Analisando Resident Evil: Infinite Darkness, parte 1 – resenha e lore

Este texto contém spoilers de Resident Evil: Infinite Darkness e é o primeiro de um grupo de textos de análise ampla da série.

Resident Evil: Infinite Darkness não parece ter sido muito bem recebida pela fanbase. Embora me pareça que a maioria do público gostou, o meu círculo de amigos e conhecidos parece ter torcido o nariz para a série ou, mesmo que tenham gostado, tiveram uma visão bastante negativa dela.

Isso me pegou de surpresa, porque ainda que essa não seja exatamente uma obra prima, assisti com muita empolgação. Eu concordo com a maioria das críticas, mas não esperava que as pessoas tivessem achado tão ruim.

De qualquer modo, farei meus apontamentos iniciais sobre a série, e nos próximos textos faremos análises mais profundas baseadas nas referências históricas que ela trouxe. Bora lá!

O tema do medo e da escuridão

Em meu texto de especulações sobre ID no EvilHazard, sugeri que a escuridão no nome da série remetia ao medo e à escuridão interna das pessoas, e que esta seria a temática central da trama. E realmente é bem este o conflito central de Jason, que é também a figura em torno da qual se desenvolve o enredo. Ele pode parecer não fazer muito sentido, mas é um personagem complexo que não pode ser compreendido se pensarmos em meros termos racionais. A história dele me lembra muito de Rambo, e gostei bastante disso. Falarei mais dele futuramente.

Só de olhar a ênfase que deram na expressão de Jason ao matar os zumbis na Casa Branca, já senti que ele não estava muito bem da cabeça.

Personagens

Apesar de Claire ter de fato bem menos destaque do que Leon, gostei muito do papel de detetive que ela exerceu e gosto muito da ideia de ela demonstrar este lado humanitário na luta contra o bioterrorismo. Inclusive gostei bastante de ver que a TerraSave não fornece ajuda somente a vítimas do bioterrorismo, dado que a ONG já estava no Penamistão antes de Claire descobrir os indícios de uma epidemia.

O que me deixou triste mesmo foi que ela apanhou muito. Me vejo obrigada a concordar com a observação de que o tratamento que as personagens femininas têm recebido nos últimos anos em Resident Evil tem deixado bastante a desejar, porque além da Claire, Shen Mei também só existiu na série para sofrer e morrer, sem sequer termos visto suas tais habilidades como cientista da computação.

Quanto ao Presidente Graham, gostei dele. Talvez um pouco bonzinho demais para quem ocupa o cargo que ocupa, mas acho que ele representa bem a tentativa de um período de transição entre um governo que explodia cidades e um que queria um mundo melhor (tentativa que não deu muito certo).

Talvez sejam exatamente essas boas intenções e essa conexão pessoal que levaram Leon a se recusar a divulgar as informações do chip do irmão de Shen Mei. O que é uma grande burrice, já que isso não teve nada a ver com Graham e as armas biológicas já estavam começando a se tornar mais conhecidas em 2006. E isso acabou fazendo com que surgisse um conflito entre ele e Claire, e ela teve toda a razão de sair revoltada com ele.

Eu gostei bastante desse embate entre Leon e Claire, pois até então só os havíamos visto em harmonia, mesmo seguindo caminhos muito diferentes. Aqui, enquanto Claire é uma pessoa muito do realismo e da prática (coisa de Redfields), Leon ainda está preso a seu idealismo. Esta situação é coerente com a melancolia que ele passa a sentir anos depois, porque além da vida dele ter se tornado um círculo vicioso, ele deve ter visto a idiotice que fez. Só espero que esse desentendimento não fique esquecido no churrasco.

Por outro lado, devo dizer que achei o Leon da série bastante incoerente com o momento do personagem na cronologia. ID se passa depois do filme Degeneration, em que já vemos um Leon bem mais maduro e realista. Se a ordem das histórias fosse invertida, haveria mais sentido nas atitudes burras dele. E a forma condescendente como ele trata Claire é completamente contraditória com todo o resto da franquia. Não foi nada convincente.

Duração como fator limitante

Tenho 90% de certeza de que Infinite Darkness era um filme que já estava meio pronto e que, quando surgiu a oportunidade de publicar pela Netflix, a Capcom dividiu o material em quatro partes. E, sendo tão curta, a série não desenvolve adequadamente diversas questões do enredo. Isso fez com que ID parecesse muito mais superficial do que eu interpretei que é, e isso comprometeu a qualidade da obra.

Por um lado, acho bom que haja certa objetividade, mas, por outro, às vezes algumas coisas desnecessárias (como o Leon dando piruetas) ganham mais atenção do que o aprofundamento do enredo e dos personagens.

Relação com o resto da franquia

Infinite Darkness traz uma história bem fechada em si mesma, como é de praxe das animações de RE. Porém, enquanto as outras (com exceção do Vendetta) serviam de prelúdio para os jogos numerados, ID se passa em momento bem mais recuado no tempo, entre RE4 e RE5 e no mesmo ano do Lost in Nightmares (e aparentemente antes dele). Isso é bom na medida em que o conflito se resolve (ao menos parcialmente), mas nem só de easter eggs vive o fã de Resident Evil.

A grande oportunidade perdida neste sentido, a meu ver, foi não terem feito uma conexão entre RE7 e Village. Como a série se passa em 2006, seria um ótimo momento para mostrar a refundação da Umbrella (ocorrida em 2007). Embora fosse mais ou menos claro que a empresa com que Wilson estava envolvido era a Tricell, eu tinha uma pontinha de esperança de que a Umbrella Azul ainda daria as caras. E também considero um pecado não termos visto nem Adam Benford, nem Ingrid Hunnigan, pessoas sempre perto de Leon, ou Derek Simmons, urubu constante das decisões centrais do governo.

Uma coisa bem escancarada é que Infinite Darkness é uma releitura de Resident Evil: Degeneration. Temos um personagem masculino desgraçado da cabeça que vira um monstrão (Jason/Curtis), uma mulher ligada a ele que anda com Leon (Shen Mei/Angela), a casa da família dessa mulher pega fogo, temos um cara que subestima o Leon (Patrick/Greg), depois Leon e Claire vão parar em um laboratório muito parecido com o da WilPharma, e Claire praticamente repete sua participação em Degeneration na parte final enquanto Leon fica pendurado umas 4839615 vezes, demonstrando a importância de seus treinos de barra na academia.

Eu não necessariamente acho que ser uma releitura é um problema, especialmente porque o background de Jason e Shen Mei é bem diferente do de Curtis e Angela. Mas na sequência final isso empobreceu a narrativa. Em contrapartida, não foi uma batalha muito longa, o que achei bom. Parece que assim como RE7 resgatou o RE1 e o Village resgatou o RE4, Infinite Darkness tentou resgatar o Degeneration apostando em uma fórmula que fez sucesso em sua época.

Veredicto

Apesar dos pontos fracos e da recepção ruim, eu gostei sinceramente de Resident Evil: Infnite Darkness. Talvez porque eu estivesse procurando uma coisa específica que encontrei, que foi uma conspiração governamental que de bônus veio recheada de referências históricas que serão abordadas nos próximos textos. Confesso que o resto, para mim, era o de menos.

É claro que eu gostaria de ter visto mais conexões com o restante do lore e um desenvolvimento melhor dos personagens novos e velhos, mas foi um produto que me foi bastante agradável de assistir.

Por fim, aguardem as análises históricas que faremos ao longo do mês de julho. Quem sabe elas não agregam alguma coisa boa ao Escuro Absoluto?

3 comentários em “Analisando Resident Evil: Infinite Darkness, parte 1 – resenha e lore”

  1. Gostei bastante da análise.
    A mim saltou aos olhos como o ID realmente é uma releitura do Degeneration – em partes parece até um retcon, já que os personagens e a trama se desenrolam sem nenhuma menção a ele.
    Também achei que a violência contra as personagens foi desmedida. No caso da Claire, desde o RE2 Remake isso me incomoda, aliás.
    Queria ter curtido mais a série, mas no final o que me atraiu foi mais o pano de fundo histórico e político mesmo – o qual estou animado a ver analisado por aqui.
    Abraços.

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  2. Olha eu por aqui outra vez!
    Muito interessante a análise. As três partes, na realidade. Eu tinha conversado com outras fãs de RE, mais jovens, que fazia sentido, pós assistir a série, que a Capcom tivesse vetado que os jornalistas mencionassem política em suas resenhas. A despeito da série não ser nenhum pouco sutil sobre sua crítica a postura dos EUA, como a rivalidade entre as potências China e EUA ainda é um dado real e contemporâneo, é melhor eles não se enfiarem nesse palheiro.
    Também senti que Penamstão não só poderia servir como analogia ao Afeganistão, mas à Palestina também, e toda a questão com Israel.
    Eu só teria uma pequena ressalva, que seria sobre o ponto a propósito da decisão do Leon. Mas calma, nenhuma sandice de fã.
    Eu discordo que a decisão dele foi ingênua, burra ou, bem, enfim, qualquer que seja o adjetivo negativo que estejam usando, mas eu acho que tem coerência e coesão narrativa dentro do contexto que o Leon esteve, está e continuará inserido nos próximos anos.
    Vejo os arquétipos dos personagens do Patrick e do Jason como paralelos à jornada dele: Patrick lembra muito um Leon de 21, novato, enquanto Jason pode ser um espelho distorcido pro que o próprio Leon poderia se tornar – sendo ele próprio também um “herói” das missões que conseguiu retornar.
    A decisão do Leon naquele final diz muito respeito a construção de sua personalidade e jornada, em que o Leon tem aprendido às duras penas que as coisas não assim, tão preto e branco, mas em tons de cinza.
    Como os Redfield são muito afeitos à resposta imediata, não me surpreendeu o ressentimento que ficou entre ele e a Claire, mas também vejo como o método da Claire teria ajudado em qualquer coisa: a Shen May confirma que no pendrive não há dados sobre a empresa (Tricell) financiando aquilo tudo. O Leon expondo aquele conteúdo antes do tempo faria apenas o Wilson cair e atrapalharia as investigações que, no RE5, levaram à Tricell.
    Nós sabemos que mesmo no lado de cá das coisas – no mundo real -, não funciona exatamente assim: dar com a língua nos dentes, expor, que as coisas são resolvidas. Não há melhor amostra do que todo o jornalismo investigativo e de denúncia dos últimos anos que não provocou um pedido de interrupção do mandato de Trump que efetivamente o tirasse do poder antes de Biden ser eleito.
    Estando inserindo nesse contexto – ser um agente do governo, estar trabalhando tão de perto com essas coisas -, imagino que o argumento narrativo seja que o Leon concorda com a Claire sobre os fins, mas não os meios, e que ele sabe, por experiência própria, que talvez a forma que ele vai lidar com isso traga melhores frutos a longo prazo.
    De resto, estou de acordo em número, gênero e grau, inclusive sobre no incômodo da Capcom seguir trazendo as personagens femininas para esses longas de animação somente como enfeites, e não tendo um desenvolvimento orgânico na trama.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigada! Realmente essa foi a referência política mais escancarada de RE até hoje. Confesso que me surpreendeu positivamente rsrs
      Eu confesso que não consegui identificar a questão da Palestina ali não. Eu tentei visualizar os outros conflitos regionais na série, mas ela mostra tão pouco que foi difícil fazer uma avaliação mais ampla, então optei por falar só do que era mais evidente, a princípio. Mas ainda tem alguns elementos que eu não identifiquei se são baseados em alguma coisa da vida real, então talvez ainda haja algo interessante a ser explorado.
      Quanto ao Leon, entendo seu ponto, acho que parte da intenção pode ser essa mesmo. Mas acho que combina mais com um Leon mais jovem, e isso que mais estranhei. Enfim, espero que a Capcom não esqueça disso e desenvolva isso melhor futuramente.

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