chegam mortos nas praias de São Francisco, na Califórnia. Claire imediatamente liga os pontos com alguns casos de zumbificação na cidade, e ao longo do filme descobrimos que o vilão Dylan Blake também criou uma arma biológica supertubarão que está atacando grandes animais marinhos. Imagina se essa coisa sai comendo as baleias sem nada para impedir e as leva à extinção?

Vale dizer, no entanto, que antes dessas alusões mais claras, já podíamos pensar no impacto ambiental dos organismos de Resident Evil desde o primeiro jogo. O primeiro sinal disso está nos ataques de zumbis e cerberus às pessoas que visitavam as montanhas Arklay e posteriormente em Raccoon City, que são um desequilíbrio por si só.

Pouco depois, monstros formados de maneira acidental por meio da contaminação pelo T-vírus começaram a surgir. Os corvos que se alimentavam no corpo das vítimas nas Montanhas Arklay se infectaram de maneira natural, chegando até à cidade e possivelmente contribuindo para a epidemia. Os Drain Deimos e os Brain Suckers também têm origem em insetos (pulgas) infectados com o T-vírus por meio, por exemplo, do consumo do sangue dos zumbis que perambulavam pelas ruas de Raccoon City.

Minhoca gigante e disforme com garras em sua boca, conhecida como gravedigger (cavador de covas) em Resident Evil 3 Nemesis.

A Gravedigger é um exemplo de mutação acidental resultante do espalhamento do T-vírus em Raccoon City.

Isso sem contar as diversas infecções que não geraram mutantes tão disformes, como os cães, o jacaré de Resident Evil 2, a pulga gigante do metrô e os animais do zoológico vistos em Resident Evil Outbreak.

Ao que parece, com a explosão de Raccoon City e seus arredores, junto ao processo de limpeza de provas por parte da Umbrella e do governo dos Estados Unidos, esses animais infectados foram exterminados. Mas os corvos, por exemplo, voam, podendo ter saído da cidade antes da chegada da bomba. E se eles resolvessem migrar para outras regiões, infectando outros animais e espalhando o T-vírus de maneira incontrolável?

Claire Redfield em Resident Evil 2 de 1998 passando por um corredor enquanto corvos zumbis quebram as janelas e adentram violentamente o recinto.

E o mofo de Resident Evil 7? Ele não contaminou só a propriedade dos Baker, mas também parte das florestas nos arredores e a água do pântano quando o navio Annabelle, que levava Eveline e Mia, naufragou na costa da Louisiana. Tudo dá a entender que a Umbrella Azul e a BSAA fizeram um trabalho de descontaminação no local, mas será mesmo que não sobrou nada?

O mesmo poderia ser dito, talvez, dos Novistadores de Resident Evil 4. Sob ordens da Plaga Mestre ou não, esses insetos malditos poderiam voar para outras regiões da Espanha causando bastante estrago. Sem predadores e altamente velozes e letais para seres humanos, eles seriam uma praga bem difícil de controlar.

Temos ainda que pensar que as B.O.W.s não seriam perigosas somente por infectar outros animais, mas também pela posição que elas teriam na cadeia alimentar. Elas provavelmente assumiriam o topo imediatamente, já que não só não teriam predadores quanto provavelmente comeriam tudo que vissem pela frente.

Mia Winters em um bote no pântano chegando perto de um grande navio abandonado.

O pântano próximo da propriedade dos Baker e o navio Annabelle não estavam imunes ao mofo.

Isso sem nem entrar no mérito de como os vírus, fungos e parasitas poderiam interagir com outros microrganismos. Na própria saga, temos incontáveis exemplos de misturas artificiais de vírus entre si ou com outros organismos, a começar pelo próprio T-vírus, que é uma mistura do vírus Progenitor com o DNA de sanguessugas. O surgimento do G-vírus no corpo de Lisa Trevor também é resultado desse tipo de interação.

Assim, não seria impossível que essas fusões ocorressem naturalmente, por exemplo, com uma plaga sendo infectada pelo T-vírus e se tornando muito mais agressiva ou mesmo gerando um mutualismo (quando dois seres vivos vivem em conjunto com benefícios mútuos entre espécies, como líquens e a polinização feita por abelhas).

William Birkin em Resident Evil 2 olhando obsessivamente para um  frasco do G-vírus.

O G-vírus é resultado de uma série de misturas genéticas ocorridas no corpo de Lisa Trevor.

Exemplos da vida real

Hoje em dia, é proibido viajar entre regiões de flora diferente com sementes ou plantas vivas. Isso porque, se essas plantas não têm predadores naturais no local de destino, elas podem causar sérios desequilíbrios ecológicos, multiplicando-se, prejudicando as espécies nativas e até causando alterações no clima local. Um exemplo disso é a famosa amendoeira-da-praia, que é uma árvore muito comum no litoral brasileiro, mas que tem origem asiática e faz tanta sombra que prejudica o crescimento de plantas locais, podendo até alterar as características do solo.

Outro exemplo muito conhecido foi a varíola e a gripe trazidas pelos europeus para as Américas. Sem imunidade aos vírus estranhos, as populações indígenas foram brutalmente acometidas por essas doenças e isso teve um papel significativo em seu genocídio. O mesmo pode acontecer hoje se uma nova epidemia de varíola surgir; gerações mais jovens, como a minha e possivelmente a sua, não foram vacinadas contra o vírus porque a doença foi erradicada no final dos anos 1970.

Carlos Oliveira vacinando Jill Valentine desacordada em Resident Evil 3 Remake.

Podemos mencionar ainda casos que trazem a engenharia genética como ponto em comum com Resident Evil. Existe uma grande discussão em torno do uso de sementes transgênicas na agricultura e a contaminação de espécies nativas (chamadas de crioulas) com genes modificados. Isso porque, enquanto uma planta transgênica é modificada, por exemplo, para produzir em qualquer época do ano e para resistir a certos insetos, ela pode não ter resistência a características de uma região específica onde foi plantada, enquanto as plantas nativas estão acostumadas àquele ambiente. Com a mistura genética das duas plantas por meio da polinização, a resistência ao clima e a pragas locais pode diminuir, tornando-as mais frágeis e ameaçando o equilíbrio daquele ecossistema.

A própria atividade agrícola natural faz isso, mas de um ponto de vista evolutivo. É comum que espécies domesticadas tenham dificuldade de sobreviver na natureza, pois elas foram adaptadas às necessidades humanas, mas muitas perderam capacidades importantes para existir no ambiente selvagem. O milho que consumimos hoje, por exemplo, não se reproduz facilmente sem a intervenção humana, pois ao longo dos milênios de agricultura suas variedades foram sendo cruzadas e selecionadas para terem sementes grandes e firmes que não se soltam sozinhas da espiga, característica benéfica ao consumo, mas não para sua reprodução natural, que depende do espalhamento das sementes. Outro exemplo são as ovelhas domésticas, que não conseguem mais soltar a lã do corpo, dependendo da tosquia (a “tosa”) feita por humanos.

Imagem comparativa entre o teosinto, com espigas pequenas o milho e um milho intermediário entre os dois cereais.

O milho como conhecemos hoje é resultado de milênios de adaptação do teosinto. A imagem mostra a comparação da planta original com a que consumimos hoje. Imagem: Wikimedia Commons.

Até os vírus se modificam naturalmente para infectar mais hospedeiros. Se lembram das variantes da covid-19, que em geral eram menos letais, porém mais infecciosas? Quanto mais um vírus se espalha, mais oportunidade de multiplicar-se ele tem, e nessa multiplicação em larga escala ele sofre mutações, sendo uma das possibilidades a de se tornar mais contagioso. O mesmo acontece com os vírus da gripe, os adenovírus e rinovírus causadores de resfriados e todos os outros, e por isso as vacinas são atualizadas para combater novas cepas e variantes.

Perspectivas futuras

Eu gostaria muito de ver Resident Evil abordar mais o impacto ambiental das armas biológicas. Talvez isso não tenha sido feito até agora porque tornaria a história apocalítica demais (e já tivemos uma amostra bem ruim disso com os filmes do Paul Anderson) ou dificultaria o foco narrativo no bioterrorismo. Mas em um nível mais local, isso seria bastante interessante.

Me pergunto se Resident Evil Requiem, que nos fez a promessa de retorno ao que restou de Raccoon City, vai nos trazer alguma dica sobre isso.

Nos resta esperar.


Referências consultadas e leituras úteis:

ABDALA, Vitor. Mais de 200 plantas invasoras ameaçam vegetação nativa do país. Agência Brasil, 23 de janeiro de 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-03/mais-de-200-plantas-invasoras-ameacam-vegetacao-nativa-do-pais.  Acesso em 25 de junho de 2025.

CAMILO, Cicera J.; SILVA, Risoneide H. da. “A domesticação da natureza como marco da história humana” In GONÇALVES-SOUZA, Thiago; DE ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino. Introdução ao antropoceno. 1.ed. Recife: Nupeea, 2022, p. 23-40.

Cientistas se baseiam em evidências genéticas e arqueológicas para uma nova versão da história do milho. EMBRAPA, 13 de dezembro de 2018. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/40019246/cientistas-se-baseiam-em-evidencias-geneticas-e-arqueologicas-para-uma-nova-versao-da-historia-do-milho Acesso em 26 de junho de 2025.

Milho crioulo sofre contaminação alarmante por transgênicos no Semiárido. Articulação Nacional de Agroecologia, 24 de abril de 2022. https://agroecologia.org.br/2022/04/24/milho-crioulo-sofre-contaminacao-alarmante-do-por-transgenicos-no-semiarido/. Acesso em 17 de junho de 2025.

OLIVEIRA, Cila de. Sementes transgênicas reduzem a biodiversidade, aponta estudo da Unicamp. Brasil de Fato, 26 de abril de 2016. https://www.brasildefato.com.br/2016/04/25/sementes-transgenicas-reduzem-a-biodiversidade-aponta-estudo-da-unicamp/. Acesso em 17 de junho de 2025.

ROCHA, Elaine P. “A colonização dos corpos. A doença como ferramenta de dominação” e PREZIA, Benedito G.. “Epidemias entre indígenas do litoral do Brasil no Século XVI” In BRIGHETTI, Clovis A. (org.). Memórias indígenas da peste: epidemias e pandemias na América Latina. São Carlos (SP): Pedro & João Editores, 2022, p.31-98.

VALVERDE, Ricardo. O que são mutações, linhagens, cepas e variantes?. Agência Fiocruz de Notícias, 30 de março de 2021. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/o-que-sao-mutacoes-linhagens-cepas-e-variantes Acesso em 25 de junho de 2025.

1 ano de Arklay’s Library: por que falar de Resident Evil e história?

No dia 4 de maio de 2021, eu publicava o primeiro texto deste blog: A Romênia que nos trará Resident Evil Village. Estávamos a apenas três dias do lançamento daquele ousado novo título numerado da nossa franquia de videogames favorita e escolhi lançar o blog naquela época justamente para aproveitar o hype.

Mas eu não tinha ideia de como a resposta àquele primeiro e humilde texto seria positiva, tanto com os elogios quanto com a quantidade de gente que se interessou pelo material e pelo blog logo de cara. Naquele mês de maio, foram 68 visualizações apenas naquele texto! E depois veio o sucesso dos outros textos, que culminaram juntos até mesmo em um episódio do podcast do Resident Evil Database.

O blog cresceu muito rápido em pouquíssimo tempo e isso foi uma grande (e maravilhosa!) surpresa para mim, pois eu não pensava que uma proposta tão de nicho – um game específico com uma abordagem ainda mais específica – teria tantos adeptos.

Foi muito gostoso ver quantas pessoas gostavam de discutir as questões históricas da vida real relacionadas a Resident Evil, e isso deu uma motivação extra para o meu trabalho; afinal, o historiador não pesquisa apenas para si mesmo (ou ao menos não deveria), e sim para o mundo, e isso inclui falarmos de história e cultura pop/nerd/geek e afins.

E por que gostamos de falar de Resident Evil e história, então? Por que falar de Resident Evil e história?

Todo produto cultural tem um contexto

Qualquer livro, filme, poema, série, música e inclusive videogame é inspirado em alguma coisa. Isso inclui outras obras de ficção – elas mesmas inspiradas na vida real – e também elementos da realidade histórica, social e cultural de seus criadores.

É de conhecimento geral que Resident Evil teve inspirações como o game Sweet Home e os filmes de zumbis de George A. Romero, mas também é evidente como acontecimentos e fenômenos reais têm influência no rumo de seus acontecimentos. A Umbrella produzia armas biológicas em um contexto de final de Guerra Fria, o governo dos EUA do universo RE descumpriu o Tratado de 1972 da vida real contra armas químicas e biológicas, as motivações dos fundadores da Umbrella estavam relacionadas à mesma eugenia que levou aos horrores do nazismo.

Esses detalhes são escolhas conscientes de pessoas como Shinji Mikami, Kenichi Iwao, Noboru Sugimura, Dai Satō e tantos outros que passaram pela franquia até hoje.

E não podemos nos esquecer que, enquanto seres humanos pertencentes a seu próprio momento histórico, a certas visões de mundo, a certa cultura, certa trajetória de vida, essas pessoas também levam a seus jogos suas experiências pessoas e sociais.

Um mundo próximo do nosso

Enquanto a maioria dos games de aventura aos quais o público estava acostumado fazia uso de elementos fantásticos, fosse no âmbito da magia ou da ficção científica, o Resident Evil de 1996 trouxe algo que, a meu ver, é um de seus diferenciais ainda hoje: uma proximidade com o mundo real como poucos outros jogos faziam até então.

Quantas pessoas eu já não ouvi dizendo que nunca tinham visto nada igual! A sensação de vulnerabilidade de um personagem comum – um policial treinado, mas ainda assim um ser humano sem superpoderes nem próteses cibernéticas – diante de monstruosidades criadas por uma megacorporação (que temos aos montes cheias de denúncias de trabalho escravo ou precário, destruição do meio ambiente etc) por meio de um uso antitético da ciência com finalidades políticas (Guerra Fria, eugenia, negacionismo de vacinas).

Era uma mistura de aventura com terror e ficção científica que não se distanciava tanto da realidade que nos cercava, e quantos de nós já não se pegaram pensando: será que é possível uma epidemia causada por um vírus zumbi?

Eu sempre gosto de remontar a Kenichi Iwao, que foi o criador do conceito da infecção viral e que para mim merece tanto crédito na criação de Resident Evil quanto Mikami. Para ele, o realismo da ambientação faz parte do medo, pois o jogador se identifica com aquela situação e se sente mais indefeso ainda. Recomendo demais que leiam esta entrevista absolutamente incrível dele para o Crimson Head.

Aprofundamento do lore

Para amantes do lore, como eu e provavelmente vocês que me acompanham, compreender o contexto por trás da construção do enredo de Resident Evil contribui muito para compreendê-lo mais profundamente.

Ao conhecermos a importância do lobisomem no folclore romeno, entendemos por que eles foram escolhidos para serem os principais inimigos de RE Village; quando entendemos como os veteranos americanos das guerras muitas vezes são abandonados pelo Estado, compreendemos por que Jason queria mostrar o medo para o mundo em Infinite Darkness; quando nos lembramos de que os EUA jogaram duas bombas atômicas sobre civis em Hiroshima e Nagasaki, temos uma ideia de por que no universo dos games o governo americano não teve escrúpulos em dizimar Raccoon City com uma bomba mesmo com a possibilidade de sobreviventes serem mortos junto com os monstros.

Games são cultura

É verdade que videogames são um produto comercial feito para as empresas ganharem dinheiro. Porém, o processo de criação deles envolve muito mais do que isso – ele está repleto de verdadeiros artistas que trabalham muito para construir narrativas envolventes, cenários bonitos que ajudem a contar uma história, personagens cativantes com os quais nos identificamos e passamos a amar.

Por isso, acredito que videogame é sim uma forma de arte tanto quanto a literatura ou o cinema. Resident Evil não fica fora disso de modo algum, com seus 26 anos contando a história de como seria nosso mundo se uma megacorporação resolvesse criar monstros como armas. Bom, nós temos megacorporações que vendem armas comuns e que se aproveitam da guerra alheia para vender, não?

Por isso, falar de games e história, de Resident Evil e história, não deixa de ser uma forma de, também, refletirmos sobre nosso próprio mundo e sobre nós mesmos. E eu sou muito grata a todos, todas e todes – mais de mil visitantes e quase 2 mil visualizações de mais de 30 países – que embarcaram nessa empreitada comigo nesse último ano.

Muito obrigada e que venham muitos mais!

Debate: como está a representatividade de pessoas negras em Resident Evil?

Há algum tempo, estava assistindo a O Exterminador do Futuro (1984) pela 453972ª vez, mais especificamente a cena do ataque à delegacia, na qual o Sargento Ed Traxler leva um tiro do Exterminador. Nesse momento, me vieram à cabeça dois personagens de Resident Evil: Kenneth Sullivan e Marvin Branagh, dois policiais negros que também morrem nos jogos em que aparecem. Fiquei com aquilo na mente: será que é comum o policial negro morrer nos filmes dos anos 1980, 1990 e 2000?

Parando um pouco para pensar nisso, percebi que não necessariamente, já que há uma porção de filmes com policiais negros vivos por aí, como Máquina Mortífera, Bad Boys, A Hora do Rush, As Branquelas, Predador 2, Homens de Preto e tantos outros que variam entre ação e comédia.

Ainda assim, a questão me intrigou e acabou me fazendo pensar um pouco no papel do policial negro nos filmes de Hollywood e também nos policiais e militares de Resident Evil. Ponderando, achei que seria uma boa opção para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra no Brasil, falar um pouco sobre os personagens negros de Resident Evil.

A pergunta sobre a morte de policiais negros na mídia me levou a pesquisar um pouco sobre o assunto. Alguns resultados foram: 1) bastante discussão sobre personagens negros (policiais ou não) desumanizados ou mortos sem mais nem menos 2) um antigo debate sobre o papel do policial (ou qualquer personagem) negro como alívio cômico 3) a ideia de que o policial negro, na maioria das vezes, traz uma falsa representatividade, pois eles servem para auxiliar o protagonista branco ou mascaram a realidade de violência policial contra pessoas negras (algo bem forte nos Estados Unidos e no Brasil).

Em Resident Evil, temos vários personagens negros que são policiais ou treinados militarmente. Mas boa parte deles se encaixa em algum desses modelos que acabei de mencionar, como veremos a seguir.

Protagonistas?

Resident Evil tem uma variedade de personagens negros em seu elenco desde o primeiro jogo. Nenhum deles, no entanto, está entre os principais protagonistas. A única protagonista negra da franquia foi Sheva Alomar já em Resident Evil 5, que mesmo assim ficou apagada por uma série de motivos.

Não podemos esquecer que RE5 gerou uma grande discussão (extremamente importante) a respeito de racismo nos videogames, a ponto de a Capcom precisar fazer modificações no produto final. Ainda assim, diversos problemas permaneceram. Alguns estão especificamente ligados a Sheva: ela, a protagonista boa, tem a pele mais clara que os homens negros de Kijuju, os quais, mesmo antes de serem tomados pelo controle das plagas, já eram representados como brutos, vide o militar que tenta assediar a moça no início do game. Isso traz uma velha ideia que infelizmente ainda é muito difundida de que é o tom de pele mais claro que está associado a ser bom e “civilizado”.

Também é válido lembrar que a inteligência artificial do modo co-op de RE5 é conhecida por ser horrorosa, e como a maioria das pessoas jogavam com Chris, Sheva ficou estigmatizada como burra e como se só servisse para atrapalhar. Isso não é intrínseco à personagem, e sim um problema de jogabilidade, mas contribuiu para a impopularidade dela. A Capcom não fez muita questão de melhorar isso trazendo Sheva em outros jogos, e assim ela se perdeu.

Mais lembrado que Sheva é Marvin Branagh, provavelmente o personagem negro de maior destaque de Resident Evil.

Marvin apareceu no RE2 original para retornar em quase todos os outros jogos que se passam durante o apocalipse zumbi em Raccoon City. Destaco o Outbreak File #2, no cenário Desperate Times, e Resident Evil 2 e 3 Remake, em que tivemos uma perspectiva diferente dos acontecimentos. Infelizmente, no entanto, Marvin faz o papel do negro que existe apenas para sofrer, auxiliar os personagens brancos (primeiro Rita e Kevin e depois Claire e Leon) e morrer logo em seguida, sem ter muito mais aprofundamento. O desejo de ver mais do tenente é bem comum entre os fãs.

Há outros personagens com papeis importantes, mas bastante curtos nos games de Resident Evil. O primeiro deles foi Kenneth J. Sullivan, que por mais talentoso e qualificado que fosse, existiu na franquia apenas para morrer para o primeiro zumbi. Tivemos Tyrell Patrick, que no Resident Evil 3 original só aparece para ser morto por Nicholai. É interessante, no entanto, que ele foge um pouco do estereótipo por não ser americano e nem africano, e sim do Suriname, um país aqui do lado do Brasil que tem uma composição étnica bem particular. No Remake, Tyrell ganhou uma nova personalidade e mais destaque, mostrando-se um bom parceiro de Carlos, mas também terminou de um jeito bastante patético e bem mais “jogado” que em sua versão original. Em RE5, tivemos a breve participação de Josh Stone, mentor de Sheva, cujo papel é fundamentalmente auxiliar, e que nunca mais apareceu.

Temos ainda, nos Outbreaks, dois personagens negros jogáveis com histórias próprias: o guarda noturno Mark Wilkins e o funcionário do metrô Jim Chapman. Mark é outro personagem que tem treinamento militar, pois é veterano do Vietnã, e isso define a forma como ele lida com o caos zumbi. O seu é um raro caso de final feliz, pois ele consegue escapar de Raccoon e reencontrar sua família, que também havia escapado. Jim, por sua vez, acaba sendo apenas irritante por sua personalidade falante e medrosa.

A vantagem dos Resident Evil Outbreak é colocar esses personagens em uma posição de protagonismo. Infelizmente, porém, os jogos não são parte da série principal e por isso eles acabam tendo pouca visibilidade entre os fãs menos hardcore.

RE Code Veronica não tem personagens negros, tendo como personagem não branco Rodrigo, que é latino. RE4 introduziu Ingrid Hunnigan, que é descrita oficialmente como caucasiana ao mesmo tempo em que tem traços que poderiam caracterizá-la como negra (só eu acho isso estranho?). RE6 não se deu ao trabalho de trazer um personagem negro sequer. E em RE7 mais um policial negro morre.

Racismo na franquia?

Resident Evil nunca realizou uma discussão de raça, mas é de conhecimento geral que Resident Evil 5 gerou um enorme debate a respeito de racismo à época de sua produção e após seu lançamento.

É fundamental que lembremos que não importava que Chris não estivesse atirando nos majini por serem negros e sim por causa da plaga. Só a imagem de um homem branco americano atirando em africanos negros agindo como selvagens trazia uma carga simbólica de passado colonial e racismo extremamente explícita e pesada ao conteúdo do jogo, algo que incomodou muita gente e com total razão.

Essa imagem de RE5 toca temas muito sensíveis, já que ainda vivemos em uma sociedade profundamente racista e herdeira do colonialismo e da escravidão atlântica. No futuro, quero dedicar toda uma série de textos a Resident Evil 5 e essa discussão do racismo no jogo certamente estará presente.

Outra coisa que sempre me chamou a atenção foi um possível caso de whitewashing (quando um personagem não branco é interpretado por um branco, o que em geral acontece para agradar um público branco, apagar sua etnicidade ou por apropriação cultural, por exemplo). Talvez ninguém nunca tenha reparado, mas vejam a amada foto dos S.T.A.R.S.:

Nela, vemos 3 personagens negros ou de pele mais escura: Kenneth e outros dois que, pensando pelos dois que não aparecem em Resident Evil 1, seriam Edward e Kevin Dooley (o piloto; não confundam com o Kevin de Outbreak!). Oras, quando eles apareceram in gaming, Edward é branco e loiro e Kevin é branco também. Seria isso apenas um erro ou uma coisa deliberada? Será que aqueles homens da foto eram membros dos S.T.A.R.S. que não estavam mais na equipe? Será que a qualidade da foto é baixa demais para termos certeza do tom de pele dos personagens? Isso continua a me deixar com a pulga atrás da orelha.

Dentro da comunidade

Nos últimos tempos, o debate de raça veio forte para a comunidade de Resident Evil. Muitas pessoas na internet não esconderam seu racismo pelo fato de Jill Valentine e Leon S. Kennedy serem interpretados por atores não brancos no longa Bem-Vindo a Raccoon City (e lembremos que Avan Jogia é de ascendência indiana, não negra e nem latina!). E não se trata simplesmente de não gostar que o personagem não tem a mesma aparência do original – muitas pessoas foram atacar os atores nas redes sociais!

Hannah John-Kamen como Jill Valentine em Resident Evil: Welcome to Raccoon City.

O mesmo aconteceu com Lance Reddick, que vai interpretar um Albert Wesker totalmente diferente do dos jogos na série em live-action da Netflix. Muita gente dizia que o ator devia ser Kenneth ou Marvin e não Wesker, além de associarem a aparência dele com personagens ou pessoas que não se parecem em nada com ele, como se ele fosse somente a cor de sua pele.

É muito triste ver que uma parte muito grande da comunidade de Resident Evil prefere se doer com a cor de pele de atores que estão apenas fazendo seu trabalho do que com o fato de que a franquia tem pouquíssimos personagens negros importantes e com a discussão racial extremamente relevante gerada por Resident Evil 5.

Um debate longo

Este texto, evidentemente, foi bastante superficial na análise. Minha intenção foi mais trazer algumas perguntas, incômodos e um pouco do que encontrei a respeito desses questionamentos. Há diversas outras questões a serem abordadas ou aprofundadas dentro da discussão de raça em Resident Evil, inclusive a respeito de outras etnias dos personagens.

Eu gostaria muito de ouvir de vocês a respeito desse assunto. Os comentários estão abertos, desde que o debate seja inteiramente respeitoso. Racismo é crime e não será tolerado no Arklay’s Library.


Referências:

Jason “Rambo”, herói do Penamistão, e os traumas de guerra – Analisando Resident Evil: Infinite Darkness, parte 3

Alertas: Este texto contém alusões a temas muito sensíveis como traumas de guerra, tortura psicológica e suicídio. Também contém spoilers da série Resident Evil: Infinite Darkness.

Embora os protagonistas anunciados de Resident Evil: Infinite Darkness fossem Leon e Claire, o enredo da série girou em torno da Guerra Civil no Penamistão, da qual o protagonista é principalmente Jason, chamado de “herói do Penamistão”. O veterano de guerra, no entanto, está longe de se ver como um herói.

Desde o período de divulgação, tive a sensação de que Jason seria um personagem ambivalente dentro da história. Isso se confirmou na obra completa, e ele acabou até sendo o “chefão final” da série. A meu ver, no entanto, isso não o torna exatamente um vilão, mas também não exatamente um anti-herói. Embora isso não tenha sido explorado adequadamente no enredo, ele é na verdade um personagem bastante complexo que não é fácil de compreendermos com uma simples dicotomia entre bem e mal.

Este olhar me fez suspeitar que Jason não estava muito bem.

Jason sabe a verdade sobre o que aconteceu no Penamistão e só recebeu a honra de herói para que a imagem de seu superior, o então major-coronel Wilson, fosse promovida. Foi assim que Wilson alcançou o posto de Secretário Geral da Defesa, um dos cargos mais importantes e influentes do Estado Americano.

Junto dos outros Cães Ferozes (Mad Dogs), então, Jason foi obrigado a cumprir ordens secretas e ilegais de Wilson para que ele lhes fornecesse o inibidor do vírus com que haviam se infectado no Penamistão. E essa chantagem, junto das experiências traumáticas de guerra, foi mexendo com a sanidade de Jason e com suas convicções.

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A controvérsia sobre a política da vida real em Resident Evil: Infinite Darkness

A poucos dias do lançamento de Resident Evil: Infinite Darkness, está rolando uma polêmica de que a Netflix pediu para que as pessoas que publicassem resenhas da série “não falassem sobre política” nelas. Esse não é o tipo de assunto que eu esperava abordar tão cedo por aqui, mas me sinto na obrigação de falar sobre ele porque nós, historiadores, ouvimos esta frase noite e dia e é extremamente cansativo.

Vamos ser simples: como não falar de política quando Infinite Darkness faz claras alusões a acontecimentos reais da nossa contemporaneidade, e acontecimentos tão sérios como guerras e decisões políticas? E mais: a Netflix achou mesmo que, ao aceitar publicar um material desses, não estaria sujeita a comentários políticos?

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Os tristes paralelos entre Resident Evil 3 (2020) e a Covid-19

O texto a seguir é uma repostagem da publicação original feita em 26 de maio de 2020 em meu blog não relacionado a Resident Evil. Ele foi escrito ainda no primeiro caos da pandemia e optei por não fazer alterações. As coisas não mudaram muito, exceto o fato de que nos acostumamos em excesso com o horror.

Neste ano de 2020, foi lançado remake, a reimaginação, a versão 2020 (ou seja lá como você preferir chamar) de Resident Evil 3 Nemesis. A história do jogo nos traz uma grande (e bastante desconfortável) ironia para este período de pandemia: Resident Evil 3 retrata justamente o momento em que a epidemia do T-vírus assola Raccoon City, transformando as pessoas em zumbis e espalhando o caos na cidade.

Resident Evil 3 (2020) (que vou chamar de RE3R) foi lançado no dia 3 de abril. A essa altura, o coronavírus já estava bastante espalhado pelo mundo, inclusive aqui no Brasil. A recepção do jogo foi controversa entre os fãs da velha guarda – se, por um lado, o jogo fez um ótimo trabalho de uso da RE Engine e aprofundou alguns personagens muito queridos, por outro apagou elementos extremamente importantes da história original, o que torna altamente questionável se esse jogo cumpre sua proposta como remake.

Pessoalmente, o resultado final não me agradou nem um pouco. Mas há alguns elementos nele que caíram assustadoramente como uma luva para o contexto pelo qual estamos passando. Então, mais do que falar dos méritos ou deméritos do jogo, hoje quero discutir um pouco como ele me atingiu dentro do contexto de pandemia que estamos vivendo.

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