Qual é o problema de a Capcom usar a Wikipédia para lembrar do lore de Resident Evil?

Imagine que você é designer e seu cliente desiste de pagar pelo seu serviço porque tem um sobrinho de 13 anos que gosta de mexer no Photoshop. Ou que uma pessoa decide construir um prédio sem ter a supervisão de engenheiros. O trabalho pode até sair, mas a chance de ficar uma bela porcaria é bem grande e ainda pode gerar uma diversidade de riscos, tudo isso porque o contratante não quis pagar um profissional para fazer o serviço bem feito.

Pois é isso que a Capcom tem feito com Resident Evil.

Recentemente, o VSBLACK lá no Twitter chamou a atenção para uma live do ano passado da Sasha Zotova (a modelo de rosto de Jill em RE3 Remake) conversando com o diretor cinemático de RE3 Remake Steve Kniebihly. Ele comenta, dando risadinhas como se fosse a coisa mais normal do universo, que na Capcom eles recorrem à Wikipédia para se lembrarem do lore de Resident Evil, que é muito grande e complexo. Ele provavelmente estava falando da Wiki de Resident Evil (exclusiva da série e voltada para o fandom) e não da Wikipédia geral, mas ainda assim isso gerou uma revolta geral entre os fãs e com razão.

Steve Kniebihly: “Vou lhe contar uma coisa: até na Capcom eles usam a Wikipédia de Resident Evil com frequência para acompanhar o que está acontecendo. Porque está tudo tão complicado agora, com todos os jogos que eles fizeram. É um lore tão complicado com tantos personagens que até para as equipes trabalhando no projeto é difícil ter controle de tudo”*.

É claro que o trabalho feito pelo pessoal que cuida da Wiki é sensacional, mas não deixa de ser um resumo do lore. As páginas que tratam da história dos jogos não contêm todos os detalhes, que muitas vezes estão espalhados em outras páginas que aí sim têm detalhes acerca de personagens, objetos, localizações, documentos e tudo mais. E duvido muito que o reduzido time de roteiro da Capcom se dê ao trabalho de ler tudo.

No entanto, há pessoas especializadas nisso produzindo conteúdo na internet, inclusive profissionalmente. Essas pessoas, fãs dedicados e muitos reconhecidos (ao menos nominalmente) pela Capcom, poderiam atuar como consultoras, pois já trabalham com lore. É o caso do Resident Evil Database, do RE: Digest (o antigo Project Umbrella), do Crimson Head e do próprio pessoal da Wiki, para citar só alguns exemplos. Por que não consultar essas pessoas que, além de tudo, são os consumidores? Não seria isso também um tipo de pesquisa de mercado? Pagar uns milhares de dólares em consultoria que poderia se converter em vendas de milhões seria muito mais vantagem.

Isso escancara um problema de desvalorização profissional. Igual ao cara que deixa de pagar um designer – que está trabalhando, tirando seu sustento daquilo – para pedir pro sobrinho fazer de graça. Algo semelhante aconteceu quando a Capcom parou de contratar dubladores sindicalizados (ou seja, que exigem seus direitos como trabalhadores), deixando nossa eterna Claire Alyson Court de fora da franquia para sempre. Os plágios cometidos em Resident Evil 4, Devil May Cry e Resident Evil Village também têm a ver com isso. Isso é parte de um problema mais amplo do mercado de trabalho e de redução de custos de forma antiética que vai muito além da indústria de games.

Há outra questão que me incomoda nisso: como as pessoas ainda subestimam o quanto fazer algo “de humanas” como construir uma narrativa é coisa que qualquer um pode fazer sem preparo profissional. O saudoso Noboru Sugimura, roteirista da maior parte dos jogos clássicos da franquia, escrevia histórias boas porque seu trabalho era literalmente escrever histórias (para a televisão). E escrever não é inspiração divina. É muito estudo, muita prática, é trabalho tanto quanto passar o dia na firma fechando balanço. Pelo visto, não é gente com esse preparo que está cuidando dos roteiros de RE hoje, com exceção do Dai Satō, que foi o responsável pelos dois Revelations (e que também é um roteirista aclamado de animes).

Duvido muito que a Capcom deixaria de contratar um bom desenvolvedor para trabalhar no design da RE Engine ou na programação dos jogos. Então por que não pagar um consultor especializado para cuidar da história?

Outra coisa complicada de uma franquia tão amada como Resident Evil é que a empresa sabe que, mesmo sem caprichar, ela vai vender milhões. Porque é Resident Evil. Poréeeem, vocês se lembram de quando a Capcom quase faliu? Quando todos os jogos da empresa iam na linha desastrosa de Resident Evil 6? Quem garante que não vai acontecer de novo se ela não caprichar nos seus jogos e achar que pode continuar repetindo erros?

Isso que eu ainda nem mencionei o quanto isso é desrespeitoso com os fãs, que claramente sabem muito mais sobre Resident Evil do que a empresa que detém seus direitos. Os mais fiéis, em geral, são aqueles que gostam de Resident Evil pela história (embora você possa ser um fã fiel pelo gameplay, não estou dizendo que não). E somos nós, fãs, que promovemos, espalhamos a palavra, compramos jogos e produtos licenciados, assistimos aos filmes e damos a eles nosso dinheiro terrivelmente suado.

Pensemos aqui no meu método de trabalho aqui no blog. Eu, reles mortal, que estou aqui apenas para me divertir e conversar com outros fãs. Seria muito fácil para mim só buscar informações na Wikipédia, tanto sobre Resident Evil quanto sobre história. Porém, ia ficar um negócio meia-boca. Porque lá temos apenas um resumo, por mais longa que uma página possa ser.

E por isso eu uso artigos científicos, livros de historiografia, artigos consistentes da internet, quando possível vou atrás de documentos…exatamente como eu faço pesquisa ou preparo aulas na minha vida profissional de historiadora. E mesmo para material de Resident Evil. Uso a Wiki, os portais de lore, mas também reassisto cutscenes e gameplays, releio files, analiso cenários, capturas de tela…

Qual seria o sentido de eu, como historiadora, não agir como historiadora em um blog em que me proponho a falar de história? O diferencial de quando nos propomos a colocar nosso conhecimento profissional em um blog, um canal no YouTube, é justamente esse conhecimento profissional, não?

Pois a Capcom não tem sido profissional.

Eu sinceramente nem sei o que concluir neste texto. É um mix de frustração com raiva com achar patético. Isso que eu nem abordei o quanto que isso se relaciona com o apagamento dos jogos clássicos e com desperdício de potenciais que Resident Evil ultimamente. A vontade é de boicotar a Capcom. Mas, pelo andar da carruagem, é capaz de ela se afundar sozinha. De novo. E seria bem feito.


A fala original em inglês de Steve Kniebihly foi: Before we start that, I will tell you something. Even at Capcom they often use the Wikipedia of Resident Evil to try to just keep track of what’s happening. Because it’s like so complicated now with all the games they did, it’s like, it’s just a very complicated lore and story with so many characters that even for the teams that are working on the project it’s difficult to keep track of everything.

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