De todos os grandes desastres que permeiam a linha do tempo de Resident Evil, o mais marcante no coração dos fãs é com certeza o incidente de Raccoon City. Começando com os primeiros assassinatos nas Montanhas Arklay e culminando em uma epidemia zumbi que levou à decisão do governo de esterilizar a cidade, essa história definiu Resident Evil como franquia e é até hoje muito referenciada (e reverenciada) pelos fãs.
Graças a esse apelo, a Capcom (e a Constantin…) faz questão de aludir à cidade o tempo todo: “Raccoon City tudo de novo”, “uma nova Raccoon City”, “uma grande reunião de família de Raccoon” são frases que ouvimos em diversos jogos e filmes posteriores, isso sem contar os retornos da cidade em spin-offs (canônicos ou não) e nas reimaginações.
Mas não é somente para nós do mundo exterior que Raccoon City ficou marcada para sempre. Essas referências que a Capcom faz, além de serem fanservice, também mostram como dentro do universo de Resident Evil o desastre foi impactante na memória dos protagonistas e de diversos outros personagens com os quais eles se cruzaram.
Neste 28 de setembro, portanto, nada mais justo que dedicar um texto para esse acontecimento, não?
O impacto na sociedade
A nível de sociedade, Raccoon City também foi marcante, mas de uma forma diferente, pois a grande maioria das pessoas não sabia o que de fato estava acontecendo na cidade. Assim, foi a decisão do governo de explodir uma pacata cidadezinha com toda a sua população e sua execução que ficou gravada na memória popular, e não o apocalipse zumbi.

Tanto que, mesmo muitos anos depois, muitas pessoas que tinham alguma ligação com o incidente, como Angela Miller, cujo irmão era um sobrevivente (Resident Evil: Degeneração), ficavam chocadas ao serem confrontadas com a realidade. Angela não fazia ideia de como lidar com aquilo e levou algum tempo para perceber que já não havia mais humanidade naqueles corpos mortos que andavam.
O historiador Pierre Nora, nos anos 1970, escreveu que a mídia de massas tinha um papel extremamente forte em definir os acontecimentos, pois se um fato não se torna conhecido, é como se ele não tivesse acontecido [p.181]. Ou seja, enquanto o caos do T-vírus fosse escondido do resto do mundo, ele ficaria apagado da história.
Um historiador ou os S.T.A.R.S. poderiam considerar que Raccoon City é um evento importante e definidor nos rumos do mundo de 1998 em diante. Mas com o governo realizando um controle sobre como as informações se espalhavam, os eventos ocorridos na cidade poderiam se perder da memória das pessoas.

Por conta das sanções de Brian Irons, os S.T.A.R.S. não puderam impedir o caos biológico em Raccoon, mas continuaram a lutar pela memória da cidade posteriormente.
Mas isso não funcionou muito bem; Raccoon se tornou uma questão polêmica, pois a explosão por si “só” foi muito criticada pela opinião pública. Figuras públicas ligadas à solução exterminante — como o Senador Ron Davis — ficaram manchadas diante da contingência. Não houve transparência com o objetivo de encobrir o envolvimento do governo com a empresa causadora do apocalipse, numa tentativa de salvaguardar a estabilidade política; mas não havia por onde correr, porque a população entendeu que a cidade foi destruída e seus cidadãos assassinados por nada. De qualquer modo, o governo vigente se viu em uma saia justa.
Mudanças na realidade
O arco de Raccoon City — do vazamento do T-vírus na Mansão Spencer até a explosão da cidade — é o início de uma conjuntura de muitas mudanças para o mundo de Resident Evil. Com o desmantelamento gradual da Umbrella, cada vez mais as armas biológicas passaram a se espalhar pelos mercados ilegais e isso abriu o caminho para tempos bastante sombrios de expansão do bioterrorismo.
Raccoon também marca o início de um período que ainda veria muitos incidentes semelhantes e que foram se tornando cada vez mais públicos e impossíveis de esconder, levando à criação de instituições públicas/governamentais como a FBC, a DSO e também à associação da BSAA à ONU. Em Resident Evil Revelations, por exemplo, o pânico de Terragrigia demonstra a difusão do conhecimento público dos ataques biológicos.

Clive O’Brian (BSAA) e Morgan Lansdale (FBC) em colaboração na contenção do incidente de Terragrigia
Mesmo assim, é sabido que não necessariamente o mundo todo estava ciente o que estava acontecendo de fato em Raccoon. Muitos anos depois ainda há pessoas que desconhecem totalmente o terror biológico, como Ethan Winters e os Baker antes da chegada de Eveline. Talvez Raccoon City fosse algo muito distante dessas pessoas – seja porque não fez parte da realidade delas, elas nunca conheceram algum sobrevivente ou alguém que perdeu entes queridos lá, seja porque esse foi um evento apagado da memória coletiva oficial. Isso sem contar que muitas vezes as pessoas subestimam o absurdo do acontecimento ou jogam o famoso “comigo não vai acontecer” e não se importam.
Porém, não podemos nos esquecer que, mesmo com as informações vindo a público, ainda houve tentativas de esconder parte delas, especialmente o envolvimento do governo dos Estados Unidos com a compra de armas biológicas, algo que levou a uma crise grave como o assassinato de Adam Benford — ninguém menos que o Presidente dos Estados Unidos — quando ele tentava revelar a verdade.

Daí a importância da dedicação de pessoas como Jill, Chris e Claire no combate ao bioterrorismo (e não estou incluindo o Leon aqui porque ele está dentro do governo e tem lá suas limitações…ou receios, como vimos em Infinite Darkness). A fundação da BSAA e da TerraSave são exemplos claros de como, mesmo com as tentativas de silenciamento, ainda havia muita gente disposta a acreditar na verdade.
Coube aos sobreviventes de Raccoon e de outros incidentes biológicos manter essa memória viva e lutar para que ela permaneça sendo um símbolo do que não pode acontecer novamente. Foram os sobreviventes de Raccoon City, testemunhas de seus horrores, que construíram sua memória pública.
Os significados do acontecimento
Raccoon City é, indubitavelmente, um trauma social no universo de Resident Evil. Sua destruição fez as pessoas perceberem sua enorme vulnerabilidade perante o governo — como eles puderam assassinar seus próprios cidadãos? Para aqueles que sabiam do apocalipse zumbi, a essa fragilidade foi acrescido o medo da infecção viral, uma realidade que foi se tornando cada vez mais forte na sociedade do universo de RE.
Não é à toa que já se falou por aí que Raccoon City é o 11 de setembro de Resident Evil. Os dois acontecimentos são traumas coletivos que marcaram uma virada no modo com que Estados Unidos operavam e sua população vivia. É por causa do 11 de setembro que hoje há tanto controle sobre quem entra nos EUA, por exemplo, e é graças a Raccoon que a existência de armas biológicas começou a ser exposta.

Alyssa Ashcroft, de Resident Evil: Outbreak, sobreviveu a Raccoon City e ajudou a espalhar a verdade sobre a Umbrella por meio do jornalismo.
As consequências sociopolíticas de cada um dos eventos, no entanto, foram consideravelmente diferentes, para não dizer opostas. Se Raccoon City foi um transtorno e um risco de exposição para o governo dos Estados Unidos, obrigando a mudanças nas políticas militares que excluíssem o uso de armas biológicas, o 11 de setembro foi usado como justificativa para atacar outros países (leia-se o Afeganistão e o Iraque) e para fazer o uso intensivo de armas letais.
Vale lembrar, ainda, que o 11 de setembro é considerado um evento canônico dentro do universo de Resident Evil, como indica um file de Resident Evil 6 em sua versão original em japonês. Isso significa que ele teve um impacto diferente na sociedade estadunidense depois de um desastre tão grande quanto Raccoon City, mas nem por isso deixou de ser um provável divisor de águas. Quem sabe podemos tratar disso em um texto específico mais para frente?
O legado
O acontecimento é o que fazemos dele. Pierre Nora escreveu que não é porque algo que aconteceu que é automaticamente histórico, já que “para que haja acontecimento é necessário que ele seja conhecido” [p.181]. A infecção de Raccoon City poderia ter sido totalmente silenciada se não houvesse sobreviventes com força suficiente para trazer a verdade à tona ou se a própria Umbrella não estivesse com problemas internos, como a traição de Wesker e a instabilidade paranoica de Spencer.
Mas graças aos esforços de Chris Redfield, Jill Valentine, Claire Redfield, Leon S. Kennedy, Rebecca Chambers, Barry Burton, Alyssa Ashcroft, a BSAA, a TerraSave e tantos outros, o risco biológico não foi escondido e a luta deles foi fundamental para evitar outras tragédias (ainda que eles não tenham conseguido impedir todas). Seguindo a mais clichê (mas não a única) justificativa sobre por que estudamos história, “conhecer o passado para evitar os mesmos erros no presente”, é mantendo a memória de Raccoon City e da Umbrella vivas que nossos protagonistas conseguem transformar o presente em que eles vivem.
Raccoon City como acontecimento histórico é um tema sobre o qual ainda teremos muito o que falar. Seu arco é de longe o mais importante de Resident Evil e sempre será, pois é ele que definiu tudo o que veio depois. Então mantenham as mentes abertas, pois isso não acaba aqui!

Gostou do texto? Deixe um pix para dar uma força clicando aqui!
Capítulo do Pierre Nora mencionado no texto: NORA, Pierre. “O retorno do fato” In LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (orgs.). História: Novos Problemas. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1995 [1974], tradução de Theo Santiago, p.180-193.
Texto incrível demais, como esperado!
Inclusive vale o comentário sobre como uma explosão atômica teve mais peso para a opinião pública do que a infecção de uma cidade inteira. Herança da Guerra Fria, mas se não fosse por ela, provavelmente a verdade teria sido acobertada pela Umbrella, já que dependeu mais do próprio governo e do Wesker, no final, com cada um protegendo o próprio rabo.
CurtirCurtido por 1 pessoa
Obrigada, amigo! E estou de acordo. Inclusive vou guardar essa observação para usar em textos futuros rsrs tem muito a ser pensado a partir de Raccoon City!
CurtirCurtido por 1 pessoa
Que deleite ler um texto como esse sobre a lore de Resident Evil com citações historiográficas! Artigo excelente, e uma estupenda homenagem à data.
Sobre as tentativas de apagamento e o que se torna realmente público, o quanto não vivemos isso no mundo real, com questões relativas à escravidão ou à ditadura militar, por exemplo? Quantas tragédias e opressões passadas silenciadas pelos poderes oficiais a ponto de serem relativizadas no presente e produzirem os mesmos discursos danosos, como os incidentes biológicos que se repetem tanto na franquia?
Perspectiva mais que pertinente para analisar Raccoon City no panorama de RE.
Parabéns!
CurtirCurtir
Muito obrigada, Gold! Estou finalmente começando a escrever textos que são mais que comparar paralelos históricos dos jogos. Quero cada vez mais fazer trabalho de historiadora mesmo, porque acho que também é uma forma de mostrar como trabalhamos! Resident Evil dá tanta importância para os documentos e para as evidências e isso tem tudo a ver com o nosso ofício. E de fato: quantas coisas são encobertas ou sempre contadas pela metade de modo a proteger certos grupos. Ter essa discussão do ponto de vista da ficção ajuda a pensar a realidade.
CurtirCurtido por 1 pessoa