Spencer e a preservação da memória para viver para sempre

Quando uma pessoa morre, suas lembranças, seu conhecimento, suas memórias, tudo se perde para sempre. E isso é verdade tanto para pessoas comuns com vidas comuns quanto para grandes cientistas ou filósofos. Ozwell E. Spencer acreditava que isso era uma lástima e que a partida de grandes mentes era uma perda para a humanidade. Porém, mais do que isso, ele mesmo se considerava uma dessas mentes, o que o levou a buscar uma maneira de contornar a morte e o desaparecimento de sua memória.

De todas as formas de memória que Resident Evil Requiem aborda, a memória “física” extrapolou as minhas expectativas, já que eu não imaginava sequer que Spencer teria um papel tão central na trama e muito menos que veríamos uma outra frente da pesquisa que ele confiou a Alex Wesker.

Mas há algo de mais profundo nessa preservação de memória. Spencer sabia que poderia não alcançar seus objetivos de vida eterna; por isso, ele garantiu que sua memória perante o mundo — seu legado — permanecesse viva, manipulando tudo e todos até o fim de sua vida.

O texto de hoje é sobre tudo isso e mais um pouco.

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Opinião: Resident Evil Requiem tem o coração no lugar certo

Já há um mês que Resident Evil Requiem foi lançado, mas devo dizer que precisei digerir muito bem tudo o que recebemos com esse jogo antes de falar sobre ele por aqui. Houve muitas surpresas, para o bem e para o mal, mas acima de tudo houve muito Resident Evil em sua essência. Assim, finalmente, depois de analisá-lo com muita calma, trago minhas impressões sobre REquiem, com foco em narrativa e lore.

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Resident Evil Requiem será uma história sobre memória

Resident Evil Requiem nos levará de volta a Raccoon City, uma cidade onde nós, jogadores, criamos muitas lembranças, e onde vários personagens viveram imensos traumas impossíveis de esquecer. O jogo também levará Grace Ashcroft a um lugar e a um momento de seu passado que ela não gostaria de revisitar, mas cujas lembranças ela não pode apagar.

Essa composição narrativa me diz uma coisa: o principal tema de Resident Evil Requiem será, sem sombra de dúvidas, a memória.

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Por que Alyssa Ashcroft foi escolhida para aparecer em Resident Evil Requiem?

Uma das maiores surpresas do trailer de Resident Evil Requiem foi a escolha de trazer Alyssa Ashcroft, uma personagem de Resident Evil Outbreak, para a série principal. Embora seja sua filha Grace e não a própria Alyssa que nos foi apresentada como protagonista, a proposta animou os fãs do lore e levanta uma pergunta: por que Alyssa, e não outro personagem?

A vida dos personagens após Raccoon City

Considerando que RE Requiem tem a proposta de retornar a Raccoon City, o mais lógico é trazer personagens relacionados aos eventos ocorridos na cidade, em especial seus sobreviventes.

Porém, a Capcom tentou pensar além dos protagonistas principais, Chris, Jill, Leon, Claire e Rebecca. Estamos carecas de saber que eles dedicam suas vidas a combater o legado da Umbrella após terem sobrevivido ao incidente da mansão e a Raccoon City. E, desde RE7, eles vêm mudando sua função na série, deixando de ser protagonistas para agirem por trás das câmeras. Isso ficou evidente com Chris realizando sua investigação sobre o mofo e Mãe Miranda enquanto a família Winters assumia o papel central.

Cabe então lembrar que, assim como nossos amados veteranos, diversas outras pessoas estiveram em Raccoon City e sobreviveram ou poder ter sobrevivido. E nisso ganham destaque os personagens de Resident Evil: Outbreak, entre eles Alyssa Ashcroft.

Grace Ashcroft em Resident Evil Requiem. Ela é loira, usa cabelos curtos nos ombros e veste uma roupa formal com um crachá do FBI. Ela está de cabeça baixa e com uma expressão muito triste.

Grace muito triste ao ser lembrada do local do assassinato de sua mãe.

É claro que, caso tenham sobrevivido, nem todos os personagens do jogo teriam interesse em lutar contra o bioterrorismo. Por exemplo, Jim Chapman, o funcionário assustado do metrô de Raccoon, provavelmente tentou buscar a vida mais pacata possível. Mark WIikins, já em Raccoon um veterano do Vietnã, pelo que vimos em seu final bom em Outbreak File #2, parece também ter buscado uma vida de paz.

Já Yoko Suzuki, pelo que o final bom dá a entender, decide testemunhar contra a Umbrella. Se ela não foi presa por ter participado do trabalho ilegal da empresa, seria bem possível que ela estivesse usando seus conhecimentos científicos em pesquisas contra as armas biológicas, de forma semelhante ao trabalho de Rebecca Chambers.

É difícil ter certeza sobre os rumos da vida desses personagens, já que os finais de Outbreak File #2 indicam que, caso tenham sobrevivido, praticamente todos buscaram uma nova vida logo após Raccoon. Não sabemos, no entanto, se o avanço do bioterrorismo no mundo pode tê-los feito mudar de ideia.

Mas entre eles temos Alyssa Ashcroft, uma jornalista.

O jornalismo e a busca da verdade

Alyssa Ashcroft em Resident Evil Outbreak trocando uma ideia com Ben Bertolucci. Ambos são jornalistas. Ele está trancado em uma cela da delegacia, e ela está fora.

Alyssa encontrando Ben Bertolucci, também jornalista e seu possível rival, nas celas do R.P.D. no cenário Desperate Times.

De maneira geral, jornalistas têm uma personalidade curiosa, ávida por informações e por informar. A profissão é muito associada à busca da verdade e à responsabilidade social, e pode ser bastante perigosa dependendo das escolhas temáticas do jornalista. Alyssa é corajosa, focada e teimosa, e no final bom de Outbreak File #2 ela reflete que prefere viver uma vida com riscos e lutar pelo que acredita. Essas características são perfeitamente compatíveis com sua profissão.

Além disso, ela é uma jornalista investigativa, que é um ramo do jornalismo ligado a desvendar crimes, mistérios e atos ilícitos que estão ocultos do público. Um exemplo claro disso na franquia está no cenário Flashback de Resident Evil Outbreak File #2, do qual Alyssa é a protagonista. Nele, ela tenta se lembrar de seu amigo e colega de trabalho Kurt, que foi assassinado (na verdade devorado pela zumbi Dorothy Lester) enquanto investigava uma série de mortes misteriosas ocorridas em um hospital das montanhas Arklay. Ela ainda foi responsável por uma série de matérias sobre os acontecimentos estranhos em Raccoon City ligados à Umbrella.

Assim, como jornalista e como sobrevivente de Raccoon City, Alyssa certamente sentia um dever ético de mostrar ao mundo o que havia acontecido na cidade e como outros incidentes como aquele continuavam acontecendo. Tal como Chris ou Leon, ela tinha todos os motivos e habilidades próprias para continuar lutando pela memória de Raccoon e para evitar que o horror continuasse.

Alyssa Ashcroft em Resident Evil Outbreak. Ela é uma mulher jovem, branca de cabelos louros na altura dos ombros. Sua expressão na imagem é reflexiva.

Alyssa teve um papel importante no desmantelamento da Umbrella. Após fugir da cidade, ela escreveu um artigo intitulado “What is BOW? Blowing the Lid off this Horrifying Secret Project” (tradução livre: “O que é B.O.W.? Expondo esse horripilante projeto secreto”) para o jornal Daily Advisor, que foi um dos pontapés para o julgamento da empresa farmacêutica e a exposição do que houve em Raccoon City.

Tudo isso torna Alyssa Ashcroft uma personagem perfeita para ser colocada – ou referenciada – em um jogo da série principal. Ainda mais em um jogo que pretende ser um réquiem de Raccoon City.

Muitos personagens para escolher

Sabemos que Alyssa continuou na ativa com casos de possível bioterrorismo após o incidente em Raccoon City. Em Resident Evil 7, Ethan encontra uma reportagem sobre os desaparecimentos de Dulvey (ou seja, as pessoas sequestradas por Jack Baker e Eveline) escrita por ela na casa dos Baker. Ali, a preferência da Capcom por ela em relação a outros personagens já estava sendo delineada.

É claro que nada impede que os outros personagens de Outbreak apareçam em Resident Evil 9, tenham eles se juntado à luta contra o bioterrorismo ou não. Descobrir o que houve com eles, se sobreviveram ou não e o que fizeram com suas vidas, seria um presente para nós, fãs apaixonados por lore. 

Há ainda outros personagens importantes de Resident Evil que queremos ver em novos jogos. Esperamos ansiosamente para ver Alex Wesker, agora no corpo de Nathalia Korda, mais uma vez. Nathalia foi adotada por Barry, o que daria uma chance de ele aparecer. Também seria ótimo ver Morgan Lansdale, talvez comandando as intrigas contra a BSAA, e até mesmo um Clive O’Brien, que poderia estar envolvido na relação da organização com a Umbrella Azul. Aliás, está mais que na hora de explicar essa volta da Umbrella, né não?

E quem sabe Alyssa não estava investigando isso também? Tenho esperança de que sua presença em Resident Evil REquiem pode estar relacionada às lacunas que ficaram dos últimos jogos.

Nos resta aguardar.

O Arklay’s Library está de volta

NÃO É FAKE NEWS!

O Arklay’s Library está de volta às atividades.

É isso mesmo que você leu. Depois de dois anos de hiato total, este blog está de volta à ativa. Lenta e vagarosamente, é verdade. Em tempos de expectativa por Resident Evil Requiem, imagino que o retorno nada triunfal desta humilde biblioteca não seja a prioridade da comunidade de RE, mas estou aqui mesmo assim porque finalmente foi possível voltar.

O texto que você está lendo é duas coisas: uma explicação do meu sumiço e um direcionamento de como as coisas vão ser daqui pra frente.

Por que o Arklay’s Library ficou parado?

Eu não vou explicar super detalhadamente tudo o que aconteceu nesse período de hiato, mas vou falar um pouco para vocês entenderem por que eu desapareci.

O Arklay’s Library nasceu em um momento da minha vida em que eu estava bem perdida profissionalmente, sem emprego, no meio da pandemia, lá em maio de 2021, um pouco antes do lançamento do Village. Eu sempre tive o sonho de ter um blog de Resident Evil e aquela pareceu a hora certa. A recepção de vocês foi maravilhosa e eu sou imensa e eternamente grata por isso.

Porém, o Arklay’s nunca foi monetizado. Era um hobby mesmo. Então não tinha como ele ser a prioridade o tempo todo. E aí em 2022 surgiu uma super oportunidade de emprego temporário ao mesmo tempo em que eu estava fazendo uma pós-graduação e me qualificando para outras atividades. Nesse emaranhado de obrigações, o Arklay’s teve que ficar um pouco de lado, mas eu ainda publicava alguma coisa. Eu postei um pouco nesse período até 2023, tanto no blog quanto no Twitter, e aí sumi.

O que aconteceu entre 2023 e agora é que eu estava num processo de me reencaixar profissionalmente que não foi nada fácil. Tentei fazer outra faculdade, que não deu certo (e acho que até me deixou mais burra kkkkk), tive outros trabalhos, muitos altos e baixos, e agora que estou me reestabelecendo. E como vocês devem imaginar, não foi um processo fácil e me consumiu muito.

Rebecca Chambers em Resident Evil Vendetta. Ela está toda suja de sangue de um zumbi e fazendo sinal de positivo com a mão, mas está com uma expressão de "estou bem mas não muito".

Um outro aspecto fundamental do meu sumiço foi o frenesi e a pressão das redes sociais. É muita gente falando sozinha e com você ao mesmo tempo, e….eu sou uma pessoa introvertida e com alguma ansiedade social. Então, por mais que 99% das pessoas fossem extremamente gentis comigo e eu tivesse (e ainda tenha) um genuíno carinho por vários de vocês, eu estava muito desgastada. Tanto pelo ritmo das redes quanto pela minha vida fora da internet. Nesse contexto, sumi das redes do Arklay’s e também passei a usar bem menos as minhas redes sociais pessoais, o que me fez um bem danado.

Eu não pretendo voltar atrás nisso. Por isso, as redes do Arklay’s serão usadas essencialmente para divulgar textos novos, dar recados e talvez para falar uma ou outra coisa mais pontual. Não porque eu não goste de trocar ideias ou de participar da comunidade. Mas porque percebi que não consigo dar atenção pra todo mundo e pra todos os assuntos e tretas.

E como vai ser daqui pra frente?

Antes de mais nada: o blog volta com o mesmo formato, a mesma proposta e o mesmo rigor com qualidade. Mas, como vocês já devem imaginar, não vou publicar textos com tanta frequência.

Nem todo mundo entende isso, mas os textos do Arklay’s são fruto de muito tempo de estudo. Leitura de às vezes oito, dez artigos, livros inteiros, aulas e, claro, meu background acadêmico como historiadora. Isso sem contar a pesquisa sobre o próprio lore de Resident Evil, porque eu também tenho minhas dúvidas. E é por isso que era impossível conciliar o resto das minhas atividades com o blog.

Eu sempre prezei muito mais pela qualidade do que pela quantidade. Não pretendo mudar isso nessa próxima fase. Isso vai diminuir meu alcance? Vai. Mas está tudo bem.

Como bônus, quero transformar alguns conteúdos que fiz para o Instagram no passado em textos do blog, o que pode trazer mais conteúdo por um tempo.

Já as redes, como falei ali em cima, serão usadas para divulgar novas publicações e recados. Isso não significa que eu não vá responder ninguém ou que nunca vá comentar nada sobre novidades de Resident Evil, só que serei substancialmente menos presente.

Estarei no Instagram, no X (o mínimo possível, porque *tóxico*) e no Bluesky.

Quanto a Resident Evil Requiem, só vou escrever sobre ele quando eu de fato tiver algo a dizer. Confesso que estou gostando da sensação de mistério e de inesperado que o jogo está trazendo para nós e quero continuar aproveitando.

Grace Ashcroft em Resident Evil Requiem. Ela é branca e loira de cabeços curtos. Ela mexe em um computador em meio a uma pilha de papeis em um gabinete.

Vocês também vão notar que eu adicionei uma página “Apoie o Arklay’s” ao site. Eu relutei um pouco com isso, porque tudo o que eu tenho para oferecer no momento é que o blog continue existindo. Mas se por acaso alguém tiver vontade de mandar um pix, ficarei muito feliz. Qualquer contribuição, por menor que seja, ajuda muito.

Dito isso, galera, o Arklay’s Library é, pra mim, um espaço que eu faço porque eu gosto e porque eu estou me sentindo bem para continuar fazendo agora. Estou aqui para me divertir e para trazer um bom conteúdo independentemente do hype. Eu ensaiei este retorno por muitos meses antes de ter certeza de que era possível, e vou me esforçar para valer a pena, mesmo que o algoritmo não favoreça o meu ritmo.

Espero que, apesar de tudo, vocês continuem gostando daqui.

Obrigada por tudo até aqui e nos vemos por aí!