Lá pelas tantas da campanha do Leon em Resident Evil 6, Derek Simmons se justifica sobre sua motivação para assassinar o Presidente Adam Benford. Segundo ele, se a verdade sobre Raccoon City tivesse sido revelada, os Estados Unidos teriam perdido sua autoridade e a ordem política global teria colapsado. Essa ordem global é, para ele, a posição de liderança dos Estados Unidos diante do resto do mundo, algo que Resident Evil tirou diretamente da nossa realidade.
Vamos conversar, então, sobre a constituição dessa ordem global e como ela se relaciona com o resto da franquia?
O interesse de Simmons na manutenção da ordem global tem relação, naturalmente, com o poder que ele próprio possui nessa conjuntura. Ele grita: “Ele [Benford] estava levando o meu país e este mundo ao completo caos!”, numa referência aos EUA não somente como seu país de origem, mas também ao país que ele domina. Como Ada já havia falado nas catacumbas: “Estamos falando das pessoas que realmente governam este país, em um jogo muito perigoso”.

Grupos de interesse
A ideia de uma organização como “A Família” liderada por Derek Simmons manipulando o desenvolvimento do mundo dá um ar Illuminati ao poder dos Estados Unidos. Mas para pensarmos a organização historicamente, podemos fazer uma leitura dela para além de uma sociedade secreta e sim como uma união de vários grupos de interesses bastante poderosos.
Esses grupos podem ser pessoas com muito dinheiro e influência, grandes fazendeiros exportadores, organizações religiosas e especialmente grandes conglomerados empresariais, como a Umbrella.
No caso d’A Família, o que vemos é um lobby gigantesco. Simmons não está na organização porque é um membro do alto escalão do governo; ele está no governo porque é o líder d’A Família e está ali para representar os interesses de todos os seus membros, entre os quais provavelmente há empresários multimilionários, herdeiros de famílias aristocráticas dos tempos das 13 Colônias e pessoas da indústria de armamentos (já explicarei o porquê deste último).
E os maiores exemplos dessa defesa de grupos de interesse por parte de Simmons estão justamente no assassinato de Adam Benford e na decisão de lançar o míssil que apagou as provas do envolvimento da Umbrella com o incidente em Raccoon City.

As armas e a hegemonia dos Estados Unidos
Volto a dizer: embora haja um ar Illuminati no poder dos Estados Unidos por causa da atuação d’A Família, há razões históricas bem concretas para que o país tenha se tornado o mais forte do planeta e elas são bem mais recentes que a atuação da sociedade secreta no universo de Resident Evil.
A ascensão definitiva dos Estados Unidos remonta, principalmente, à Segunda Guerra Mundial. Os EUA saíram vitoriosos do conflito e com poucas perdas materiais e comparativamente poucas perdas humanas em relação aos países europeus dos dois lados do conflito.
Parte importante desse processo foram as alianças entre os militares e os industriais que passaram a se dedicar à indústria de armas, pois ao fim do conflito estes grupos perceberam que manter esta relação no pós-guerra era muito vantajoso tanto em termos econômicos quanto em termos de força política. Um país bem armado impõe autoridade e medo a outras nações que possam tentar contrariar seus interesses ou competir pela hegemonia do mundo, tornando o Complexo Industrial-Militar o grupo de interesse mais influente dentro do Estado.
Mas, para manter uma indústria bélica funcionando, seria necessário justificar sua existência, e por isso construiu-se a ideia de que há uma ameaça constante à segurança nacional dos Estados Unidos, logo, o país precisava estar sempre preparado. Sempre há, portanto, um inimigo em vista: a URSS e seus aliados durante a Guerra Fria ou os países do Oriente Médio após o 11 de setembro.
Por isso, a indústria armamentista estadunidense também se faz frequentemente presente em guerras em diversos lugares do mundo, seja participando diretamente com tropas ou vendendo arsenais inclusive a aliados bem questionáveis como a Arábia Saudita. Em Resident Evil, podemos lembrar da breve (porém definitiva) participação do governo americano na Guerra de Independência da República Eslava do Leste, no filme Damnation.
Graças a essa rigorosa organização em torno do Complexo Industrial-Militar, os Estados Unidos são os maiores exportadores de armas do mundo e muito se questiona sobre os princípios éticos da atuação dessa indústria.

A charge representa uma visão crítica do Complexo Industrial-Militar como um consumidor irrefreável de dinheiro em detrimento de outros possíveis investimentos na sociedade. Os animais na parte inferior representam a administração pública se desdobrando para reduzir investimentos e gastos em outras áreas para alimentar a indústria armamentista, revertendo os impostos pagos pelos cidadãos norte-americanos em lucros para esse grupo. [Fonte de Imagem, Acesso em 19 de junho de 2021]
Não à toa que no universo de RE a Umbrella produzia armas biológicas para serem usadas e guerras. Era essa ideia de contínuas ameaças que levou o Presidente a continuar comprando bioarmas da Umbrella mesmo após o Tratado de Armas Biológicas de 1972 (que é um acordo real sobre o qual um dia podemos discutir aqui). Tyrants, hunters e posteriormente criaturas como Eveline eram soldados criados justamente paro campo de batalha, levando a ideia de indústria armamentista a outro nível.
No entanto, como vimos de RE5 em diante, assim como na vida real, essas armas biológicas, que já eram absurdas por si só sob o controle “restrito” dos Estados Unidos, caíram nas mãos de outros governos e também de grupos terroristas, trazendo grandes perigos para o mundo.

Embora o ataque a Terragrigia tenha sido causado por uma organização terrorista e não pelo governo, o uso dos hunters que é feito nele dá um bom exemplo da ação deles como soldados.
Seria de se pensar, portanto, que para seguir com seus planos de manipular a política a nível mundial – e isso inclui as guerras – Simmons e A Família necessariamente precisariam ter envolvimento com a indústria das armas, e a Umbrella nada mais era que uma de suas fornecedoras. Isso poderia fazer de Simmons um dos vilões mais interessantes de Resident Evil, sendo o responsável por inúmeros incidentes que os protagonistas teriam de enfrentar. Porém, seu potencial foi completamente desperdiçado e ele ficou na memória dos fãs como um dos vilões mais chatos.
Os próximos passos
Este é, obviamente, um assunto que estamos longe de esgotar aqui. Afinal, em Resident Evil, o que não faltam são tretas com o governo dos Estados Unidos! Então esperem ver outros textos como este por aqui, ainda mais com Infinite Darkness vindo aí.
No trailer da nova série, que estreia no dia 8 de julho, o tal Wilson fala sobre os Estados Unidos demonstrarem sua capacidade de liderarem o “mundo livre”, expressão cunhada na Segunda Guerra Mundial para designar os Aliados contra o Eixo. Os Estados Unidos continuaram usando-a para se autodesignar como defensores da liberdade contra a União Soviética e depois na chamada “Guerra ao Terror”.
Entretanto, como pudemos discutir, há uma profunda contradição nesse discurso de mundo livre tanto em Resident Evil quanto na realidade. A série provavelmente vai nos mostrar mais dessa faceta sombria do Estado americano e para quem é fã dos enredos conspiratórios, No Escuro Absoluto deve ser um prato cheio.
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Referências:
- FOUSEK, John. “Defining “Free World Leadership” In To lead the free world: American nationalism and the cultural roots of the Cold War. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2000.
- MOREIRA JUNIOR, Hermes. O Governo George W. Bush e sua Guerra Contra o Terror: A nova orientação tática à estratégia norte-americana. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais, Linha de Relações Internacionais, Universidade Estadual Paulista, Marília, 2011.
- SIMÕES, Edson Emanoel; PERILLO, Eduardo B. F.; MIGUEL, Jair Diniz Miguel. “Indústria e militarismo”. In COGGIOLA, Osvaldo (Org.). Dinâmica da Economia Mundial Contemporânea. São Paulo: Stortecci, 2003.
Tinha feito um comentário aqui, mas aparentemente ele sumiu o.o
Vou comentar de novo. Se for duplicado, depois apague um, haha.
Então, como sempre ótimo post!
Esse plot da “Família” me lembra os “Patriotas” de Metal Gear Solid, que é uma abordagem bem bacana sobre os bastidores do governo dos EUA, também. E você disse tudo: o Simmons poderia ter sido muito bem aproveitado a partir dessa ótima motivação de fundo, mas isso não foi executado decentemente e nem o tornou marcante – como tudo no RE6, aliás, hauahauhaua!
Só eu sinto uma vibe meio latifundiário confederado sulista nesse personagem? Creio que isso seja reforçado pelas roupas que ele usa.
Abraços.
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Eu conheço pouco de MGS, mas você não é a primeira pessoa que eu vejo falando sobre isso, então penso que em breve darei uma olhada!
E sobre o Simmons ter uma vibe de latifundiário confederado sulista: SIM! Vejo ele totalmente dessa forma também. Ou seja, uma pessoa péssima haha
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Excelente postagem!
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Muito obrigada! 🙂
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Olá! Muito bom o texto!
Eu acredito que valeria também mencionar o fato de que “A Família” se baseia numa “sociedade secreta” estadunidense de lobbystas riquíssimos que existe na própria vida real e também se auto-titula dessa forma, tem um documentário sobre na Netflix: https://www.netflix.com/br/Title/80063867 / https://en.m.wikipedia.org/wiki/The_Fellowship_(Christian_organization) e um artigo sobre no fascículo 1 da Jacobin brasileira!
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Muito obrigada! Não sabia dessa sociedade aí não! Darei uma olhada!
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