Este é o texto de número 1 da série Resident Evil e Frankenstein do blog e contém spoilers de todo o lore de Resident Evil e da obra Frankenstein ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley.
“Vida e morte pareciam para mim fronteiras ideais que deveria, primeiramente, transpor, despejando uma torrente de luz em nosso mundo sombrio. Uma nova espécie aberçoar-me-ia como criador e origem; muitas personalidades felizes e excelentes deveriam a mim a própria existência”. P. 69
Ozwell E. Spencer queria criar uma nova “raça” de seres humanos, forçando a evolução da espécie por meio dos vírus. Esses seres, que a seu ver seriam superiores, seriam mais fortes e mais inteligentes – e deveriam vê-lo como seu líder, um deus da nova espécie. Não foi ele, no entanto, quem disse as palavras acima citadas. Foi ninguém menos que Victor Frankenstein, na brilhante obra que inaugurou o gênero da ficção científica, um dos quais Resident Evil faz parte.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno, publicado pela escritora inglesa Mary Shelley pela primeira vez em 1818 e reeditado em 1831, influencia a ficção científica até hoje. E, ainda que indiretamente, Resident Evil não ficou de fora. A franquia tem uma quantidade imensa de cientistas ‘loucos’ com objetivos semelhantes aos de Victor – quase todos eles, diga-se de passagem.
E como eu amo Frankenstein e amo Resident Evil, este texto que ia ser único vai ser o primeiro da série Resident Evil e Frankenstein que vai discutir variados aspectos de como podemos relacionar as duas histórias.
A história e a crítica de Frankenstein

Embora no senso comum conheçamos o trecho em que Victor constrói e dá vida à criatura, nem todos sabem que essa não é a principal parte da obra e sim apenas seu começo. Durante a maior parte do livro, vemos o cientista enlouquecendo e sofrendo as consequências de seu feito, enquanto, paralelamente, acompanhamos a jornada da Criatura, que vai adquirindo consciência, percebendo que jamais será aceita pelas pessoas e ressentindo-se da rejeição por seu criador.
Frankenstein é uma história que faz inúmeras críticas à sociedade de seu tempo, inclusive ao próprio marido da autora, o poeta Percy Shelley. Dentre elas, destaca-se para nós a crítica que Mary Shelley faz do modo como os homens (os homens mesmo, não a humanidade) viam a natureza e como isso afetava sua forma de fazer ciência. Para a escritora, a ciência deveria ser compreender a natureza sem alterá-la radicalmente e, principalmente, sem querer dominá-la.

“Está vivo!”: o momento em que Victor (nesta versão chamado de Henry) Frankenstein percebe que a Criatura está viva. Cena do filme Frankenstein de 1931.
Isso porque havia uma visão muito forte nos séculos 18 e 19 (e que em muitos sentidos permanece até hoje) de que o ser humano está acima da natureza, como se não fosse parte dela com todas as suas forças, mas também fragilidades. Com isso, muitos cientistas da época achavam que não havia limites na ciência que poderiam praticar, inclusive barreiras éticas, ao ponto de tentar até mesmo reverter a mais inevitável das regras da natureza: a morte.
Pois é exatamente isso que Victor Frankenstein faz – ele descobre o princípio da vida e assim tenta driblar a morte por meio da criação de um novo ser. Para o bom entendedor, fica bem claro como isso se relaciona com vários dos vilões de Resident Evil e suas criações monstruosas.
Driblando a natureza
Em Resident Evil, as criaturas são, em geral, frutos de experimentos com animais ou com seres humanos vivos infectados por algum organismo, vírus, parasita ou fungo. Não há propriamente um objetivo de trazer os mortos de volta à vida; isso aconteceu de forma incidental por meio da infecção pelo T-vírus. De todo modo, a Umbrella violou fortemente as regras da natureza, tal como o Dr. Frankenstein, ao criar novas espécies.

As criaturas antinaturais da Umbrella.
No entanto, driblar a morte ainda assim é um tema presente em Resident Evil, pois o próprio Spencer passou a se preocupar sua finitude quando começou a perder a saúde e envelhecer. Isso o levou a insistir para que Alex Wesker descobrisse um meio de alcançar a vida eterna. Embora isso não esteja explícito em Frankenstein, a morte também é um fator motivador para a pesquisa insana de Victor, pois ele é constantemente assombrado pela morte da mãe: é basicamente a situação de Mãe Miranda em relação à morte de sua filha Eva, só que invertida.
No que se refere a criaturas, o primeiro ser que associamos à criatura de Frankenstein certamente é a série Tyrant. Criados misturando cobaias humanas com outros organismos e com aparatos tecnológicos, esses monstros se assemelham muito à figura corpulenta e além-humana da Criatura de Frankenstein, porém sem sua autoconsciência.

A criação de monstros, entretanto, traz efeitos colaterais. A criatura não necessariamente saúda o criador. No Resident Evil 1 original, muito antes da Capcom pensar em fazer o ataque do Tyrant um plano de Wesker, a “ultimate life-form” que ele tanto glorifica se volta contra ele imediatamente; Birkin não teve o controle que pensava que teria sobre o G; Miranda cria dezenas de aberrações em vez de ressuscitar Eva; o T-vírus vazou em diversas ocasiões, matando pesquisadores e dizimando uma cidade inteira. A violação da natureza, portanto, tem um preço caro a se pagar.
Os verdadeiros monstros
Victor Frankenstein via-se como um ser isolado da natureza por ser humano. Ele pensava que poderia dominá-la e controlá-la como se fosse um Deus. Mas se as religiões monoteístas veem Deus como pai, Victor não soube cumprir seu papel completo. Ele abandonou sua Criatura à própria sorte, jamais aceitando que aquele ser que ele trouxe à vida poderia ser digno de empatia, sendo que ele mesmo era o culpado pela aparência terrível da Criatura. E, assim, o novo ser passou a matar aqueles que Victor amava para vingar-se.
O que diferencia os cientistas de Resident Evil de Frankenstein, no fim das contas, acaba sendo que a maioria deles não abandona sua obra. Spencer morre acreditando em sua obsessão mesmo após todo o mal que causou; Alexia se aproveita até o fim do poder que o T-Veronica lhe deu; Wesker acreditava na beleza do Tyrant e seguiu os passos de Spencer até o fim; a obsessão pela sanguessugas de James Marcus foi tão grande que ele as tratava como seus filhos; entre outras loucuras. Todos eles, no entanto, foram destruídos por suas próprias criações ou por não abrirem mão delas.
Ao brincarem de Deus, Victor, Spencer, Wesker e outros que criaram monstruosidades se tornaram eles mesmos os monstros. Essa foi a lição que Mary Shelley nos deixou e que Resident Evil faz questão de nos lembrar.
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Referências:
- GOMES, Anderson Soares. A ciência monstruosa em Frankenstein: aspectos do pós-humano. In Gragoatá. Niterói: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, vol.23, n.47, p.848-872, set-dez 2018. Disponível em: https://periodicos.uff.br/gragoata/article/view/33606 Acesso de 27 de janeiro de 2021.
- MELLOR, Anne K. “A feminist critique of science”, In One Culture: Essays in Science and Literature. LEVINE, George; RAUCH, Alan (Orgs). Madison: University of Wisconsin Press, 1987.
- MELLOR, Anne K. Mary Shelley: Her Life, Her Fiction, Her Monsters. New York: Routledge, 1989.
- SHELLEY, Mary Wollstonecraft (1831). Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017.
Texto sensacional. Os paralelos entre Frankenstein e Resident Evil são mesmo muitos, e você os abordou de forma primorosa aqui.
No aguardo das demais partes.
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