A poucos dias do lançamento de Resident Evil: Infinite Darkness, está rolando uma polêmica de que a Netflix pediu para que as pessoas que publicassem resenhas da série “não falassem sobre política” nelas. Esse não é o tipo de assunto que eu esperava abordar tão cedo por aqui, mas me sinto na obrigação de falar sobre ele porque nós, historiadores, ouvimos esta frase noite e dia e é extremamente cansativo.
Vamos ser simples: como não falar de política quando Infinite Darkness faz claras alusões a acontecimentos reais da nossa contemporaneidade, e acontecimentos tão sérios como guerras e decisões políticas? E mais: a Netflix achou mesmo que, ao aceitar publicar um material desses, não estaria sujeita a comentários políticos?
Até agora, a Capcom não quis se manifestar a respeito do assunto. Penso que para não se indispor com a Netflix, mas tenho minhas razões para acreditar que não foi por medo. Afinal, não é a primeira vez que Resident Evil trata de assuntos delicados. Na verdade, desde os primórdios a franquia é sobre operações ilegais e antiéticas de uma empresa multinacional envolvida com governos, incluindo… o dos Estados Unidos.
A Umbrella produzia armas para o governo dos Estados Unidos usarem em guerras. E, na vida real, os EUA são o maior produtor e exportador de armamentos do planeta inteiro, assim também como o país com maior poderio militar. Eu já escrevi um texto inteirinho sobre isso no blog.

Os restos da batalha entre o exército americano e os T-103 da Umbrella na disputa a respeito do G-vírus. Resident Evil 3: Nemesis, 1999.
E agora vamos lembrar de uma coisa BEM importante: Resident Evil foi criado por japoneses. E os Estados Unidos… jogaram DUAS BOMBAS ATÔMICAS no Japão no final da Segunda Guerra Mundial. É verdade que os japoneses estavam ao lado dos nazistas; no entanto, os bombardeios geraram as mortes de dezenas de milhares de pessoas instantaneamente, cuja maioria era de civis, e havia inclusive prisioneiros de guerra. Pensem só no impacto da destruição de Raccoon City. Isso ainda é muito forte e muito traumatizante na memória da população japonesa, mesmo quando se tem uma postura crítica à conduta do Japão na guerra.
Entendem aonde eu quero chegar? O Japão pode até ter uma amizade com os EUA hoje, mas os japoneses não se esqueceram do potencial destrutivo que o poder bélico estadunidense possui. Isso que eu sequer mencionei ainda que RE foi criado poucos anos após o fim da Guerra Fria, em que o grande medo era a eclosão de uma guerra que destruísse o planeta. Isso pode ter tipo um papel importante na criação de Resident Evil.
Livros, quadrinhos, filmes e videogames são feitos por seres humanos que colocam nesses produtos culturais seus sentimentos, suas histórias de vida, seus valores e suas visões de mundo. E isso independe de ser intencional, porque não conseguimos nos desprender de nosso contexto histórico, social e cultural mesmo quando queremos ser imparciais.
Aqui mesmo no blog. Vocês certamente conseguem visualizar um pouco de política. Eu tento deixar isso da forma mais leve e informativa possível, porque isso aqui é minha terapia e não um blog de ativismo. Mas é impossível não mexer com questões sensíveis e muitas vezes polêmicas, porque elas são parte inerente da nossa história, da nossa sociedade e também da que existe no universo de Resident Evil.

Por isso eu sempre trago minhas referências bibliográficas. É uma questão de transparência, de mostrar de onde eu tirei as informações que eu pesquisei com muito cuidado para escrever os textos. Vale mais a transparência do que fingir uma neutralidade que não existe, até porque isso muito frequentemente é sinal de desonestidade. Quase sempre quem nos acusa como historiadores de sermos enviesados está escondendo seu próprio viés sob a máscara da imparcialidade, e é daí que vêm fake news e afins.
Assim, por mais que se insista que não, Resident Evil é um pouco político sim, ainda que de forma relativamente sutil. Não é exatamente uma obra que tem intenções de fazer grandes críticas sociais explícitas, mas ela carrega sim um tom crítico a certos fenômenos e figuras da nossa sociedade, e isso desde os seus primórdios. Vou deixar este link com ótimo um fio do Twitter em inglês a respeito do assunto e aqui no blog sempre haverá artigos históricos que inevitavelmente acabarão caindo nestes temas.
Portanto, a meu ver, a Netflix foi extremamente ingênua ao pensar que Infinite Darkness não geraria discussões políticas, porque Resident Evil sempre teve essa pegada.
Inclusive, é bem curioso que quando o Damnation estava disponível na plataforma, ele aparecia na categoria de filmes políticos. Por que um filme que tem falcatruas em um governo de matriz russa (porque a República Eslava do Leste me parece provavelmente um território que se separou da Rússia) pode ser político e o que tem falcatruas no governo dos Estados Unidos não?

De qualquer forma, é muito estranho o posicionamento da Netflix, já que ela tem uma infinidade de filmes, séries e documentários muito mais politizados do que Resident Evil: Infinite Darkness. Talvez seja por uma questão de nicho de um jogo popular nunca antes associado a política (só que sim) e possivelmente porque os filmes do Paul Anderson, que eram a mídia cinematográfica mais famosa de RE, não iam por esse caminho.
Mas se a Netflix aceitou a série, ela que arque com as consequências, porque para a Capcom deve ser só mais uma terça-feira.
Eu não acho que Resident Evil tem que ser uma plataforma direta de pautas políticas. Provavelmente nunca será. Porém, a gente jamais pode desconsiderar que ela é uma obra que tem sim seus paralelos com coisas muito sombrias da nossa realidade. E é justamente esse aspecto realista que a diferenciou de outros games de modo a tornar Resident Evil a grande referência do survival horror.
Se você quer ignorar os aspectos políticos e apenas se divertir, cabe a você. É válido e todo mundo faz isso para se desligar. A gente só não pode fingir que o mundo real não está cheio desses problemas, e que é nele que nós vivemos de verdade.
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Muito bom texto, e admirável o posicionamento.
Estive pensando que talvez essa postura de “não mencionar política” cobrada dos reviewrs se deva por um medo de as resenhas divulgarem que o Infinite Darkness “critica ou faz referência a político ou período X” e isso afaste possíveis espectadores que se identificam com esse viés (como republicanos ou a alt-right dos EUA). Isso não exime a atitude de ser ridícula, mas seria uma possível explicação a nível de marketing.
Curti muito a exposição sobre como RE sempre lidou com temas políticos, e como negar isso não faz sentido.
Enfim, ótima postagem.
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