Spencer e a preservação da memória para viver para sempre

Cena de Resident Evil Requiem. Ozwell Spencer velho e doente em sua cadeira de rodas em entrevista a Alyssa Ashcroft.

Quando uma pessoa morre, suas lembranças, seu conhecimento, suas memórias, tudo se perde para sempre. E isso é verdade tanto para pessoas comuns com vidas comuns quanto para grandes cientistas ou filósofos. Ozwell E. Spencer acreditava que isso era uma lástima e que a partida de grandes mentes era uma perda para a humanidade. Porém, mais do que isso, ele mesmo se considerava uma dessas mentes, o que o levou a buscar uma maneira de contornar a morte e o desaparecimento de sua memória.

De todas as formas de memória que Resident Evil Requiem aborda, a memória “física” extrapolou as minhas expectativas, já que eu não imaginava sequer que Spencer teria um papel tão central na trama e muito menos que veríamos uma outra frente da pesquisa que ele confiou a Alex Wesker.

Mas há algo de mais profundo nessa preservação de memória. Spencer sabia que poderia não alcançar seus objetivos de vida eterna; por isso, ele garantiu que sua memória perante o mundo — seu legado — permanecesse viva, manipulando tudo e todos até o fim de sua vida.

O texto de hoje é sobre tudo isso e mais um pouco.

A transferência de memória

Sabemos que, à medida que foi envelhecendo e adoecendo, o fundador da Umbrella percebeu que morreria sem alcançar sua utopia eugenista e a posição de deus que ele tanto cobiçava. Com isso, ele investiu seus esforços em pelo menos duas linhas de pesquisa voltadas para a superação da morte, ambas com o princípio de transferir sua mente para outro corpo. Uma foi comandada por Alex Wesker e a outra por Victor Gideon.

Em REquiem, os arquivos que encontramos no Centro de Cuidados de Rhodes Hill falam dessa transferência por meio da memória:

A humanidade sofre quando se perde a determinação e a experiência dos nossos líderes mais notáveis. A forma suprema de preservar tal grandeza é transferir essas memórias a um novo receptáculo.

Assim como moscas-da-fruta podem herdar lembranças específicas dos antecessores via genes, as memórias de um doador humano também podem ser transferidas a um receptor.

[…]

Dado que o vírus T nos dá controle sobre fatores do sangue, pode-se teorizar que explorar esses elementos possibilitará transferir memórias de indivíduos superiores.

— Pesquisa do Spencer II (Resident Evil Requiem — tradução oficial)

Ao transferir sua mente para outro corpo, Spencer pretendia viver para sempre, em sentido físico e literal. Por isso, ele buscou um receptáculo perfeito realizando pesquisas com as crianças do orfanato e possivelmente com a Grace.

No fim da vida, Spencer sabia que suas chances de ser bem-sucedido eram limitadas; mas se ele não podia viver para sempre num corpo, viveria na memória das pessoas.

Assim, o homem que queria ser um deus aceitou ser entrevistado por Alyssa Ashcroft para deixar um último legado que limpasse sua imagem.

A reabilitação da memória de Spencer

Graças às manobras do governo estadunidense e da Conexões, a Umbrella e Spencer foram os únicos condenados por tudo o que aconteceu a Raccoon City e por todas as atividades ilegais da empresa. Apesar de isso ter ocultado parte dos culpados, o foco na Umbrella fez com que toda uma geração de pessoas, fossem elas vítimas ou não da gigante farmacêutica, vissem o quão hediondo era Ozwell E. Spencer.

Pessoas como os ex-STARS ou Alyssa Ashcroft jamais acreditariam que aquele homem — que dedicou uma vida inteira a uma pesquisa eugenista, financiou pesquisas com armas biológicas utilizando cobaias animais e humanas e com tudo isso causou a morte de centenas de milhares de pessoas — poderia sentir qualquer tipo de culpa ou arrependimento.

Com as novas gerações, entretanto, isso poderia ser diferente.

Grace Ashcroft em Resident Evil Requiem

Existe um fenômeno, inicialmente descrito na biologia, que tem sido aos poucos aplicado à psicologia e às ciências sociais, chamado de Síndrome do Deslocamento Referencial (Shifting Baseline Syndrom ou SBS). Ele funciona assim: quando uma geração vive uma crise, como uma guerra ou uma epidemia, e essa crise passa, essas pessoas passam a valorizar muito o status quo após a solução, mesmo que ele não seja tão bom. As gerações seguintes, no entanto, não têm essa mesma referência, e passam a questionar esse status quo.

Os movimentos de contracultura dos anos 1960 e 1970 na Europa ilustram bem esse fenômeno. Após a destruição da Segunda Guerra Mundial, muitos europeus ocidentais se afastaram da vida política, buscando paz e prosperidade de acordo com a influência do American Way of Life individualista e consumista. Os filhos dessas pessoas, os chamados baby boomers, foram a geração dos protestos de 1968. Atentos a acontecimentos como a Guerra do Vietnã e a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, esses jovens, diferentemente de seus pais, não consideravam que os problemas estavam todos no passado e passaram a questionar o estado das coisas. Do ponto de vista da SBS, o deslocamento referencial permitiu que uma nova geração enxergasse as contradições sociais que permaneceram após a guerra, estimulando a demanda por mudanças.

Por outro lado, a SBS também pode ter um efeito de esquecimento de referenciais, com o risco de negacionismo histórico e ameaça a direitos adquiridos. O exemplo mais notório é o movimento antivacina, oriundo de uma geração que não tem memória da convivência com as doenças combatidas pela vacinação e por isso subestima sua importância. Assim, a Síndrome do Deslocamento Referencial se entrelaça com a ideia de Amnésia Geracional, que tem uma conotação mais negativa.

É esse fenômeno de amnésia geracional que permitiu que a mensagem de suposto arrependimento de Spencer tocasse o coração de Grace Ashcroft — uma jovem que, mesmo criada por uma sobrevivente de Raccoon City, não viveu os horrores da infecção na cidade, não perdeu familiares para o T-vírus, não viu os Julgamentos de Raccoon que incriminaram a Umbrella e não viu ao vivo o desprezo de Spencer por maior parte da humanidade.

É por isso que Grace é mais propensa a acreditar no arrependimento do fundador da Umbrella, enquanto Alyssa deixou claro em seu relatório que achava aquela atitude suspeita. Há aqui um conflito de gerações, que eu inclusive acho que Requiem perdeu a oportunidade de explorar.

Cena de Resident Evil Requiem com Alyssa e Grace Ashcroft sentadas num quarto de hotel.

Vale dizer que talvez mesmo Grace não tivesse sido tão manipulada se suas circunstâncias fossem outras; afinal, ela conhecia a história de Raccoon City e da Umbrella, a ponto de ser uma agente do FBI investigando as mortes pela síndrome de Raccoon City. Entretanto, ela foi pega em um momento totalmente vulnerável, sozinha, sem entender muito bem quem era, e isso caiu como uma luva para que a cena de Spencer a apresentando como sua filha derretesse seu coração.

Assim, Ozwell Spencer criou uma semente de redenção não só perante sua filha adotiva, mas perante a sociedade, pois Grace escreveu com convicção em seu relatório que o velho aristocrata se arrependeu. Isso abriu espaço para que a história dele fosse revista, mantendo-o vivo na memória social e reabilitando sua figura como alguém com credibilidade.

Memória e vida eterna

Victor Gideon, ao contrário de Grace, não acreditou no arrependimento de Spencer. Pelo contrário: ele entendeu perfeitamente toda a manipulação e propósito de seu mestre. Fiel à causa, ele levou a manutenção da memória de Spencer às últimas consequências em todos os sentidos.

Enquanto realizava suas pesquisas de transferência de memória no Centro de Cuidados de Rhodes Hill, Gideon também nunca deixou que o legado daquele que ele considerava ser sua maior referência fosse esquecido. Ele guardava o caderno de anotações de Spencer e toda a sua pesquisa era guiada pelo ideal da evolução humana por meio dos vírus, ou seja, pelo ideal eugenista de Spencer.

Cena de Resident Evil Requiem. victor Gideon todo esfolado falando para o Zeno que vai honrar o legado de Spencer e realizar o seu sonho.

Mas o legado de Spencer não era suficiente. Era necessário trazer o mestre de volta à vida de alguma maneira, com as suas lembranças, a memória e o conhecimento. Afinal, era o que o fundador da Umbrella queria desde o início, não? Viver para sempre, acima dos outros seres humanos. A isso, Gideon dedicou quase trinta anos de sua vida, sem sucesso.

Houve alguém, entretanto, que conseguiu um feito próximo disso. A filha favorita, que veio muito antes de Grace e que partiu pouco depois de sua chegada: Alex Wesker.

Velho decrépito e desprezível.

Queria criar um mundo novo e comandá-lo como um deus. Mas de todas as suas ambições, não conseguiu superar os inimigos mais formidáveis do homem: a velhice e a doença. Você tinha tudo, mas seu corpo despedaçado o traiu.

E então seu próprio “filho” apagou o resto de vida lamentável que você tinha, tornando-o nada mais do que uma nota de rodapé nos anais da história. Você falhou, velhote.

Mas não tema. Seu sonho não morrerá.

Usarei o conhecimento, o poder e as cobaias de teste em abundância que me deu e terei sucesso onde você falhou. Criarei o mundo novo e o comandarei como um deus. Seu legado será esquecido, mas o meu acaba de começar.

Que sua alma, se é que teve uma, apodreça em tormento por toda eternidade e que o inferno ecoe incessantemente o som do ranger de dentes.

— Palavras de Despedida ao Meu Querido Pai (Resident Evil: Revelations 2 — tradução oficial)

Spencer falhou em alcançar a vida eterna, mas Alex foi bem-sucedida em seu projeto. Ela renasceu em Natalia Korda, e está por aí vivendo sua nova vida. Ela não precisou da memória, pois ela mesma poderá reconstruir sua própria imagem quando o tempo chegar.

Cena de Resident Evil Revelations 2. Natalia Korda, uma criança, lê em seu quarto.

Legado

Ozwell Spencer não era um grande homem. Ele também não tinha um intelecto particularmente privilegiado. Porém, ele era ardiloso, observador e, acima de tudo, podre de rico. E isso o tornava um homem poderoso, um homem poderoso com ideias muito perigosas.

Homens como ele não desistem facilmente. Por isso, mesmo diante da iminente queda da Umbrella e de sua reputação, Spencer construiu seu plano de emergência, uma forma de manter vivas sua memória e suas ideias. Sem Alex, ele delegou a Albert Wesker a manutenção de seu plano eugenista, enquanto Grace seria a chave para a redenção de sua memória. Um plano arriscado, mas que rendeu os primeiros frutos vinte anos após sua morte.

O arrependimento não redime pessoas que cometeram atrocidades como as que Spencer cometeu. E o tempo também não pode absolvê-las. Se hoje falamos das violências que a humanidade cometeu a séculos atrás — a escravidão, a exploração colonial, o holocausto, os desaparecimentos políticos em ditaturas — é porque elas ainda têm impacto em nossas vidas. As violências de Spencer, no universo de Resident Evil, ainda são muito recentes e não podem jamais ser esquecidas. Elas fizeram e continuam fazendo muitas vítimas. Portanto, pessoas como Ozwell E. Spencer não podem ter o poder de manipular a memória; a memória deve ser mantida com a verdade. Esse é o verdadeiro réquiem pelos mortos de Raccoon City.


Referências:

  • BBC NEWS BRASIL. Amnésia geracional: a perda de memória que prejudica o planeta. 8 ago. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-57888974. Acesso em: 13 mai. 2026.
  • CRAIG, Robin Kundis. The regulatory shifting baseline syndrome: vaccines, generational amnesia, and the shifting perception of risk in public law regimes. Yale Journal of Health Policy, Law, and Ethics, v. 21, n. 1, p. 1-60, jul. 2022. Disponível em: https://ssrn.com/abstract=4028027. Acesso em: 13 mai. 2026.
  • MAZOWER, Mark. “A democracia transformada: a Europa Ocidental, 1950-75”. Continente Sombrio: a Europa no século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
  • SOGA, Masashi; GASTON, Kevin J. Shifting baseline syndrome: causes, consequences, and implications. Frontiers in Ecology and the Environment, v. 16, n. 4, p. 222-230, 2018. Disponível em: https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/fee.1794. Acesso em: 13 mai. 2026.
  • SPENNEMANN, Dirk H. R. The shifting baseline syndrome and generational amnesia in heritage studies. Heritage, v. 5, n. 3, p. 2007-2027, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.3390/heritage5030105. Acesso em: 20 mai. 2026.

2 comentários em “Spencer e a preservação da memória para viver para sempre”

  1. Excelente artigo! E explica inclusive por que a Grace é de tanta importância no enredo do Requiem e uma parte fundamental, ainda que inconsciente, do plano do Spencer – devido a pertencer a uma geração diferente e não ter vivenciado os acontecimentos de Raccoon City da mesma maneira. Isso acontece MUITO na História e é um ponto bem relevante do enredo do Requiem realmente, ainda que não muito explorado.
    Parabéns pelo texto.

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