Algumas primeiras impressões de Resident Evil Village

Este texto contém spoilers de Resident Evil Village.

Chegou a hora de começar a falar pra valer de Resident Evil Village.

Como não pude jogar e sim só assistir, focarei na história e sua posição no lore de Resident Evil. Não pretendo abordar tudo, pois há material nesse jogo para discutirmos eternamente! Este texto não é uma resenha ou análise, e sim mais um comentário de algumas impressões que ficaram na minha cabeça, as quais podem inclusive mudar no futuro.

Para mim, a pedra fundamental de Resident Evil Village é a lenda que vemos “Mia” lendo para Rose desde os primeiros trailers. Ela é a base do cenário e também, a meu entender, a origem do nome “Village” (Village of Shadows) no nome do jogo. Até agora, não encontrei uma indicação de que a história seja de fato uma lenda romena, mas ela traz elementos de algumas que são reais e que podem ter sido usadas para construir a do jogo.

Cena de Vilarejo das Sombras, lenda contada no jogo Resident Evil Village. Ela mostra as silhuetas de uma mulher olhando uma criança mexer com plantas retorcidasna floresta.

Durante boa parte da jornada, ficamos confusos sobre como tudo o que está acontecendo na Vila pode ter relação com o lore de Resident Evil, mas as coisas eventualmente se encaixam. É uma pena que várias informações interessantes que ficaram perdidas e confusas provavelmente não terão uma explicação maior no futuro, pois se referem ao contexto do Village de forma muito específica, como as mosquinhas que formam as irmãs Dimitrescu.

Por outro lado, há brechas bastante fortes para jogos futuros que esperamos que a Capcom não esqueça no churrasco, pois são muito boas e têm um potencial enorme para trazer bons enredos conspiratórios nos moldes dos clássicos. Como a Monique comentou em sua resenha sem spoilers no Resident Evil Database, também sinto falta de plots políticos, das conspirações com governo e empresas e tudo mais.

Em outros aspectos, gostei de ver que algumas promessas foram cumpridas. A relação de Lady Dimitrescu com suas filhas foi muito boa de se ver. Ela foi realmente a personagem que eu mais gostei, junto com o maravilhoso Duque, que é muito mais que só um mercador! A ideia comentada por Morimasa Sato de que “se Ethan está tentando proteger sua família, Lady Dimitrescu também está” (e a questão família é outra pedra fundamental de Village) está de fato presente no jogo. Ela é mais curta do que gostaríamos, mas gostei muito mesmo assim. Seria legal se a Capcom surfasse no sucesso que as personagens fizeram e lançassem mais material sobre elas.

Deu ruim

Ficou bem claro que, ao enviar Ethan e Mia para o Leste Europeu, a BSAA deu um tiro no pé, porque mandaram os dois direto pro ninho de Mãe Miranda. A não ser que alguém dentro da organização estivesse envolvido com ela e tivesse feito essa sugestão de esconderijo para eles de propósito. E, quando Chris percebeu, já era tarde demais.

Foi muito divertido ir aos poucos notando que o organismo central da trama era o mesmo mutamiceto de Resident Evil 7. Já havia sido teorizado que a presença do mofo no organismo de Ethan, Mia e consequentemente de Rose poderia ser a razão para o sequestro da bebê. E o jogo dá sinais aos poucos de que o mutamiceto tem um papel ainda maior na trama na medida em que vemos os inimigos cristalizando quando morrem.

Os Lordes

Cada um dos Lordes é baseado em uma das criaturas da lenda Village of Shadows. O morcego é Dimitrescu, o tecelão é Beneviento, o rei peixe é Moureau e o cavalo mecânico é Heisenberg.

Fica no ar se eles são a origem da lenda local ou se Mãe Miranda se inspirou na história para construir seu império. Afinal de contas, ela adquiriu sua posição de liderança se aproveitando da devoção das pessoas locais, e numa época em que a crença nas lendas do folclore era muito mais forte, então essa seria uma possibilidade em aberto.

Já falei de Lady Dimitrescu, então vamos falar dos outros.

Montagem de Donna Beneviento com sua boneca macabra Angie e a vampira Alcina Dimistrescu.

Donna Beneviento me pareceu ter um background triste de solidão que a levou a algum tipo de psicopatia. Por um momento, jurei que o Ethan ia abrir o peito da boneca na mesa e encontrar o coração da Mia lá. O que achei mais incrível sobre esse trecho foi que chegamos com uma expectativa assustadora do lado de fora da casa e, quando entramos, ela é uma casa normal, iluminada e até um tanto reconfortante. Mas as alucinações que Donna coloca na cabeça do Ethan tornam essa parte a mais assustadora do jogo e também ajudam a contar um pouco da história dos Winters. Eu só entendi isso depois que vi outras pessoas comentarem, e é genial.

Não sei bem o que pensar do Moureau. Ainda estou tentando entendê-lo. Mas ele claramente foi o que menos se adaptou ao Cadou, já que sua aparência é disforme, ele vomita o tempo todo e aparenta sentir dor constantemente.

Quanto ao Heisenberg, não acho os conceitos de sua Fábrica de todo ruins, mas acho sua parte um pouco desconexa do resto da história e isso estragou a personalidade (maldito socador de pedra!) e o desejo dele de vingança de Mãe Miranda.

Mãe Miranda e sua relação com o lore

Texto: Porém, percebi, depois de várias noites com discussões intelectuais que tivemos, que sua convicção é diferente da minha.

Você queria trazer de volta uma única pessoa morta. Eu queria mudar o mundo.

Seus experimentos com o mofo não me ajudariam na minha busca por uma infecção exponencial. Um vírus seria mais eficiente.

É por isso, querida, que tive que deixá-la. Ainda me arrependo por não ter me despedido.

Fiquei bem alegre quando comecei a ler a carta de Spencer para Miranda. Me liguei imediatamente que era ele quem estava escrevendo. Mas o que eu mais gostei mesmo foi que a ligação entre os dois foi feita de maneira sutil, de modo a não alterar de forma drástica e maluca o lore anterior de Resident Evil. Spencer aprendeu com Miranda, sabia dos projetos dela e criou a logo da Umbrella com base no vilarejo dela, de certa forma uma homenagem, e é isso. De bom tamanho para mim.

Essa carta me levou a uma reflexão: Spencer deixou de trabalhar com Miranda porque seus objetivos eram diferentes. Miranda não tinha como fim último se tornar uma ‘deusa’ como era o sonho de seu aprendiz, mas ela se tornou uma como meio para trazer sua filha de volta. No fim, de certa forma, ela acabou encontrando o que Spencer queria.

A BSAA

Claramente há algo de muito errado na BSAA. A organização mandou armas biológicas em vez de soldados para a vila e o relatório da Zoe na versão deluxe traz informações de explodir a cabeça sobre o encobrimento do Incidente dos Baker (e muitas outras coisas interessantíssimas). Pelo jeito, a New Umbrella, que iria “compensar” pelos feitos da Umbrella original, andou mostrando as garrinhas nesse meio tempo e levou a BSAA junto.

Amei ver o bom e velho Chris Redfield ali. Achei que ele está bem coerente, nitidamente incomodado com a BSAA e agindo pelas sombras com a Hound Wolf (mais um para sua lista de seus casos de insubordinação). E, infelizmente, sempre perdendo pessoas.

E devo acrescentar que foi surreal ver o item de cura do Chris ser uma seringa com a logo da Umbrella. Como será que ele está se sentindo em relação a isso tudo?

O FINAL

O final de Resident Evil Village me trouxe sentimentos ambíguos. A Rose crescida da cena pós-créditos tem potencial para ser uma nova protagonista, uma necessidade na franquia, já que nossos amados personagens clássicos estão envelhecendo. Mas me preocupou um pouco o salto de tempo (o que houve com a BSAA nesse período?) e darem a entender que ela possui algum tipo de poder, que não sei se é algo bom.

Fiquei com muita pena do casal Winters, especialmente da Mia. Ela é uma personagem formidável. Quanto ao Ethan, mesmo ele sendo bem mais carismático que no RE7 e mesmo gostando muito do conceito do pai amoroso em busca da filha, ainda estou aprendendo a me importar com ele.

Considerações finais

Apesar de alguns pontos baixos, acredito que Resident Evil Village deixa um saldo positivo para a franquia. A meu ver, a aposta de criar um material inspirado em RE4 deu certo, assim como o RE7 ser inspirado no RE1. Mesmo que o conteúdo desse jogo não nos traga todas as respostas que gostaríamos, ainda assim criou-se espaço para boas continuações e espero que isso seja tratado com carinho pela Capcom no futuro. Aguardemos, e não se esqueçam que ainda vamos falar muito de Resident Evil Village aqui no blog! See you around!

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