Hoje ia sair um texto sobre outro assunto no blog, mas com a invasão do presidente russo Vladimir Putin à Ucrânia, achei melhor falar sobre outro assunto que, por incrível que pareça, ainda tem a ver com Resident Evil. Este é um texto escrito rapidamente e improvisado e pode ter erros de revisão.
Vocês se lembram, em Resident Evil: Condenação, qual era o contexto da estada do Leon na República Eslava do Leste (que vou chamar de REL), país fictício presidido por Svetlana Belikova? Bom, o nome do país diz muita coisa: é claramente um país do leste europeu, cujos nomes dos personagens e arquitetura da cidade são a clara sensação de que estamos em um país muito semelhante à Ucrânia ou um pedacinho da Rússia que se tornou um país à parte.
O que vemos no filme é uma guerra no Leste Europeu, próxima da Rússia e com participação tanto russa quanto norte-americana. Não é exatamente igual a o que estamos vendo agora, pois ali há uma guerra civil com intervenção de outros países, enquanto na Ucrânia real mesmo os conflitos internos já estavam relacionados com interesses externos, mas pode nos ajudar a pensar. Meu ponto não é fazer comparações forçadas ou dizer que cada grupo do filme representa um lado do conflito real (longe disso), mas apontar como os conflitos de jogos de interesse são complexos e que temos que ir muito além de dividir isso entre “bonzinhos e malvados”.

O que os rebeldes buscam no filme é a independência de uma região da REL com a qual eles têm laços ancestrais e culturais, com um mínimo de autonomia. O governo da REL sempre quis retomar esse território até Svetlana propor um cessar-fogo. Porém, quando ela mesma percebeu que havia reservas de recursos (provavelmente minérios e petróleo, pelas imagens do filme) interessantes economicamente para o país na região autônoma dos rebeldes, ela voltou a atacar. Ao mesmo tempo, Rússia e Estados Unidos estão sondando o conflito.
Repito – não é a mesma coisa, mas vejam como há interesses semelhantes em jogo na vida real:
1) o Leste Europeu possui uma diversidade cultural imensa que está dividida e nem sempre distribuída de forma satisfatória dentro dos territórios dos países oficiais, e isso acontece em diversos lugares do mundo. Por isso que de vez em quando surge um grupo separatista orgânico aqui e ali ou alguma situação como a que houve na Crimeia desde 2014: a região tem laços culturais russos, mas era uma região autônoma dentro do território ucraniano. Por influência russa, jogou-se a ideia de que a Crimeia deveria voltar a fazer parte da Rússia e construiu-se um novo sentimento separatista.
2) Quando outros países decidem intervir, não podemos pensar em mera bondade, especialmente quando não há alianças militares pré-estabelecidas entre os atores. Lá pelos finalmentes de Condenação, a presidente Belikova diz que a REL está pronta para “se juntar à comunidade internacional”, o que significa que o país ainda é muito isolado politicamente – ou seja, ninguém se importa muito, como o próprio JD reclama para o Leon. Oras, o conflito na Ucrânia começou em 2014. De lá pra cá, quanta dedicação da mídia e dos atores internacionais a gente tem visto em relação a isso? E com quantos outros conflitos no mundo isso não acontece?

Outro fator de isolamento é que a Ucrânia não faz parte da aliança militar ocidental que é a OTAN – e se fosse, já teria tido problemas com a Rússia há muito tempo. A questão da Crimeia tinha a ver com isso: os EUA querendo que a Ucrânia se juntasse à OTAN para controlar a base militar russa que existe lá, e a Rússia, querendo evitar isso, reivindicando novamente aquele território. Isso é fundamental para entender essa crise. A lógica da Guerra Fria não morreu nesse sentido porque os dois países ainda são as maiores potências militares do planeta e uma não vai deixar de suspeitar da outra enquanto esse status permanecer.
3) No filme, os EUA e a Rússia se retiraram da guerra da REL, e por isso Leon devia sair do país também. Preocupado com a questão das BOWs, ele ignora as ordens e fica, dizendo que não está nem aí para a política (o que também é uma imbecilidade tremenda. O cara chega no meio de uma guerra em um país em missão oficial, topa com a presidente e não sabe quem ela é…por favor, né?). Só que os EUA não se retiraram de verdade (e a Rússia provavelmente também não) – continuaram monitorando o Leon, o que no final traz uma intervenção heroica para salvar o protagonista. Só que esse heroísmo todo é coisa da ficção. O próprio Leon canta a bola de que as autoridades estadunidenses sabiam dos podres de Svetlana desde o início. De resto, o povo da REL havia sido abandonado à própria sorte.
O que eu quero dizer com isso não é que Resident Evil: Condenação conta a história do que está acontecendo na Ucrânia agora e que devemos encontrar os equivalentes. Minha reflexão a respeito disso é: há interesses geopolíticos, militares, econômicos e culturais por parte da Rússia como também por parte do Ocidente. Não à toa que no final do filme vemos que a Rússia e os EUA constituíram um governo temporário na REL após a renúncia de Svetlana Belikova. Eles colocariam ali alguém que servisse aos interesses deles.

A relação com o filme que eu trago para vocês é que o enredo construído nele é extremamente complexo – movimentos civis com interesses não unânimes, gente boa e gente gananciosa e unindo a eles, o uso de métodos questionáveis na revolta, governos usando meios ilegais para e promover, governos fazendo guerra em nome de recursos econômicos, outros países se metendo no meio, gente bem intencionada e mal intencionada, gente bem intencionada tomando atitudes destrutivas – e ainda assim é bastante simplificado perto da vida real. Então cuidado com o discurso dos bonzinhos versus os malvados. Não tem ninguém inocente entre os peixes grandes.
Enquanto isso, tanto no filme quanto na vida real, a certeza que temos é que o povo ucraniano e o povo da República Eslava do Leste – as pessoas comuns, os trabalhadores, estudantes, donos de lojinhas, camponeses, os professores como Buddy e Irina – ficam no fogo cruzado por conta de interesses de peixes maiores. Irina morreu no bombardeio junto com as crianças, assim como muitos ucranianos já morreram ou tiveram que fugir por conta do conflito que se arrasta há quase uma década.

Há uma infinidade de outras questões a respeito desse conflito que não tenho todo o conhecimento para tratar agora, como os problemas que envolvem o próprio governo ucraniano, as questões particulares de cada grupo separatista, a real influência dos movimentos neonazistas e tudo mais. Por isso, informem-se. Tem Xadrez Verbal (no podcast e no Twitter), tem a live do Casimiro, tem o História Online, deve ter mais um monte de material bom por aí. Só não se deixem levar pela narrativa de que a única que tem interesses desumanos é a Rússia. Nem de que a Rússia está só atrás de neonazistas (mesmo que eles estejam lá). Política internacional é muito mais complicada do que isso.
Resident Evil não é só um joguinho que a gente sai atirando em monstro. Como eu sempre reforço: ele é uma metáfora para o nosso mundo, com suas críticas a ele uma profunda mensagem anti-guerra. E, infelizmente, essa crítica continua sendo muito atual.
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Post sensacional, e bastante relevante ao momento. Os paralelos, mesmo mais indiretos, são totalmente fundamentados e mostram como, no filme, há uma amostra da geopolítica das potências em funcionamento.
Parabéns!
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