Este texto contém spoilers do filme Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City e parte do princípio que você assistiu ao filme, pois não vou explicar as cenas.
Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City ou Welcome To Raccoon City estreou no dia 02 de dezembro de 2021 no Brasil e tem recebido uma reação bastante negativa por parte dos fãs da franquia. Propondo-se a ser uma história mais fiel aos jogos que os filmes de Paul W. Anderson, as prévias do longa haviam gerado um grande hype na comunidade, pois mostravam cenários e personagens conhecidos e amados. Mesmo com tudo isso, no entanto, o produto final não agradou a maioria.
Eu estou aqui hoje para ir na contramão e dizer que reconheço todas as falhas, mas ainda assim gostei, me diverti e me empolguei com o filme. Essa é minha opinião COM spoilers da produção que abreviarei na sigla WTRC para facilitar.
A história
Quem já viu minhas considerações sem spoilers no Twitter e no Instagram sabe que eu achei o roteiro de WTRC uma bagunça. Não sei ser teria como ser diferente em uma história que buscou unir RE1 e RE2 em uma hora e meia. A meu ver, esse é o maior problema do filme: a correria. Tudo acontece muito rápido, não há tempo de explicar muito bem as coisas e desenvolver os personagens.
Isso se soma à quantidade enorme de referências, que na maioria das vezes estão bem colocadas – como o abraço de Chris e Jill ao se reencontrarem durante o caos da mansão, o dispositivo que Wesker usa e que remete ao que é entregue a Jill na novelização de S.D. Perry e os próprios cenários. Já outras ficam simplesmente jogadas e podem até soar sem sentido para quem não conhece a série, como Jill falando sobre ser pior morrer comido por uma cobra gigante ou tubarão branco.

E isso é um fator bem importante. Se você é fã, você consegue acompanhar o que está acontecendo. Mas se você é um jogador casual ou totalmente novo na franquia, muita coisa vai ficar confusa, pois diversos pontos ficam sem explicação. Por exemplo, o que diabos é a pesquisa de William Birkin? Qual o propósito dos experimentos ilegais da Umbrella? As pessoas da cidade foram infectadas pelo T-vírus, mencionado uma única vez por Ben, mas é o G-vírus que aparece na maleta de Birkin. Momentos como o corpo de Emma Kendo aberto na mesa do laboratório servem única e exclusivamente para chocar, não tendo uma contribuição real para o enredo. O vídeo de Alexia e Alfred Ashford também não foi muito além do que havia sido mostrado no trailer.
Como esperado, o filme tem diversas mudanças em relação à história original e parte de algumas premissas diferentes também. A primeira, que é a pedra fundamental da trama, é que Chris e Claire cresceram no orfanato e Claire sabia desde sempre que algo estava muito errado ali.

Outra – e que eu achei bem interessante – é que Raccoon City está sendo abandonada pela Umbrella após a empresa ter deixado o T-vírus vazar aos poucos no sistema de distribuição de água da cidade. Pela primeira vez, tivemos uma demonstração mais concreta de como a infecção se espalhou, pois vemos as pessoas ficando doentes aos poucos e com sintomas clássicos descritos em diversos jogos canônicos, como a coceira. O ‘itchy, tasty’, por exemplo, foi uma referência muito bem colocada. Ben comenta que quem não estava doente devia ter recebido algum remédio da Umbrella, o que também cobre um furo dos jogos de que somente os protagonistas não foram infectados.
Personagens
Os personagens de WTRC são todos provenientes do universo dos jogos de Resident Evil, embora não sejam exatamente iguais aos originais. Muitas pessoas ficaram bastante irritadas com isso a ponto de serem extremamente babacas com os atores.

Os protagonistas são Claire e Chris. Claire se assemelha mais com a jovem dos games, pois é impulsiva, habilidosa e rebelde. Ela é quem tem a personalidade mais próxima dos jogos, mas ainda assim achei que ela é sangue frio demais para a Claire original. A personalidade dos dois Redfields parece ter sido condensada nela, pois ela também é sedenta por justiça e insubordinada de um jeito bem mais “Chris” do que Claire, enquanto o próprio Chris é extremamente certinho e resignado. No entanto, não vi ninguém xingando o ator Robbie Amell por isso, diferentemente do que fizeram com Hannah John-Kamen e Avan Jogia, que interpretaram Jill e Leon.

A Jill de WTRC é um pouco diferente da dos games, mas não achei que a diferença é tão drástica quanto tantas pessoas acusam. A meu ver, o problema é o pouco tempo de tela, pois, assim como a Jill in gaming, ela é corajosa, leal, possui empatia e é inteligente (eu gostaria de ter visto mais disso, principalmente porque quando ela entra no trem ela saberia como se virar). Só lhe acrescentaram a impulsividade e o humor, algo talvez um pouco ao estilo Forest Speyer. Eu gostei bastante dessa versão dela, que Hannah John-Kamen interpretou muito bem, e foi a personagem que mais me cativou no filme.

Leon, por sua vez, parte de uma premissa bem diferente da dos games, guardando algumas semelhanças. Em vez querer ser um policial disposto a ajudar a todos, esse Leon foi obrigado a estar ali e em diversos momentos demonstra sua falta de habilidade. Eu acredito que há um enorme potencial para ele se tornar o Leon dos jogos, pois várias características dele estavam ali: o humor, o respeito por hierarquia, a ingenuidade do policial novato (e em alguns aspectos as atitudes burras). Eu confesso que me diverti muito essa versão, mesmo que realmente alguns momentos não tenham sentido, como do nada ele atirar loucamente no zumbi que matou Ben e não se tocar que tem um caminhão explodindo na sua frente (eu ri muito do zumbi em chamadas entrando no RPD, confesso).

Eu gostei bastante da ideia de uma história de origem diferente para Wesker. Isso infelizmente ficou um tanto jogado pelo curto tempo do filme, mas eu acredito no potencial dele. O fato desse Wesker querer dinheiro me remeteu ao Resident Evil 1 original e à versão do personagem escrita por S.D. Perry em A Conspiração Umbrella, então não me incomodou de todo.

Quem tem um background mais parecido ao menos com o de RE2 Remake é William Birkin. Ele ainda é um cientista da Umbrella que usa as crianças do orfanato para realizar experimentos para a sua pesquisa com o G-vírus, que ele chama de ‘Obra de Deus’ (essa cena é pura vergonha alheia). Sua personalidade, contudo, é bem diferente. Enquanto nos games ele nem se lembra que Sherry existe, no filme ele e Annette (que não é cientista) são pais amorosos para a menina, que tem papel decorativo no filme. O lado familiar (mesmo que falso) de Birkin se manifesta ainda em ele ter sido como um pai para Chris, algo que achei bem interessante dentro do contexto da obra e gostei do momento de confrontação da figura paterna. No entanto, aquele William Birkin bem caricatura de cientista maluco obcecado com sua pesquisa que vemos nos games – sua característica mais marcante – está ausente.
Ben Bertolucci, a meu ver, é um personagem que devia ter ficado somente na fita que ele envia para Claire. Sua cena na cela é totalmente descartável, tanto que eu quase não lembrei de mencionar ele aqui.

Quanto a Lisa Trevor, eu posso apenas lamentar sua participação tão curta. Ela é mais importante para a trama do que o filme coloca em prática, dada sua relação com Claire, que eu gostei. Não sabemos como Lisa consegue circular pelo orfanato sem ser notada e a história dela fica reduzida a um arquivo que sequer conseguimos ler no cinema. Diferentemente da maioria, eu gostei da cena em que ela luta com o licker. A Lisa dos jogos teria derrotado o bicho com mais facilidade, mas gostei de vê-la em ação.
O chefe de polícia Brian Irons é bem semelhante a ele mesmo no quesito de ser corrupto e covarde, só que sem sua influência na Umbrella e sua psicopatia. Até gostei, mas acho que gastaram tempo de tela com ele que deveria ter sido aproveitado em outras situações.
Os outros policiais foram meros figurantes com nomes conhecidos que não se relacionam com seus originais – Enrico Marini, Kevin Dooley (por que ele, senhor?) e Brad Vickers. Só Richard tem um pouco mais de presença, mas não serve pra muita coisa além de virar lanche de zumbi. Aliás – quanto zumbi na mansão! Tinha zumbis demais lá e zumbis de menos na cidade.
O cenário

Com o orçamento limitado do filme, era certo que não veríamos tantos cenários hipercomplexos dos games, mas ainda assim tivemos um visual lindo de diversas salas icônicas dos jogos. Foi impossível não me emocionar vendo a entrada da delegacia ou o hall da mansão na telona.
É bem evidente que há cenários repetidos e reaproveitados, especialmente na mansão, na qual me parece que eles estavam filmando quase sempre na mesma sala com os móveis em lugares diferentes, sendo a escuridão um elemento para disfarçar.
Dos cenários específicos do filme, gostei especialmente que o laboratório do Birkin é bastante rústico e me lembrou muito do laboratório do primeiro Resident Evil, com ar de bunker e não toda aquela limpeza branca e ultratecnológica dos NESTs.
O final

Welcome to Raccoon City termina com os protagonistas sobrevivendo à destruição de Raccoon City e do laboratório. É uma cena bem estilo anos 80 e 90, mas achei que foi rápido e jogado demais.
Mas a história só termina na cena pós-créditos, com Wesker ressuscitando em uma referência plena a Resident Evil Remake que muita gente detestou, mas que eu adorei e achei que foi um bom encaixe. É esse o único momento em que vemos Ada, que descobrimos ser o contato de Wesker desde o início, algo que também achei interessante. Só me incomoda a possibilidade de colocarem Ada como uma vilã pura e simplesmente, já que ela é uma das personagens mais complexas e “cinzas” dos jogos e seria muito mais interessante mantê-la assim.
Tem-se dado a entender, até agora, que uma possível continuação de WTRC seria baseada em Code Veronica. Isso por conta do protagonismo de Claire e Chris, pela ressurreição de Wesker como cliffhanger e pela aparição dos Ashford. Essa última evidência me deixa lá com algumas dúvidas e me pergunto como eles trariam os gêmeos na sequência, já que WTRC deu a entender que eles eram apenas mais um experimento de William Birkin.
Considerações finais

Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City está longe de ser uma obra prima revolucionária do cinema. Nunca esperei que seria. Mas eu gostei da experiência, me diverti, dei umas risadas. Foi um presente e uma oportunidade incrível poder sentar no cinema e ver meus personagens e cenários queridos na telona depois de um ano bastante difícil. Ainda mais pensando que esse reboot veio não tanto tempo depois do fim da saga de Alice, que não, não acho melhor do que WTRC, ainda mais pegando os dois últimos filmes.
Eu quero mais. Se esse não está bom o suficiente, que pelo menos o feedback negativo nos traga melhorias em possíveis sequências. Eu ainda acho que, por mais bobo que seja, Resident Evil: Welcome to Raccoon City é sim um filme feito com carinho, por fãs e para fãs.
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Concordo com você, sinto que foi feito com carinho de fãs para fãs. Um fã apaixonado mas sem dinheiro e possivelmente tempo pra elaborar um enredo complexo. Como um bom fã ele se animou muito com as referências e acho que se esqueceu de explicar elas para o público que não conhece os jogos. Realmente não dá pra pegar toda a história de dois dos jogos da franquia e fazer um negócio grande com pouco orçamento, porém várias cenas poderiam ser descartadas pra desenvolver melhor a história. Enfim, é um filme divertido, gostei muito das referências, e relevei algumas partes, afinal o importante é se divertir hehe
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