A coleção de artefatos históricos do Chefe Irons em Resident Evil 2 Remake

A sala de Brian Irons no jogo Resident Evil 2 Remake. Há estantes com diversos artefatos arqueológicos do Egito Antigo e de antigas civilizações das Américas.

O chefe de polícia de Raccoon City, Brian Irons, era conhecido por seu gosto exótico pela taxidermia e por obras de arte famosas e caras. E, se já era visível no Resident Evil 2 original, Resident Evil 2 Remake elevou isso a outro nível, mostrando a coleção do delegado com riqueza de detalhes.

Várias dessas obras chamaram minha atenção, pois são reproduções de obras e artefatos reais. É muito provável que, no universo de Resident Evil, vários tenham sido adquiridos ilegalmente, já que há artefatos cuja venda é proibida, principalmente os mais antigos. Assim, decidi trazer para vocês um pouco sobre o peculiar escritório de Brian Irons.

Considerações iniciais

A coleção do chefe de polícia de Raccoon City era imensa. Ela incluía desde objetos de civilizações antigas até quadros caros. Outros fãs já pesquisaram sobre os quadros e as miniaturas de Leonardo da Vinci da coleção; portanto, focarei nos objetos restantes. Alguns são mais conhecidos, mas outros não, e por isso quero trazer para vocês o conhecimento das peças menos famosas.

Uma primeira observação interessante é que a maioria dos artefatos da sala existem na vida real e boa parte deles se encontra no acervo do Museu Metropolitano de Nova York, que mencionarei muitas vezes e, por isso, chamarei pela abreviação MET. Claramente foi no site do MET que a Capcom buscou boa parte da base para os assets, uma vez que o acervo é de fácil acesso e suas fotos são majoritariamente de domínio público.

Quero deixar meu agradecimento ao meu amigo Fabio Hirata por ter gentilmente cedido alguns prints de gameplay dele para que eu pudesse ilustrar o texto. Também usei alguns prints de um vídeo do canal Alertemos Conspirador.

Será um texto longo, então peguem um café e uma pipoca para acompanhar a leitura!

Sumário

Os artefatos descritos estão organizados pela ordem em que aparecem. Para facilitar a movimentação pelo texto, deixarei um sumário clicável com as seções. Porém, vale a pena ver todas, pois há objetos muito interessantes e eu levei meses para fazer a pesquisa!

Máscaras rituais e vasos antigos

Pratos de diversas épocas

Egito Antigo

México

Irã

Cerâmicas mediterrâneas

Como Brian Irons adquiriu essas peças?

As máscaras rituais e vasos antigos

Em uma das primeiras prateleiras que vemos logo que entramos na sala do Chefe Irons, há uma porção de máscaras rituais. Fiz uma pesquisa bem grande e infelizmente nenhuma delas é uma máscara típica de uma cultura real. Provavelmente, os designers reuniram alguns elementos de máscaras africanas reais para criar a máscara do meio, que tem características comuns em algumas regiões do continente, como padrões geométricos e olhos fechados.

Uma estante com várias máscaras rituais penduradas, além de alguns vasos e tigelas de metal.

O provável motivo para isso é que a maioria das máscaras mais bonitas do MET não estão em domínio público. Suas fotos estão no site do museu, mas não podem ser usadas sem autorização, e a Capcom provavelmente não estava disposta a pagar pelos direitos de uso. De qualquer forma, vou deixar aqui o link do acervo, caso você queira conferir e comparar as máscaras. Algumas interessantes são dos Senofu, dos Lega e dos Baule.

Junto às máscaras, há uma porção de vasos de metal. Eles também não levam a nenhuma peça real específica, mas parecem remeter às ânforas, crateras e lécitos gregos e romanos. Na estante ao lado, também há vasos do tipo, sendo um deles (o maior, à esquerda) uma clara referência a uma cratera romana.

Vários vasos de formatos diferentes em uma estante em Resident Evil 2 Remake.

Recipientes diversos de origem ou inspiração grega e romana. O objeto pendurado, que parece ser uma escultura de madeira com várias pessoas, não consegui encontrar em outro lugar.

Pratos de diversas épocas

Na segunda estante, há dois nichos de pratos decorativos. Todos eles foram encontrados no acervo do MET.

O primeiro prato da estante é datado da virada do século XV para o XVI. Ele foi feito em Sevilha, na Espanha, utilizando a técnica cuerda seca, que é a aplicação de esmaltes coloridos à cerâmica, que provavelmente é a técnica usada na maioria dos pratos que veremos a seguir. Ele mostra um pássaro aquático que pode ser um tarro canelo, que é encontrado no sul da Espanha e tem essa coloração alaranjada e bico fino.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica de um pássaro de bico comprido e penas laranjas. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador, Original: MET.

O segundo prato também vem do que hoje é a Espanha, da cidade de Málaga, do reino de Granada, e data da virada do século XIII para o XIV. A cerâmica de Málaga era bastante prestigiada na época. O prato é originalmente uma tigela e mostra um cavaleiro atacando uma serpente com uma lança, o que possivelmente remete a São Jorge derrotando o dragão.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica mostrando um homem num cavalo lutando com uma serpente, sendo o desenho feito em dourado. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Original: MET.

O terceiro prato é uma típica arte otomana, originária de Iznik, na Turquia, datada do século XVI. A região é conhecida por sua cerâmica e os motivos de pássaros com flores em tons de azul, roxo e verde são bem comuns.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica mostrando pássaros empoleirados em ramos de flores. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Original: MET.

O primeiro prato da segunda estante também é de Iznik e data do século XVI.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica com desenhos azuis e cinzas. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Original: MET.

Mais um prato de Iznik. Pratos pintados com barcos parecem ter sido muito apreciados ao longo de várias épocas e lugares, uma vez que há peças de várias origens e épocas na coleção do MET, onde há dois exemplares dele. Os dois são datados do século XVII, mas provavelmente são de décadas diferentes.

Comparação de imagens de pratos de cerâmica mostrando um navio. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra são os original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Originais: MET (mais recente e mais antigo).

O último prato me deu um trabalho imenso para encontrar, e originalmente ele é uma tigela. Nele, dez pessoas assistem a uma mulher tocando alaúde, provavelmente em uma festividade. Ele é datado entre os séculos XII e XIII e é atribuído ao Irã/Pérsia. Se prestarmos atenção, veremos que as pessoas retratadas, apesar das vestes tipicamente persas, têm feições asiáticas. Isso é bem comum na arte medieval persa e também de outras regiões do Oriente Médio, e em parte se deve a trocas culturais com a China. Durante a Idade Média, o mundo muçulmano se estendia da Península Ibérica (Al-Andalus) até a Índia e a China, e as pessoas viajavam muito por esse território, gerando um intercâmbio cultural intenso.

Comparação de imagens de um prato azul que mostra várias pessoas assistindo a uma mulher persa com traços chineses tocando alaúde. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: canal Alertemos Conspirador. Original: MET.

Egito Antigo

A maioria das peças egípcias antigas de Irons estão no segundo corredor de sua coleção. Ao fazermos a curva, o primeiro que se destaca é um grande vaso posicionado ao lado de um Dodô empalhado.

Um  vaso egípcio com o corpo semioval e o pescoço longo. Ele tem desenhos que parecem um colar em torno do pescoço. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Essa peça é muito bonita e foi inspirada nos vasos encontrados na tumba de Sennedjem, um artesão que viveu e trabalhou durante os reinados dos faraós Seti I e Ramsés II. Alguns deles estão no MET e outros não. Seu tamanho está exagerado, já que os vasos originais tinham cerca de 30 cm de altura. Ele mostra alguns sinais de desgaste, o que indica que o jogo quis dizer que a peça é original.

Logo atrás do vaso de Sennedjem, podemos ver três vasos com cabeças de deuses egípcios na estante, que paravelmente são originais. Esses itens são chamados de vasos canópicos ou canopos e eram utilizados para guardar os órgãos internos do morto retirados durante o processo de mumificação.

Cada um tinha a cabeça de um dos filhos do deus Hórus e guardava um órgão específico: Imseti (homem), o fígado; Hapi (babuíno), os pulmões; Duamutef (chacal), o estômago; e Kebehsenuef (falcão), os intestinos. O coração não era retirado da múmia, pois os antigos egípcios atribuíam ao coração não só o sentimento quanto também o pensamento, fazendo o papel do cérebro (que eles tiravam pelo nariz do morto). Os vasos canopos tinham como função a proteção dos órgãos, considerados essenciais para a ressurreição do defunto.

  • A sala de Brian Irons no jogo Resident Evil 2 Remake. Há estantes com diversos artefatos arqueológicos do Egito Antigo e de antigas civilizações das Américas.

1: Print de Fabio Hirata (ampliado). 2: Wikipedia. 3: MET.

Para não perder o fio da meada do Egito, vou usar um cheat e pular para a última prateleira. Nela, encontramos dois artefatos egípcios bastante conhecidos do público em geral e que Brian Irons com certeza não ia querer deixar de lado. Ambos são, com certeza, réplicas que o delegado encomendou, uma vez que, já que elas são tão famosas, seria impossível para ele contrabandeá-las.

A primeira é do busto da Rainha Nefertiti, um dos itens mais importantes da Arqueologia do Antigo Egito e também um dos que o Egito mais luta para retornar a seu país (atualmente ele está no Neues Museum, em Berlim, na Alemanha). Nefertiti era a principal esposa do Faraó Akhenaton da 19ª Dinastia, aquele que centralizou o culto no deus solar Aton. Seu busto foi encontrado por escavadores egípcios em 1919, porém em uma expedição alemã, que reivindicou o objeto para si.

Comparação de imagens do busto da rainha egípcia Nefertiti. Ela é representada como uma mulher madura e bonita com uma coroa azul.Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: Wikipedia.

A outra réplica é da máscara mortuária de Tutankhamon, o Rei Menino. A tumba do jovem faraó, morto com 19 anos, foi encontrada em 1922 pela equipe do egiptólogo inglês Howard Carter e se tornou uma das descobertas arqueológicas mais famosas do Antigo Egito.

Comparação de imagens da máscara do faraó egípcio Tutankhamon. Ela é dourada com entalhes azuis em formato de listras.Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: Wikipedia.

 O Rei Tut (apelido carinhoso) é filho do homem enterrado na tumba KV55, que provavelmente é Akhenaton, mas não de Nefertiti. Seu reinado foi breve e virou até tema de uma série estrelada por ninguém menos que Avan Jogia – sim, o Leon de Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City – como Tutankhamon.

Hoje, a máscara de Tutankhamon está no Grande Museu do Cairo, aquele próximo às pirâmides de Gizé que até hoje foi apenas parcialmente inaugurado. Sua múmia é a única de um faraó que permanece em sua tumba, à qual foi atribuída uma maldição que era nada menos que uma fake news inventada por Howard Carter para impedir que pessoas aleatórias ficassem passeando por ali e depredando o local.

A última peça da prateleira é um vaso que num primeiro momento pensamos ser grego, já que ele aparece em um dos formatos mais conhecidos da cerâmica grega: uma ânfora de terracota, com fundo preto e figuras vermelhas.

Curiosamente, no entanto, a cena representada nele não é grega, e sim egípcia: trata-se de uma representação do deus Anúbis preparando um corpo, acompanhado das deusas Ísis e Nephtis. A figura é uma reprodução da pintura da tumba KV47 do Faraó Siptah (1197 – 1191 a.C).

À esquerda, uma representação de um vaso de terracoota grego, porém com uma cena egípcia. Ao lado, há a referência da cena original, um mural egípcio mostrando o deus Anúbis preparando o corpo do faraó ao lado das deusas Ísis e Nephtis.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: Tumba KV47 do Faraó Siptah, foto de Pierre Tetrel no Getty Images.

Embora tenha havido convergência entre a cultura grega e egípcia durante o período Ptolomaico (de Cleópatra), esta peça não existe na vida real. Um fato interessante sobre a tumba KV47 é que ela foi registrada por um conhecido fotógrafo de expedições arqueológicas no vale dos reis chamado Harry Burton, quase um xará do nosso querido paizão Barry Burton.

México

Uma estante da sala de Brian Irons no jogo Resident Evil 2 Remake com diversos artefatos arqueológicos de antigas civilizações das Américas.

Print: Fabio Hirata (ampliado).

Voltando um pouco, ao lado dos vasos canopos, encontramos algumas peças variadas. A maior parte delas tem origem mexica, que nós costumamos chamar de asteca. Todas elas existem na vida real (embora com dimensões um pouco diferentes) e estão no acervo do MET.

A primeira escultura à esquerda é uma representação de Macuilcoatl, uma das divindades astecas conhecidas como “cinco lordes das almas”, os Ahuiateteo. Essas divindades estavam ligadas aos prazeres excessivos com bebida, sexo e jogos de azar e às consequências negativas desses excessos. A posição em que o deus se encontra, sentado com as pernas contra o peito, é típica de figuras masculinas. Mais informações podem ser lidas aqui (em inglês).

Comparação de imagens de uma estátua de pedra do deus asteca Macuilcoatl. Ele está sentado e usa adornos diversos. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Bem no meio, podemos ver uma figura feminina esculpida em pedra. Trata-se de uma representação de Chalchiuhtlicue, a deusa asteca da água, principalmente de rios, lagos e córregos. Se as figuras masculinas costumavam ser representadas sentadas, as femininas apareciam de joelhos. Ela está representada em trajes nobres, demonstrando sua importância. Chalchiuhtlicue é casada com Tlaloc, o deus das chuvas, e juntos eles governam o clima.

Comparação de imagens da deusa asteca Chalchiuhtlicue, com adornos na cabeça e na posição ajoelhada. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Esta outra escultura de pedra pode ser vista ao fundo da estante, entre Macuilcoatl e Chalchiuhtlicue, e mostra uma mulher asteca de joelhos. Ela tem um grande enfeite na cabeça. Ela data de 1325–1521 d.C., e não há mais informações sobre ela.

Comparação de imagens de uma estátua de pedra de uma mulher asteca ajoelhada com adornos na cabeça Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Aos fundos, no canto direitos, vemos mais uma figura masculina representada em pedra. A única informação disponível é que a escultura data do século 15 ou do início do 16. A versão de RE2R também é bem menor que a original, que tem cerca de um metro de altura.

Comparação de imagens de uma estátua de pedra de um homem sentado de cócoras. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Esta pequena estátua de cerâmica representa uma figura antropomórfica com corpo humano e cabeça de pássaro em uma postura imponente. Por incrível que pareça, ela é um apito (de 51 cm de altura!), e provavelmente tinha uma função cerimonial.

Comparação de imagens de uma estátua de cerâmica de uma figura com corpo de homem e cabeça de pássaro em uma postura imponente. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Esta peça data dos séculos VIII e IX e tem origem no México, mas não é mexica/asteca. Ela vem da região de Veracruz, ao norte do país, que tinha semelhanças culturais com seus vizinhos mexicas e maias, mas era uma cultura à parte que já não existia mais na região quando da chegada dos europeus.

Já este passarinho barbudo e mal-humorado que está bem ao centro da estante, assim como a peça descrita anteriormente, é um apito, mas de duas câmaras sonoras. Este artefato é maia e é datado entre os séculos VII e IX.

Comparação de duas imagens de um apito de argila em formato de pássaro com uma espécie de juba e uma expressão carrancuda. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Irã

Na mesma estante das peças mesoamericanas, estão duas figuras que destoam do resto: uma estátua verde de um homem caminhando e a de um boi antropomorfo segurando um vaso. Ambas são muito antigas e foram feitas por uma civilização que existiu no sudoeste do Irã entre 3300 e 2800 a.C, que precedeu os elamitas. Ela ficava muito próxima da Suméria, na Mesopotâmia.

O boi original é bem mais elaborado: é feito de prata e veste uma túnica adornada, além de ter cerca de metade do tamanho da que vemos na estante de Irons. Segundo o MET, “representações de animais em posturas humanas eram comuns na arte protoelamita, possivelmente como símbolos de forças naturais, mas provavelmente também como protagonistas de mitos ou fábulas”.

Comparação de duas imagens de um boi antropomorfo de prata segurando um vaso. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Já a estátua verde à esquerda, que se parece estranhamente com um duende do Polo Norte por seu chapéu e botas pontudas, é um herói mítico ou demônio. Seu adorno de cabeça são chifres. A estátua é de cobre, e sua cor esverdeada se dá pela oxidação do metal ao longo do tempo.

Comparação de imagens de uma estátua verde de um um homem com características sobrenaturais. Uma versão é de Resident Evil 2 Remake e a outra é a original da vida real.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Cerâmicas mediterrâneas

Por fim, há quatro vasos muito bonitos na estante seguinte.

O vaso do meio foi feito em Florença, na Itália, e data do início do século XVI. Florença é a cidade referência do Renascentismo, e esta peça, embora ainda não carregue toda a sofisticação da arte renascentista mais conhecida, já mostra uma transição entre o estilo medieval e o estilo moderno.

Imagem 1: vaso de RE2 Remake.
Imagem 2: vaso original.
O vaso é bege e redondo, tem duas alças e tem adornos pretos em formato de ramos de folhas compridos.

Print de: Fabio Hirata (ampliado). Original: MET.

Já esses belos vasos longos são na verdade jarros para fins farmacêuticos. Todos têm originalmente cerca de 30 cm de altura, sendo os de RE2R um pouco maiores, e datam do século XV. Eles foram feitos no que hoje é a Espanha, mas têm uma grande influência da arte árabe-muçulmana, dado entre 710 e 1492 os muçulmanos de origem árabe e amazigh (conhecidos vulgarmente como berberes) dominaram politicamente a Península Ibérica.

Fontes das imagens: Print do canal Alertemos Conspirador, Vaso 1, Vaso 2, Vaso 3.

Estes foram os últimos itens da nossa lista. Agora, cabe refletir um pouco sobre eles estarem na coleção do delegado de Raccoon City.

Como Irons adquiriu essas peças?

Sabemos que Brian Irons era um homem sem escrúpulos. Não há dúvidas de que várias das peças que ele possuía em seu escritório (e que foram pelos ares com Raccoon City, por sinal) foram adquiridas ilegalmente. E isso é mais comum do que se pensa.

Há um difícil e intenso trabalho de rastreio e recuperação de objetos históricos contrabandeados e vendidos no mercado ilegal. Isso acontece desde que as escavações arqueológicas começaram no Egito durante a expedição de Napoleão iniciada em 1798. Isso se expandiu para outros lugares do globo que foram sendo sugados pelo domínio colonial europeu.

As escavações, no início, não tinham fins somente científicos, mas também comerciais. Muitos dos artefatos eram saqueados por “exploradores” e comprados por colecionadores ou museus; nisso, muitos objetos foram tirados de contexto, de modo que sequer podemos estudá-los com propriedade, já que não sabemos de onde eles vieram. Isso sem contar o que foi roubado, contrabandeado ou destruído, sendo perdido para sempre.

A própria arqueologia compactuou com isso por muito tempo, não respeitando objetos, locais e muito menos os povos de cuja cultura esses objetos vieram. Os europeus se apropriaram de artefatos como esses e de vestígios arqueológicos em suas pesquisas na África, na Ásia e até aqui nas Américas, levando-os para museus como o Museu Britânico, o Louvre, o Neues etc. Quem assistiu Pantera Negra se lembra muito bem da cena de Eric Killmonger jogando isso na cara da funcionária do museu e pegando a ferramenta de vibranium da exposição. Hoje em dia, diversos desses objetos são reivindicados por seus países de origem.

Isso só reforça que alguns dos itens da coleção de Brian Irons foram adquiridos de forma ilegal e, por que não, imoral. Outros podem, claro, ser réplicas encomendadas. Como nem sempre é possível ter peças originais, alguns museus encomendam réplicas ou peças exclusivas que são usadas para fins educacionais em suas exposições. Boa parte do Museu Egípcio Rosacruz em Curitiba é composta de réplicas que cumprem muito bem seu papel. O próprio MET, que tanto mencionei neste texto, tem uma vasta coleção de itens produzidos por seus povos de origem especificamente para o museu.

Sala de arte de Resident Evil 2. É um depósito para vários objetos como esculturas, vasos e relógios antigos.

E, é claro, não podemos esquecer que o prédio da delegacia de Raccoon City foi, no passado, um museu, do qual Irons surrupiou várias coisas. Desde o Resident Evil 2 original, existe a sala de arte, onde Irons deixava parte de sua coleção e possivelmente parte do que restou do acervo do museu.

Mas me conta, o que achou dos artefatos da coleção do famigerado chefe de polícia de Raccoon City? Você esperava que tantos deles fossem reais e tivessem tanta história para contar?


Referências:

Referências consultadas para além das páginas de cada artefato nos museus.

  • AGUILAR-MORENO, Manuel. Handbook to Life in the Aztec World. New York: Oxford University Press, 2007.
  • Art In Video Games: The Macabre and Unusual Collections of Chief Irons in Resident Evil 2 Remake. Strange Dark Stories. 1 de março de 2019. Disponível em: https://www.strangedarkstories.com/2019/03/treasures-of-chief-irons.html Acesso em 18 de setebro de 2025.
  • COLLECTION – METROPOLITAN MUSEUM OF ART (várias pesquisas). https://www.metmuseum.org/art/collection
  • MURSELL, Ian. While Aztec women knelt, men squatted. Mexicolore (online). Sem data. Disponível em: https://www.mexicolore.co.uk/aztecs/aztec-life/squatting Acesso em 18 de agosto de 2025.
  • SALES, José das Candeias. A arqueologia egípcia no século XIX: da “caça ao tesouro” à salvaguarda da herança faraónica. Cadmo: Revista do Instituto Oriental da Universidade de Lisboa. Actas do Colóquio Internacional: Orientalismo ontem e hoje, Lisboa, p.85-112, 2002.
  • WATSON, Oliver. Chinese-Iranian Relations xi. Mutual Influence of Chinese and Persian Ceramics. Encyclopædia Iranica, online edition, 2015. Disponível em: http://www.iranicaonline.org/articles/chinese-iranian-xi Acesso em 18 de agosto de 2025.

2 comentários em “A coleção de artefatos históricos do Chefe Irons em Resident Evil 2 Remake”

  1. Sensacional! Como eu tinha deixado este artigo passar?
    Ótimo trabalho de pesquisa e catalogação. Interessante que, através dele, conseguimos perceber como os desenvolvedores trabalham adaptando referências ao contexto e circunstâncias do game.
    Muita coisa curiosa aí, de que eu nem fazia ideia!

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