Resident Evil Requiem será uma história sobre memória

Resident Evil Requiem nos levará de volta a Raccoon City, uma cidade onde nós, jogadores, criamos muitas lembranças, e onde vários personagens viveram imensos traumas impossíveis de esquecer. O jogo também levará Grace Ashcroft a um lugar e a um momento de seu passado que ela não gostaria de revisitar, mas cujas lembranças ela não pode apagar.

Essa composição narrativa me diz uma coisa: o principal tema de Resident Evil Requiem será, sem sombra de dúvidas, a memória.

Uma parede, provavelmente em um beco, mostrando vários cartazes sobre pessoas desaparecidas.

Isso começa em seu nome: requiem em latim significa descanso e, nas tradições cristãs, é uma canção litúrgica às almas dos mortos. É uma forma de lembrar dos que partiram. A promessa do jogo é de um réquiem para Raccoon City e aqueles que lá pereceram. Mas com certeza ele falará também das memórias de quem sobreviveu, continuou revivendo aquele pesadelo e lutando para não deixar ele ir embora.

Por isso, neste texto, vou teorizar um pouco sobre como Requiem trabalhará essa memória.

Lembrança pessoal versus memória

A memória em REquiem aparecerá no sentido de lembrança, de vivência íntima do acontecimento, e de memória histórica e social, do que o acontecimento significa para uma sociedade e como é lembrado.

Para a História como ciência, lembrança e memória são coisas diferentes. As lembranças são individuais e únicas; só você as tem, porque só você sabe as dores, os medos, as alegrias e os pensamentos que teve.

Já a memória tem a ver com o que se escolhe lembrar ou esquecer. De forma individual, pessoal, falamos muito da memória dos mortos. Fazemos preces em memória dos entes queridos ou deixamos símbolos em nossas casas, por exemplo, para que eles sejam sempre lembrados.

A memória social, por sua vez, é coletiva e socialmente construída a partir de interesses e pontos de vista do presente. Ela não depende de termos vivido um acontecimento, mas sim daquilo que escolhemos ou somos induzidos a lembrar (ou esquecer) enquanto grupo ou sociedade.  A memória pode ser construída deliberada ou naturalmente, a partir da visão de mundo de determinado grupo. Nenhuma dessas formas de construir memória é intrinsicamente boa ou ruim, mas sempre há disputas em torno delas.

Vários personagens dos STARS de Resident Evil tentam brigando com o delegado Brian Irons enquanto ele olha com uma expressão debochada.

Por exemplo, a memória oficial de Raccoon City enfatizava o papel essencial da Umbrella no desenvolvimento da cidade, criando uma imagem positiva da empresa para a população. Isso foi elaborado pela própria Umbrella e por autoridades como Brian Irons e Michael Warren. Já o trabalho jornalístico de Alyssa Ashcroft buscou redirecionar essa memória para as manipulações e crimes da empresa. Enquanto isso, o bombardeio de Raccoon City naturalmente deixou uma memória negativa da atuação do governo americano na época para muitas pessoas.

Sabendo disso, podemos teorizar sobre REquiem.

Grace Ashcroft: entre lembranças e memórias

Em Requiem, Grace Ashcroft vai reviver seus demônios em um local que reforça muitas lembranças traumáticas. Ela será obrigada e revisitar o local da morte da mãe e de muito terror, não tendo a escolha da negação. No primeiro trailer, seu chefe diz: “Alyssa morreu há oito anos. Talvez seja hora de enfrentar o passado”.

Mais uma vez, o tema de família aparece em Resident Evil, mas de uma maneira diferente do que foi feito em RE7 e Village, que estavam muito centrados nas famílias Baker, Winters e de Mãe Miranda, cuja relação com Raccoon City e a Umbrella eram indiretas. Isso porque a memória da família Ashcroft está intrinsicamente ligada à memória de Raccoon City. Alyssa provavelmente dedicou sua vida à causa, e isso certamente teve impacto na relação entre ela e Grace. O trailer exibido na Gamescon trouxe alguns momentos de interação entre mãe e filha, mostrando uma Grace distraída e ainda imatura com uma Alyssa que carrega o peso do mundo nas costas.

As personagens de Resident Evil Alyssa e Grace Ashcroft, mãe e filha, em um quarto de hotel. Ambas são brancas, loiras e têm cabelos curtos. Grace usa óculos de grau e mexe distraída em um laptop. Alyssa olha para ela com uma expressão de desapontamento.

Talvez Grace não entendesse a dimensão daquilo e a luta constante de Alyssa para não deixar Raccoon se repetir pode ter gerado algum tipo de conflito entre as duas. Nessa linha de raciocínio, com a morte da mãe Grace caiu em um luto cheio de culpa por não ter entendido a profundidade dos traumas de Alyssa.

Assim, Grace provavelmente reviverá não somente suas próprias dores, mas também a memória que Alyssa carregava de Raccoon City. Consequentemente, a memória coletiva dos sobreviventes. Já no início do primeiro trailer, a jovem está investigando casos de mortes causadas claramente por uma arma biológica, o que pode significar que no presente ela leva o legado de sua mãe muito a sério. No entanto, ao voltar ao Hotel Wrenwood, tudo isso se intensificará de forma visceral.

A história e a memória coletiva de Raccoon City

A catástrofe de Raccoon City foi um marco na história no universo de Resident Evil. Ela teve um enorme impacto social, pois o extermínio da cidade gerou revolta na opinião pública; ao mesmo tempo, os sobreviventes lutaram por revelar a verdade, e, mesmo que ela não tenha sido revelada por completo, aquele foi o início do fim para a Umbrella, uma das mais importantes empresas do mundo, ligada a algumas das pessoas mais poderosas da Terra. Para as pessoas comuns, Raccoon foi um trauma misterioso e mal resolvido, e para seus sobreviventes um pesadelo que nunca vai embora. Eu falei sobre isso de forma aprofundada no texto sobre Raccoon City como acontecimento histórico, que vale a pena você conferir para complementar este que você está lendo.

O que já vimos até agora sugere que REquiem vai explorar tudo isso e provavelmente levar adiante.

Uma bomba nuclear ou de hidrogênio explode no centro de uma cidade fictícia, Raccoon City, iniciando sua destruição.

Ainda não sabemos quem além das Ashcroft vai participar disso, mas a aparição de sobreviventes conhecidos como Jill, Leon ou Sherry é certa, e é aí quer será trabalhada a memória coletiva de Raccoon City. A trajetória desses personagens está intrinsicamente ligada ao que aconteceu ali, e se não fosse por eles – e pessoas como Alyssa – a verdadeira tragédia da cidade poderia ter sido esquecida. Por causa desses personagens, a responsabilidade da Umbrella pelo que houve em Raccoon ficou tão evidente que a empresa colapsou e sua imagem ficou manchada na memória pública.

Agora, a própria Umbrella (agora azul) está tentando reconstruir sua imagem após anos sendo associada a sofrimento e destruição. E quem garante que ela não está se reformulando para manipular mais uma vez a memória coletiva e fazer todo mundo esquecer seus crimes? Será que vamos finalmente descobrir?

Um helicóptero com a logo da Umbrella Corporation em sua nova versão, azul e branca, em vez da original vermelha e branca.

Para os fãs

O tema da memória em REquiem não se restringe ao universo de Resident Evil. Afinal, é a primeira vez que vemos locais familiares como as ruas e o RPD depois da destruição de Raccoon City. Isso vai despertar lembranças não só nos personagens, mas também em nós, fãs, aumentando ainda mais a dimensão da tragédia que aconteceu ali.

Hoje, vivemos um momento da cultura pop em que se recorre muito à nostalgia como fator cultural (e comercial). É claro que a Capcom se aproveita disso, a exemplo dos remakes de RE2, RE3 e RE4. Um retorno a Raccoon City certamente se encaixa nisso.

Porém, parece que Raccoon City tem esse apelo desde muito antes dessa obsessão com nostalgia. A cidade – e consideremos Raccoon City não só como a parte urbana em si, mas também as montanhas Arklay e a Mansão Spencer – sempre foi o coração de Resident Evil, e se a maior parte das nostalgias que vivemos se dão por momentos felizes, Raccoon remete também ao caos, à morte, à tristeza e à ganância da Umbrella, do governo americano e de homens como Albert Wesker e Ozwell Spencer.

As lembranças e a memória de Raccoon City, portanto, também estão em nós, fãs. Então, nada mais justo que, nos 30 anos da franquia, retornemos à cidade.

Em resumo…

Grace Ashcroft, de Resident Evil, abraçada em sua mãe. Grace é branca e jovem e tem cabelos loiros curtos. Ela usa óculos e está com muito medo.

Ainda temos muito tempo até o lançamento de Requiem e muito material para nos atiçar a teorizar. Mas não há dúvidas sobre a importância da memória em seu enredo. Tudo o que vimos até agora dá mostras de que o jogo vai alinhar as lembranças de Grace à memória de Raccoon City, que sua mãe viveu e pela qual lutou até o fim. Para nós, fãs, será finalmente descobrir o que aconteceu com o que sobrou de Raccoon City e reviver os acontecimentos junto aos personagens de uma maneira totalmente inédita.

Será tudo muito intenso, muito dolorido e muito reflexivo. E estamos ansiosos para sofrer junto com a Grace.

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