Antes de ler este texto, três recados:
Se você não jogou Resident Evil: Code Veronica, este texto está repleto de spoilers.
O texto foi escrito com a orientação de dois profissionais de saúde mental.
Qualquer comentário preconceituoso será excluído e denunciado.
O tão esperado remake de Resident Evil: Code Veronica foi anunciado e há muitos elementos do jogo que estamos curiosos para ver. Há muitas teorias sobre como a história será adaptada, a gameplay refinada e os personagens aprofundados. E um personagem em especial recebe muita atenção nesse sentido: Alfred Ashford. Como Resident Evil: Veronica (RE:V) vai tratar o controverso vilão? Esse é o assunto deste texto.
O Alfred de Code: Veronica
Quem jogou Resident Evil Code Veronica sabe que Alfred é um personagem bastante caricato. Ele tem uma arrogância aristocrática marcante e, como é comum em vilões e figuras políticas egocêntricas, algum grau de paranoia. Mas esses pontos são só um lado dele. Grande parte do personagem é sua afetação e seu transtorno de personalidade, que, da forma como foram feitos no jogo clássico, construíram um personagem ao mesmo tempo memorável e altamente problemático.
O transtorno de personalidade de Alfred é um ponto central da história de Code Veronica. O jovem herdeiro viveu uma vida solitária e cheia de pressões para elevar o nome da família Ashford, tentando garantir que Ozwell Spencer não tomasse conta da Umbrella ao mesmo tempo em que precisava esperar o 15 anos de sono criogênico de Alexia. Isso o foi enlouquecendo aos poucos, e a saudade fez com que o transtorno se manifestasse nele com a personalidade de sua irmã.

Essa condição de saúde é chamada de Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) e existe na vida real, embora seja rara. Tal como em Code Veronica, ela está muito relacionada a traumas e à fuga de realidades difíceis para a pessoa.
No entanto, no Alfred original, o TDI é acompanhado por uma apresentação afetada e estereotipada mesmo quando Alfred está sob a própria personalidade. Ele é afeminado e sua risada esquisita faz dele uma figura forçada, um arquétipo de “b1cha má” engraçada e feita para ser ridícula. Além disso, essa afetação, combinada ao TDI, gera uma confusão entre alguns fãs, que pensam que ele é transgênero e que ele queria ser Alexia. Porém, não é o caso; assumir a personalidade da irmã é, na verdade, a maneira que a mente de Alfred encontrou para lidar com a solidão.
Eu não diria que esse engano é necessariamente culpa dos jogadores, e sim da própria apresentação que o jogo faz de Alfred e da nossa falta de uma educação tanto de gênero quanto de saúde mental e psíquica.
Essa confusão piora mais ainda com a famosa (e péssima) fala “You cr0ssdressi1g freak!” cuspida agressivamente por Claire contra o Ashford, que originalmente não estava no roteiro em japonês, mas que chegou à maioria dos jogadores com a versão localizada em inglês. Fala que, convenhamos, não é nem coerente com a personalidade de Claire, que com certeza é uma das pessoas mais abertas e inclusivas da franquia. Em Darkside Chronicles, ao descobrir que aquela Alexia que enfrentava era na verdade Alfred, Claire é bem mais sensível, comentando com certa empatia que ele não aguentou o fato de que sua irmã estava morta.

Essa distorção de qual é a condição de Alfred alimenta ainda uma falácia: a de que pessoas com identidades de gênero diversas seriam loucas, portadoras de distúrbios mentais. Ademais, a questão de saúde relacionada ao transtorno de personalidade acaba sendo tratada como sinônimo de loucura, pura e simplesmente. Dessa maneira, associar um personagem considerado louco à orientação sexual ou à identidade de gênero é muito grave. Não que fosse um problema Alfred ser de fato gay, trans ou qualquer outra existência; o problema está nas conexões entre transtornos mentais e comportamentos fora do padrão heteronormativo que Code Veronica trouxe à sua época, ainda mais considerando que até hoje os únicos personagens LGBTQIA+ confirmados pela Capcom são minúsculos.
E é por isso mesmo que, para Resident Evil: Veronica, alguns ajustes importantes precisam ser feitos.
Um Alfred mais humano
A minha aposta para a nova versão de Alfred Ashford é que ele será mais humanizado. Não para se tornar uma pessoa boa, mas para que a trajetória dele seja melhor compreendida. Um exemplo de como isso foi feito recentemente foi a mudança de Jack Krauser em Resident Evil 4 Remake. Originalmente, Krauser era um personagem de caráter maleável desde o início, sentindo-se atraído pela promessa de poder de Wesker após ser ferido na Operação Javier e perder seu valor como soldado. Já no jogo de 2023, a Capcom tornou-o vilão após o trauma de perder sua equipe na operação, jurando vingança ao governo dos EUA e por isso se unindo a Saddler.
A possibilidade de fazerem algo semelhante com Alfred agora é grande, afinal ele já tem o passado trágico bem delineado. É muito provável que ele fosse preterido por todos enquanto Alexia era sempre o centro das atenções, e isso pode ter influenciado a pressão sobre ele para reerguer o nome dos Ashford. Não acho que fariam Alfred ter inveja de Alexia, pois a falta que ele sente da irmã é uma de suas características mais importantes, porém ele pode ter uma autoestima bem baixa. Colocar foco nisso poderia ser um caminho para RE:V.

Quanto à afetação, imagino que não será um caminho tão difícil, pois em Darkside Chronicles Alfred já foi retratado de maneira bem diferente. O foco de sua afetação ali era a arrogância aristocrática, o senso de superioridade e o desespero pela honra da família Ashford, sem criar uma associação pejorativa entre o comportamento dele e a personalidade feminina que seu transtorno assume. Basta repetir isso em RE:V que teremos uma representação fiel do personagem no que é mais essencial dele.
Já a relação entre o TDI e a loucura eu não sei se será tratada com o mesmo cuidado. Especialmente porque o site oficial fala que Resident Evil: Code Veronica é “conhecido tanto por seus irmãos protagonistas, Claire e Chris Redfield, quanto por sua história onde o amor, o ódio e a loucura dos personagens se entrelaçam”, ou seja, a ideia de loucura continua presente, possivelmente se referindo, em parte, ao transtorno de identidade.
E Alexia?
O meu receio em relação a humanizar Alfred é que ao mesmo tempo podem trazer uma Alexia no extremo oposto, parecida com a de Darkside Chronicles, que foi capaz de matar seu irmão. Para mim, o que torna a Alexia original tão interessante é que, mesmo que fundamentalmente autocrática e maldosa, ela ainda parece ter um mínimo de afeto por Alfred. Ela fez questão de buscar vingança pelo gêmeo e o velou após sua morte. Eu gostaria muito que isso se mantivesse.
O que é bacana da versão de Darkside e que acredito que retornará é a mentalidade e voz infantil que Alexia tem mesmo depois de adulta. Seu corpo envelheceu quinze anos, mas não sua mente, e isso faz todo sentido para uma pessoa que entrou em sono criogênico aos 12 anos de idade. Aquela menina mimada que foi sempre tratada para ser uma rainha e que levou a cabo experimentos para se tornar dona do mundo de fato continua ali, imatura e inconsequente.
Considerações finais
Eu aguardo ansiosamente para ver os irmãos Ashford em Resident Evil: Veronica. Eles são meus vilões favoritos da franquia e a história deles, apesar de seus problemas, é muito complexa e interessante. Code Veronica foi feito em uma época em que muitas questões sociais não eram discutidas, mas o remake traz a oportunidade de tratá-las com mais cuidado, especialmente a apresentação de Alfred Ashford. E quem sabe isso pode até torná-lo um personagem ainda mais memorável.
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Sugestões de leitura:
- Jornal da USP. Transtorno dissociativo de identidade é raro e acomete 1,5% da população 27 set. 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/transtorno-dissociativo-de-identidade-e-raro-e-acomete-15-da-populacao/ Acesso: 21 jul. 2026.
- O que é o transtorno dissociativo de identidade (TDI)?. Portal Drauzio Varella. 25 out. 2023. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/o-que-e-o-transtorno-dissociativo-de-identidade-tdi/ Acesso: 21 jul. 2026.
Ótimo texto, como sempre. Fico pensando em quais alterações serão realizadas em REV para retrabalhar pontos do enredo original que não envelheceram bem. Acredito nesse caminho da humanização do Alfred também, com maior contexto e cuidado ao retratar suas ações e personalidade. Os remakes sabem trabalhar essas questões até OK, se formos ver.
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