Como Resident Evil: Veronica vai tratar Alfred Ashford? (Teoria)

O tão esperado remake de Resident Evil: Code Veronica foi anunciado e há muitos elementos do jogo que estamos curiosos para ver. Há muitas teorias sobre como a história será adaptada, a gameplay refinada e os personagens aprofundados. E um personagem em especial recebe muita atenção nesse sentido: Alfred Ashford. Como Resident Evil: Veronica (RE:V) vai tratar o controverso vilão? Esse é o assunto deste texto.

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As diversas referências de Resident Evil ao nazismo

Este texto foi publicado originalmente no EvilHazard. Esta versão foi revisada em relação à original, mas seu conteúdo não foi alterado.

Logo após o lançamento de Resident Evil Village, surgiu uma polêmica no Twitter a respeito de uma placa de identificação militar (chamadas de dog tags em inglês) que Karl Heisenberg trazia pendurada no pescoço. Algumas pessoas apontaram as semelhanças (gritantes) com placas utilizadas por soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, e isso levou à especulação de uma possível afiliação de Heisenberg com o nazismo. A Capcom eventualmente negou, e acabou ficando por isso mesmo.

Karl Heisenberg de Resident Evil Village. Ele tem um martelo gigante, usa chapéu e casaco comprido. Seuscabelos são grisalhos e batem no ombro. Sua cara é antipática.

No entanto, convenhamos que mesmo não sendo abertamente nazista, as criaturas que Heisenberg criava em sua fábrica passavam por processos não muito diferentes aos que os nazistas praticavam em seus campos de concentração, não é mesmo? É bem conhecido o nome de Josef Mengele, o mais famoso entre os médicos nazistas que realizavam experimentos horríveis com prisioneiros em Auschwitz e em outros campos. Jogar tinta nos olhos de pessoas de olhos escuros, jogá-las em tanques de água fria, infectá-las com micro-organismos e esterilização forçada com substâncias tóxicas são apenas alguns bárbaros exemplos.

E sabemos muito bem que Heisenberg está longe de ser o único. Muito pelo contrário: era característico da Umbrella realizar experimentos absurdos em seres humanos e o objetivo pelo qual a empresa foi fundada estava ligado à criação de seres humanos superiores, aspiração de Ozwell E. Spencer.

Eugenia

O desejo de Ozwell Spencer era a aceleração da evolução humana por meio dos vírus, a via que ele considerou mais adequada para alcançar seu objetivo. No entanto, ele não pensava em evolução humana em um sentido de melhorar toda a humanidade — para ele, os próprios vírus já fariam um trabalho de “seleção natural”, no qual os mais fracos pereceriam e os mais fortes sobreviveriam. Outro critério era a inteligência, algo que ele considerava nato, ignorando que a inteligência de qualquer um pode ser desenvolvida.

Essas são características tipicamente ligadas à eugenia, um movimento nascido no século 19 que tinha como objetivo melhorar a qualidade “genética” (o termo e o conceito não existiam na época) de uma população por meio da perpetuação de características consideradas melhores e da exclusão daquelas consideradas piores. Na prática, ela contribuiu para justificar “cientificamente” o racismo e a segregação social, pois considerava-se que pessoas não brancas eram inferiores e que a pobreza era resultado de características hereditárias imutáveis.

Ozwell Spencer em Resident Evil 5. Ele é um homem muito idoso cheio de eletrodos em uma cadeira de rodas e uma expressão arrogante.

A eugenia justificou a barbárie perpetrada pelos europeus em suas colônias na África e na Ásia. São notórias as atrocidades perpetradas pela monarquia belga no Congo e pelo Estado alemão na Namíbia, e não é coincidência o modo como a Umbrella tratou o povo de Kijuju e os Ndipaya quando Spencer encontrou as flores que geravam o Vírus Progenitor.

Posteriormente, a eugenia também foi um forte pilar da ideologia nazista, justificando as atrocidades do holocausto.

Humanidade Decadente

Spencer acreditava que a humanidade estava se degenerando.  Não somos apresentados a o que exatamente ele considerava decadente, apenas que em sua visão a forma atual da humanidade está condenada a se autodestruir.

Muitos de nós também pensamos que os seres humanos estão se autodestruindo, mas buscamos resolver isso por meio de políticas de proteção do meio ambiente e de uma educação para a emancipação, por exemplo. Spencer, por sua vez, decidiu seguir ideias mais parecidas com as do nazismo: promovendo aqueles que ele considerava superiores e que os “mais fortes” sobrevivessem. Albert Wesker pensava da mesma maneira e procedeu de maneira muito semelhante.

Spencer em Resident Evil 5 falando que tem o direito de ser um deus, porque ele é um velho nazista nojento e arrogante.

No novo mundo de Spencer, ele seria o comandante supremo da humanidade, o Deus, o Führer (Líder). Como pai dessa nova humanidade, ele se considerava digno de uma característica muito forte do fascismo (e consequentemente do nazismo), que é o culto ao líder.

Campos de concentração

A Ilha Rockfort, um dos cenários de Resident Evil: Code Veronica, é um complexo de treinamento dos grupos paramilitares da Umbrella e também um campo de concentração para os desafetos e traidores da empresa.

O uso do termo não é leviano; de fato, Rockfort foi baseada em um campo de concentração e há inúmeras referências a isso. O local não é simplesmente uma prisão; é um espaço para torturar e controlar inimigos com condições absolutamente insalubres e cruéis. Além das celas a céu aberto e espaços de execução e tortura que encontramos nos primeiros minutos de jogo, temos também aquela “casa” onde moravam os prisioneiros que se assemelha profundamente aos barracões dos campos de concentração nazistas.

Não podemos esquecer que os prisioneiros eram também cobaias dos experimentos. Na “enfermaria”, lemos a nota do anatomista que conta que aprecia ver outras pessoas agonizarem e morrerem, e que Alfred fornecia a ele todos os equipamentos para ele realizar experimentos. Também há um crematório, tal como nos campos nazistas. A ilha possuía ainda um laboratório e diversas BOWs que eram usadas no campo de treinamento, e é bastante claro que os prisioneiros eram envolvidos involuntariamente nisso.

Uma família de nazistas

Uma informação que muitas vezes pode surpreender os fãs de Resident Evil é que a família Ashford, em um conceito inicial, deveria ter origem alemã e ser vinculada ao nazismo. Eles se chamariam Krüger – Alexia seria Hilda, Alfred seria Hilbert e haveria um outro membro da família, o avô deles, que teria se tornado Edward Ashford, um médico nazista. Essas informações são obtidas por meio das artes conceituais de Code Veronica, que podem ser vistas aqui.

Alguns desses elementos se mantiveram no jogo, como a águia fazendo parte do brasão da família Ashford. Talvez, em outras circunstâncias, a ave poderia ser uma referência a qualquer outra coisa, até mesmo a símbolos alemães mais antigos, mas como sabemos dos conceitos iniciais nazistas da família, não há dúvidas de que o brasão é sim uma referência ao nazismo.

Embora esses conceitos tenham sido transformados no produto final, a crueldade e os métodos doentios dos Ashford permaneceram nos personagens.

Aristocracia

Mas não é porque os Ashford se tornaram uma aristocracia inglesa e não alemã que eles não poderiam ser simpatizantes do nazismo. Na verdade, as ideias de antissemitismo, xenofobia e racismo enfatizadas pelos nazistas eram bastante difundidas na Europa como um todo quando da ascensão do partido, e há inclusive a hipótese de que, mais do que um ódio pessoal de Hitler contra os judeus, foi esse clima de ódio já pré-existente que levou os nazistas a incorporarem o antissemitismo em sua ideologia para angariar o apoio das massas. É possível ouvir um pouco mais sobre isso neste episódio do podcast História FM.

O Rei Eduardo VIII da Inglaterra (tio da Rainha Elizabeth) e sua esposa americana Wallis Simpson chegaram a tirar fotos com Adolf Hitler e, embora não se tenha certeza se ele simpatizava de fato com as ideias, sua visita oficial na Alemanha nazista pareceu bastante amistosa. Também é de se mencionar que a irmã mais velha do recentemente falecido Rei Philip (marido da rainha Elizabeth II), a Princesa Cecilie da Grécia e da Dinamarca, era filiada ao partido Nazista.

A ideia de pureza de linhagem é algo bem forte na aristocracia europeia. Se até determinado momento os casamentos entre nobres eram uma questão de alianças políticas, a partir mais ou menos do século 18 começou-se a valorizar a pureza de sangue.

Não é à toa que Spencer, Ashford e Marcus pensavam de maneira semelhante: eles eram fruto desse ambiente de ideias de superioridade. O que eles fizeram foi nada mais que colocar esses pensamentos em prática.

Seres humanos superiores

Se já falamos dos Ashford, podemos agora falar de como o fundador de tudo isso, Ozwell Spencer, levou a cabo suas ideias. O Projeto W, das Crianças Wesker, é a execução plena de seu plano de eugenia.

Spencer selecionou crianças “de todas as nacionalidades” (será mesmo?) com inteligência acima da média. “Selecionar” não é um termo aleatório, pois o aristocrata pensava em termos de seleção natural e de sobrevivência do mais forte, bem ao estilo do pensamento eugenista do século 19.

O meio para alcançar a superioridade seria a compatibilidade com o vírus Progenitor, e a maioria das crianças morreu, sobrevivendo apenas Albert e Alex. Segundo o file Albert Wesker de Resident Evil 5, essa seleção se mostrou seletiva demais, e com isso podemos perceber o quanto esse tipo de pensamento é contrário aos mais fracos fisicamente – como se eles não merecessem dignidade tanto quanto os mais fortes. É ainda notável que Albert e Alex são loiros e caucasianos. Isso provavelmente é proposital para tornar mais clara essa referência da eugenia como fundamentadora das ideias de Spencer.

Albert Wesker em Resident Evil 5 e Alex Wesker em Resident Evil Revelations 2. Ambos são brancos e loiros e arrogantes. O Albert veste uma roupa preta semelhante a um uniforme nazista e a Alex veste um terno branco elegante.

Não poderíamos deixar de mencionar, também, que a própria aparência de Albert Wesker em Resident Evil 5 pode ser uma alusão aos nazistas. A postura militar com um sobretudo preto tem lá suas semelhanças com um dos uniformes nazistas, e o discurso também é muito semelhante, já que Wesker deu continuidade às ideias de criar uma nova humanidade.

Conclusões

Até hoje pergunta-se muito: como os alemães aceitaram e apoiaram Hitler? Muito do poder dos nazistas veio da coação, mas não podemos ignorar que uma parcela muito significativa da sociedade europeia já carregava ideias das quais o fascismo e o nazismo eram fruto, de certa forma, e das quais essas duas ideologias souberam aproveitar-se para alcançar seus objetivos. Isso vai muito além da eugenia e do racismo, mas não cabe abordar aqui. Uma leitura muito recomendada para se aprofundar nisso é o livro Anatomia do Fascismo, do historiador americano Robert Paxton.

Resident Evil trouxe vilões que não se declaravam como nazistas, mas que tinham ideias claramente muito semelhantes. E, ainda, colocou essas ideias em pessoas originárias de países Aliados, inimigos do Eixo, ou seja, aristocratas ingleses e cientistas norte-americanos. Isso contribui para lembrarmos que as ideias que compõem o nazismo não vieram só da Alemanha e da Itália, mas que eram ideias que circulavam na Europa e também em outros lugares do mundo. E que, mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, elas não deixaram de existir.

Como o próprio Spencer escreveu em sua carta a Mãe Miranda, após duas guerras mundiais, suas convicções não se abateram. Não seria de se duvidar que, muito pelo contrário, elas tivessem apenas se fortalecido com o exemplo nazista. Sendo uma pessoa de grande poder, ele conseguiu colocar suas ideias em prática, criando seu próprio projeto horrendo de mundo e deixando um legado de terror para a humanidade.


Algumas referências que uso com frequência além das hiperlinkadas no texto:

Central Smok – O lugar do holocausto na história e outras reflexões sobre nazismo, genocídio, colonialismo e perda de significados, In https://centralsmok.wordpress.com/2020/02/09/o-lugar-do-holocausto-na-historia-e-outras-reflexoes-sobre-nazismo-genocidio-progresso-e-perda-de-significados/

Umberto Eco: O Fascismo Eterno https://historiafm.com/2018/10/24/o-fascismo-eterno/ Acesso em 27 de janeiro de 2020.

Podcast História FM: Holocausto: 75 anos depois de seu fim https://historiafm.com/2020/01/27/holocausto-75-anos-depois-de-seu-fim/ Acesso em 07 de fevereiro de 2020.

Livresca: Continente Sombrio, de Mark Mazower https://centralsmok.wordpress.com/2018/01/06/leituras-e-fervuras-continente-sombrio-de-mark-mazower/

Belgium’s Heart of Darkness https://www.historytoday.com/archive/contrarian/belgiums-heart-darkness Acesso em 27 de janeiro de 2020.

How Britain’s high society fell in love with the nazis https://www.thedailybeast.com/how-british-high-society-fell-in-love-with-the-nazis Acesso em 27 de janeiro de 2020.

MAZOWER, Mark. Continente Sombrio: A Europa no século XX . São Paulo: Companhia das Letras, 2001

ARENDT, Hannah. “O pensamento racial antes do racismo” e “Raça e burocracia” In Origens do Totalitarismo . São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

MAGALHÃES, Marion Brepohl de. “Homens e mulheres falando em genocídio: a experiência imperialista alemã (1884-1945)” In História: Questões e Debates. Curitiba: Editora UFPR, jan./jun. 2010, n. 52,  p. 149-171.