10 anos depois, o potencial desperdiçado de Resident Evil 6

No dia 02 de outubro de 2022, Resident Evil 6 completou 10 anos. Defendido por alguns e desprezado por vários, o jogo até hoje representa, para a maior parte da comunidade de fãs, o maior buraco pelo qual Resident Evil (e a Capcom) já passou. Foi depois da enorme decepção que a Capcom decidiu, então, sentar e refletir de fato sobre onde estavam errando, levando ao processo de criação de Resident Evil 7, considerado pela maior parte dos fãs como um retorno à origens de Resident Evil. Todo esse histórico é explanado no excelente documentário Como Resident Evil 7 salvou a franquia do Blader Koyotte.

Uma década depois, com tantas discussões sobre qual seria a “essência” da franquia e que tipo de narrativa gostaríamos de ter visto nesse jogo que tanto prometia, a pergunta que fica é: em que Resident Evil 6 poderia ter sido diferente? Que ideias eram boas, mas foram mal aproveitadas? É sobre isso que vamos falar neste décimo aniversário deste jogo que, até hoje, nos traz lembranças tão mistas.

O contexto da crise

Em 2012, o grande desafio era agradar a todos os públicos de Resident Evil após um período de jogos com menos terror e mais ação. Resident Evil 4 e 5 eram um sucesso de vendas estratosférico e até agradavam a velha guarda dos fãs da franquia, mas o pedido pelo retorno do terror era uma constante.

Por isso, a proposta de Resident Evil 6 seria fazer um jogo que equilibrasse terror e ação e também seguisse com a cronologia da série de modo a satisfazer tanto os fãs dos clássicos quanto aqueles que haviam começado pelos jogos mais pancadaria. A Capcom apostou todas as suas fichas nisso, e o título teve o maior orçamento e uma das campanhas de marketing mais extensas da história da empresa até então.

Quem estava lá se lembra: o hype foi avassalador. Certamente o maior hype de todos os tempos de Resident Evil na internet (até porque, depois disso, os fãs passaram a ser bastante cautelosos com o hype). O primeiro trailer mostrava conceitos incríveis como o presidente dos Estados Unidos zumbi e o primeiro encontro dos heróis Chris Redfield e Leon S. Kennedy diante dos nossos olhos.

Entretanto, a recepção não foi aquilo que os criadores esperavam – muito menos o que os fãs estavam procurando.

Adam Benford, presidente fictício dos Estados Unidos em Resident Evil 6, em sua forma zumbi.

Resident Evil 6 se mostrou mais um jogo de ação desenfreada com momentos de terror escassos e muitas vezes forçados, com o “bônus” de ainda ser longuíssimo (até hoje ele é o RE mais longo, com cerca de 20 horas de campanha). E, como se a jogabilidade não bastasse, a história se perdeu tanto na megalomania de Carla Radames e na obsessão de Derek Simmons por Ada Wong que pontos que mereciam muito mais destaque acabaram ficando em segundo plano.

Plots incríveis, porém desperdiçados

Assassinaram o Presidente dos Estados Unidos. Isso por si só dava um game inteiro: Adam Benford estava planejando revelar ao mundo a verdade sobre Raccoon City, a epidemia, o envolvimento do governo dos Estados Unidos, o desenvolvimento de armas biológicas para fins militares. E quem não queria ser desmascarado conspirou para tirá-lo de cena. Teria sido interessante jogarmos partes anteriores à contaminação na Universidade de Tall Oaks e momentos em que Leon e Benford conversavam na Casa Branca, contando mais sobre a relação deles, o plano de Benford e a formação da conspiração para o jogador.

Investigar quem havia planejado o assassinato de Benford poderia ser levado ao longo de todo o jogo, levando à descoberta de um novo vilão com potencial de longo prazo: Derek Simmons.

Derek Simmons de Resident Evil 6. Ele é um homem de pele muito clara e cabelos e barba ruiva com cara de fazendeiro confederado dos Estados Unidos.

Simmons deveria ter sido o principal vilão de Resident Evil 6. Ele era um personagem envolvido com as raízes do perigo biológico no universo de Resident Evil – a produção de BOWs, a destruição de Raccoon City, todas as formas de encobrir isso – e isso dava a ele um peso adequado para se tornar um vilão recorrente na franquia e um possível substituto para Albert Wesker em termos de estar por trás dos principais eventos do bioterrorismo.

Seria muito interessante, por exemplo, ver as tentativas de Simmons de desmoralizar ou desarticular a BSAA, sendo o responsável por infiltrar a Umbrella Azul na organização.

Eu não veria problemas em manter a paixão de Simmons pela Ada. Seria interessante ver ele misturar as coisas, perseguindo Leon tanto por conta da luta do agente contra o bioterrorismo quanto pelo lado pessoal da relação dos dois homens com Ada. Ninguém precisa de Carla Radames para criar esse drama.

Simmons: Fique longe dela, Leon! Você não é metade do homem que ela precisa!

E também não precisaríamos de Carla Radames para o enrendo de Chris Redfield. Afinal, ela não foi a única que fez com que Chris perdesse suas equipes. De resto, a premissa poderia ter sido a mesma: ele tentando recuperar sua confiança, sua memória e se lembrar de quem é. A campanha de Chris é a favorita da comunidade, até por ser a mais coerente. Quem sabe esse processo poderia ser menos frenético, já que é uma ideia perigosa levar um homem sem memória para liderar uma missão militar. Além disso, a meu ver, é uma falha inadmissível que a história da recuperação de Chris tenha sido escrita sem a presença das duas pessoas mais próximas que ele tem na vida, sua parceira Jill Valentine e sua irmã Claire Redfield. Isso sim seria uma “Raccoon City reunion”.

Ideias fora da casinha

Um dos grandes problemas de RE6 é focar nas coisas erradas. Acabamos de falar de diversas ideias incríveis que foram mal aproveitadas em prol de ideias mirabolantes. A principal delas, que conecta as quatro campanhas, é Carla Radames.

Todo fã dos jogos de Resident Evil sabe que a ideia de clones na franquia não é nem um pouco bem-vista pela comunidade. Mesmo quem gosta dos filmes de Paul W. Anderson se cansou desse conceito reutilizado tantas vezes, e mesmo assim a Capcom insistiu no erro, combinando-o a uma megalomania clichê e superficial de vilão que quer destruir o mundo sem motivo aparente ou por pura vingança pessoal.

Carla Radames dizendo a Jake Miller que “Albert Wesker foi um tolo que tentou destruir o mundo” 10 minutos antes de fazer exatamente a mesma coisa

E falando em megalomania, esse jogo está repleto dela: é vilã querendo destruir o mundo, é terrorismo global descontrolado, é uma única pessoa que pode salvar a todos (Jake Miller, um personagem que muitos fãs desgostam e acham dispensável). Sabemos que em parte isso é proposital, já que RE6 é muito baseado em blockbusters americanos cheios de explosões, heróis e resoluções de último segundo, mas esse formato não funciona para Resident Evil. RE sempre teve enredos mais, por assim dizer, maduros – uso político da indústria de armas; pequenos acidentes que revelam grandes redes de corrupção envolvendo políticos, delegados de polícia e empresas; as consequências de armas biológicas caírem nas mãos de terroristas – e, em alguma medida, mais “realistas”, pois dialogam com situações da nossa própria realidade, como sempre faço questão de mostrar aqui no blog.

Essa megalomania infelizmente não saiu totalmente de Resident Evil, entretanto. A centralidade e o plot ultrapessoal de Mãe Miranda em Village (que nada tem a ver com o restante da história da franquia e o pouco que tem é forçado e irrelevante), os poderes quase místicos de Miranda e os de Rose à la Alice, a mania de monstros gigantes (como o Nemesis meleca de RE3 Remake), tudo isso continua aparecendo nos jogos e ainda não demos conta de convencer a Capcom de que não gostamos disso em Resident Evil.

Considerações finais

Apesar de tudo, Resident Evil 6 tem sem seus méritos, provenientes de seus acertos e também de seus erros. As quatro campanhas do jogo são muito bem conectadas e trazem bons personagens, como o próprio Simmons até certo ponto (ah, se não tivesse a Carla Radames…); Sherry, cujo destino após Raccoon City finalmente descobrimos; Helena, que tem um grande potencial para ser parceira de Leon; e claro, o queridinho Piers, que conquistou o coração e as lágrimas dos fãs. A campanha de Ada também é muito boa com a busca da espiã por descobrir quem é a mulher que roubou sua identidade e tem um final brilhante. Além disso, o arco de Chris a respeito de perder sua equipe leva em conta seu passado e enriquece muito o desenvolvimento do nosso querido Capitão.

O Ustanak foi um inimigo bastante bacana que RE6 trouxe

No fim, o pecado de Resident Evil 6 foi ser ambicioso demais. Tentando agradar a todos os públicos, acabou não agradando quase ninguém. O jogo nasceu de ideias muito interessantes e de muito potencial, mas que foram secundarizadas para priorizar outras bastante exageradas, gerando uma enorme bagunça que até hoje não foi resolvida. Por outro lado, foi graças a isso que a Capcom se obrigou a repensar Resident Evil, buscando entender melhor o que os fãs queriam e levando à criação do excelente jogo de survival horror que é Resident Evil 7.

A hegemonia dos Estados Unidos e a ordem global que Derek Simmons queria preservar

Lá pelas tantas da campanha do Leon em Resident Evil 6, Derek Simmons se justifica sobre sua motivação para assassinar o Presidente Adam Benford. Segundo ele, se a verdade sobre Raccoon City tivesse sido revelada, os Estados Unidos teriam perdido sua autoridade e a ordem política global teria colapsado. Essa ordem global é, para ele, a posição de liderança dos Estados Unidos diante do resto do mundo, algo que Resident Evil tirou diretamente da nossa realidade.

Vamos conversar, então, sobre a constituição dessa ordem global e como ela se relaciona com o resto da franquia?

O interesse de Simmons na manutenção da ordem global tem relação, naturalmente, com o poder que ele próprio possui nessa conjuntura. Ele grita: “Ele [Benford] estava levando o meu país e este mundo ao completo caos!”, numa referência aos EUA não somente como seu país de origem, mas também ao país que ele domina. Como Ada já havia falado nas catacumbas: “Estamos falando das pessoas que realmente governam este país, em um jogo muito perigoso”.

Derek Simmons em Resident Evil 7 muito bravo segurando um dispositivo quebrado enquanto exige sinais de infecção por vírus.
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