Criadores de monstros – a visão científica de Victor Frankenstein em Resident Evil [Série RE e Frankenstein, Texto 1]

Este é o texto de número 1 da série Resident Evil e Frankenstein do blog e contém spoilers de todo o lore de Resident Evil e da obra Frankenstein ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley.

“Vida e morte pareciam para mim fronteiras ideais que deveria, primeiramente, transpor, despejando uma torrente de luz em nosso mundo sombrio. Uma nova espécie aberçoar-me-ia como criador e origem; muitas personalidades felizes e excelentes deveriam a mim a própria existência”. P. 69

Ozwell E. Spencer queria criar uma nova “raça” de seres humanos, forçando a evolução da espécie por meio dos vírus. Esses seres, que a seu ver seriam superiores, seriam mais fortes e mais inteligentes – e deveriam vê-lo como seu líder, um deus da nova espécie. Não foi ele, no entanto, quem disse as palavras acima citadas. Foi ninguém menos que Victor Frankenstein, na brilhante obra que inaugurou o gênero da ficção científica, um dos quais Resident Evil faz parte.

Ozwell Spencer, artwork de Resident Evil 5: Lost in Nightmares.

Frankenstein ou o Prometeu Moderno, publicado pela escritora inglesa Mary Shelley pela primeira vez em 1818 e reeditado em 1831, influencia a ficção científica até hoje. E, ainda que indiretamente, Resident Evil não ficou de fora. A franquia tem uma quantidade imensa de cientistas ‘loucos’ com objetivos semelhantes aos de Victor – quase todos eles, diga-se de passagem.

E como eu amo Frankenstein e amo Resident Evil, este texto que ia ser único vai ser o primeiro da série Resident Evil e Frankenstein que vai discutir variados aspectos de como podemos relacionar as duas histórias.

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Um agradecimento por 2021 no Arklay’s Library

2021 foi um ano agitado para os fãs de Resident Evil. Nos 25 anos da franquia, foram realizados diversos lançamentos em diversas mídias, ganhamos vários prêmios por Resident Evil Village, sendo um deles da maior premiação de games do mundo (o de melhor performance de Maggie Robertson como Lady Dimitrescu), e vivenciamos infinitas tretas na comunidade.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu acompanhei tudo isso bem de pertinho, pois depois de muitos anos longe dos fóruns de discussão eu retornei de forma ativa à comunidade com a fundação do Arklay’s Library.

Estar mais perto das tretas definitivamente não é legal. Mas poder interagir com outros fãs, trocar ideias e opiniões, conhecer novas pessoas, aprender coisas novas sobre Resident Evil e poder compartilhar o meu trabalho tem sido muito gratificante e em muitas medidas terapêutico. 2021 foi um ano bastante difícil emocionalmente para mim e este blog foi um dos pilares da minha sanidade nesse período.

Para muitas pessoas, esse foi um ano ruim para Resident Evil, e eu discordo disso apesar dos pesares. Pessoalmente, tive um saldo positivo no final.

Fui muito bem recebida pela comunidade e isso me surpreendeu muito, pois falar de história com base acadêmica e científica na internet não tem sido nada fácil nos últimos tempos insanos que vivemos. Eu esperava muita reação negativa, mas o que encontrei foi muita gente interessada, curiosa, cabeça aberta e sedenta por conteúdo de qualidade. Amantes de lore, gente que gosta de Resident Evil e de história, curiosos, passantes por acaso e por aí vai. O blog cresceu muito mais rápido do que eu esperava e conheci muitas pessoas queridas no caminho.

Portanto, eu só tenho a agradecer por esse 2021. O Arklay’s Library nem tem um ano de existência ainda e já alcançou muitas coisas. A cada um que já leu pelo menos um texto, que acompanha o Instagram, que acompanha o Twitter, que dá retweet, que comenta, o meu muito obrigada sincero e de todo o coração.

Um maravilhoso 2022 para todos nós e, claro, para Resident Evil. Ano que vem tem mais!

Opinião do Arklay’s Library sobre Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City (COM SPOILERS)

Este texto contém spoilers do filme Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City e parte do princípio que você assistiu ao filme, pois não vou explicar as cenas.

Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City ou Welcome To Raccoon City estreou no dia 02 de dezembro de 2021 no Brasil e tem recebido uma reação bastante negativa por parte dos fãs da franquia. Propondo-se a ser uma história mais fiel aos jogos que os filmes de Paul W. Anderson, as prévias do longa haviam gerado um grande hype na comunidade, pois mostravam cenários e personagens conhecidos e amados. Mesmo com tudo isso, no entanto, o produto final não agradou a maioria.

Eu estou aqui hoje para ir na contramão e dizer que reconheço todas as falhas, mas ainda assim gostei, me diverti e me empolguei com o filme. Essa é minha opinião COM spoilers da produção que abreviarei na sigla WTRC para facilitar.

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Qual é o problema de a Capcom usar a Wikipédia para lembrar do lore de Resident Evil?

Imagine que você é designer e seu cliente desiste de pagar pelo seu serviço porque tem um sobrinho de 13 anos que gosta de mexer no Photoshop. Ou que uma pessoa decide construir um prédio sem ter a supervisão de engenheiros. O trabalho pode até sair, mas a chance de ficar uma bela porcaria é bem grande e ainda pode gerar uma diversidade de riscos, tudo isso porque o contratante não quis pagar um profissional para fazer o serviço bem feito.

Pois é isso que a Capcom tem feito com Resident Evil.

Recentemente, o VSBLACK lá no Twitter chamou a atenção para uma live do ano passado da Sasha Zotova (a modelo de rosto de Jill em RE3 Remake) conversando com o diretor cinemático de RE3 Remake Steve Kniebihly. Ele comenta, dando risadinhas como se fosse a coisa mais normal do universo, que na Capcom eles recorrem à Wikipédia para se lembrarem do lore de Resident Evil, que é muito grande e complexo. Ele provavelmente estava falando da Wiki de Resident Evil (exclusiva da série e voltada para o fandom) e não da Wikipédia geral, mas ainda assim isso gerou uma revolta geral entre os fãs e com razão.

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Debate: como está a representatividade de pessoas negras em Resident Evil?

Há algum tempo, estava assistindo a O Exterminador do Futuro (1984) pela 453972ª vez, mais especificamente a cena do ataque à delegacia, na qual o Sargento Ed Traxler leva um tiro do Exterminador. Nesse momento, me vieram à cabeça dois personagens de Resident Evil: Kenneth Sullivan e Marvin Branagh, dois policiais negros que também morrem nos jogos em que aparecem. Fiquei com aquilo na mente: será que é comum o policial negro morrer nos filmes dos anos 1980, 1990 e 2000?

Parando um pouco para pensar nisso, percebi que não necessariamente, já que há uma porção de filmes com policiais negros vivos por aí, como Máquina Mortífera, Bad Boys, A Hora do Rush, As Branquelas, Predador 2, Homens de Preto e tantos outros que variam entre ação e comédia.

Ainda assim, a questão me intrigou e acabou me fazendo pensar um pouco no papel do policial negro nos filmes de Hollywood e também nos policiais e militares de Resident Evil. Ponderando, achei que seria uma boa opção para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra no Brasil, falar um pouco sobre os personagens negros de Resident Evil.

A pergunta sobre a morte de policiais negros na mídia me levou a pesquisar um pouco sobre o assunto. Alguns resultados foram: 1) bastante discussão sobre personagens negros (policiais ou não) desumanizados ou mortos sem mais nem menos 2) um antigo debate sobre o papel do policial (ou qualquer personagem) negro como alívio cômico 3) a ideia de que o policial negro, na maioria das vezes, traz uma falsa representatividade, pois eles servem para auxiliar o protagonista branco ou mascaram a realidade de violência policial contra pessoas negras (algo bem forte nos Estados Unidos e no Brasil).

Em Resident Evil, temos vários personagens negros que são policiais ou treinados militarmente. Mas boa parte deles se encaixa em algum desses modelos que acabei de mencionar, como veremos a seguir.

Protagonistas?

Resident Evil tem uma variedade de personagens negros em seu elenco desde o primeiro jogo. Nenhum deles, no entanto, está entre os principais protagonistas. A única protagonista negra da franquia foi Sheva Alomar já em Resident Evil 5, que mesmo assim ficou apagada por uma série de motivos.

Não podemos esquecer que RE5 gerou uma grande discussão (extremamente importante) a respeito de racismo nos videogames, a ponto de a Capcom precisar fazer modificações no produto final. Ainda assim, diversos problemas permaneceram. Alguns estão especificamente ligados a Sheva: ela, a protagonista boa, tem a pele mais clara que os homens negros de Kijuju, os quais, mesmo antes de serem tomados pelo controle das plagas, já eram representados como brutos, vide o militar que tenta assediar a moça no início do game. Isso traz uma velha ideia que infelizmente ainda é muito difundida de que é o tom de pele mais claro que está associado a ser bom e “civilizado”.

Também é válido lembrar que a inteligência artificial do modo co-op de RE5 é conhecida por ser horrorosa, e como a maioria das pessoas jogavam com Chris, Sheva ficou estigmatizada como burra e como se só servisse para atrapalhar. Isso não é intrínseco à personagem, e sim um problema de jogabilidade, mas contribuiu para a impopularidade dela. A Capcom não fez muita questão de melhorar isso trazendo Sheva em outros jogos, e assim ela se perdeu.

Mais lembrado que Sheva é Marvin Branagh, provavelmente o personagem negro de maior destaque de Resident Evil.

Marvin apareceu no RE2 original para retornar em quase todos os outros jogos que se passam durante o apocalipse zumbi em Raccoon City. Destaco o Outbreak File #2, no cenário Desperate Times, e Resident Evil 2 e 3 Remake, em que tivemos uma perspectiva diferente dos acontecimentos. Infelizmente, no entanto, Marvin faz o papel do negro que existe apenas para sofrer, auxiliar os personagens brancos (primeiro Rita e Kevin e depois Claire e Leon) e morrer logo em seguida, sem ter muito mais aprofundamento. O desejo de ver mais do tenente é bem comum entre os fãs.

Há outros personagens com papeis importantes, mas bastante curtos nos games de Resident Evil. O primeiro deles foi Kenneth J. Sullivan, que por mais talentoso e qualificado que fosse, existiu na franquia apenas para morrer para o primeiro zumbi. Tivemos Tyrell Patrick, que no Resident Evil 3 original só aparece para ser morto por Nicholai. É interessante, no entanto, que ele foge um pouco do estereótipo por não ser americano e nem africano, e sim do Suriname, um país aqui do lado do Brasil que tem uma composição étnica bem particular. No Remake, Tyrell ganhou uma nova personalidade e mais destaque, mostrando-se um bom parceiro de Carlos, mas também terminou de um jeito bastante patético e bem mais “jogado” que em sua versão original. Em RE5, tivemos a breve participação de Josh Stone, mentor de Sheva, cujo papel é fundamentalmente auxiliar, e que nunca mais apareceu.

Temos ainda, nos Outbreaks, dois personagens negros jogáveis com histórias próprias: o guarda noturno Mark Wilkins e o funcionário do metrô Jim Chapman. Mark é outro personagem que tem treinamento militar, pois é veterano do Vietnã, e isso define a forma como ele lida com o caos zumbi. O seu é um raro caso de final feliz, pois ele consegue escapar de Raccoon e reencontrar sua família, que também havia escapado. Jim, por sua vez, acaba sendo apenas irritante por sua personalidade falante e medrosa.

A vantagem dos Resident Evil Outbreak é colocar esses personagens em uma posição de protagonismo. Infelizmente, porém, os jogos não são parte da série principal e por isso eles acabam tendo pouca visibilidade entre os fãs menos hardcore.

RE Code Veronica não tem personagens negros, tendo como personagem não branco Rodrigo, que é latino. RE4 introduziu Ingrid Hunnigan, que é descrita oficialmente como caucasiana ao mesmo tempo em que tem traços que poderiam caracterizá-la como negra (só eu acho isso estranho?). RE6 não se deu ao trabalho de trazer um personagem negro sequer. E em RE7 mais um policial negro morre.

Racismo na franquia?

Resident Evil nunca realizou uma discussão de raça, mas é de conhecimento geral que Resident Evil 5 gerou um enorme debate a respeito de racismo à época de sua produção e após seu lançamento.

É fundamental que lembremos que não importava que Chris não estivesse atirando nos majini por serem negros e sim por causa da plaga. Só a imagem de um homem branco americano atirando em africanos negros agindo como selvagens trazia uma carga simbólica de passado colonial e racismo extremamente explícita e pesada ao conteúdo do jogo, algo que incomodou muita gente e com total razão.

Essa imagem de RE5 toca temas muito sensíveis, já que ainda vivemos em uma sociedade profundamente racista e herdeira do colonialismo e da escravidão atlântica. No futuro, quero dedicar toda uma série de textos a Resident Evil 5 e essa discussão do racismo no jogo certamente estará presente.

Outra coisa que sempre me chamou a atenção foi um possível caso de whitewashing (quando um personagem não branco é interpretado por um branco, o que em geral acontece para agradar um público branco, apagar sua etnicidade ou por apropriação cultural, por exemplo). Talvez ninguém nunca tenha reparado, mas vejam a amada foto dos S.T.A.R.S.:

Nela, vemos 3 personagens negros ou de pele mais escura: Kenneth e outros dois que, pensando pelos dois que não aparecem em Resident Evil 1, seriam Edward e Kevin Dooley (o piloto; não confundam com o Kevin de Outbreak!). Oras, quando eles apareceram in gaming, Edward é branco e loiro e Kevin é branco também. Seria isso apenas um erro ou uma coisa deliberada? Será que aqueles homens da foto eram membros dos S.T.A.R.S. que não estavam mais na equipe? Será que a qualidade da foto é baixa demais para termos certeza do tom de pele dos personagens? Isso continua a me deixar com a pulga atrás da orelha.

Dentro da comunidade

Nos últimos tempos, o debate de raça veio forte para a comunidade de Resident Evil. Muitas pessoas na internet não esconderam seu racismo pelo fato de Jill Valentine e Leon S. Kennedy serem interpretados por atores não brancos no longa Bem-Vindo a Raccoon City (e lembremos que Avan Jogia é de ascendência indiana, não negra e nem latina!). E não se trata simplesmente de não gostar que o personagem não tem a mesma aparência do original – muitas pessoas foram atacar os atores nas redes sociais!

Hannah John-Kamen como Jill Valentine em Resident Evil: Welcome to Raccoon City.

O mesmo aconteceu com Lance Reddick, que vai interpretar um Albert Wesker totalmente diferente do dos jogos na série em live-action da Netflix. Muita gente dizia que o ator devia ser Kenneth ou Marvin e não Wesker, além de associarem a aparência dele com personagens ou pessoas que não se parecem em nada com ele, como se ele fosse somente a cor de sua pele.

É muito triste ver que uma parte muito grande da comunidade de Resident Evil prefere se doer com a cor de pele de atores que estão apenas fazendo seu trabalho do que com o fato de que a franquia tem pouquíssimos personagens negros importantes e com a discussão racial extremamente relevante gerada por Resident Evil 5.

Um debate longo

Este texto, evidentemente, foi bastante superficial na análise. Minha intenção foi mais trazer algumas perguntas, incômodos e um pouco do que encontrei a respeito desses questionamentos. Há diversas outras questões a serem abordadas ou aprofundadas dentro da discussão de raça em Resident Evil, inclusive a respeito de outras etnias dos personagens.

Eu gostaria muito de ouvir de vocês a respeito desse assunto. Os comentários estão abertos, desde que o debate seja inteiramente respeitoso. Racismo é crime e não será tolerado no Arklay’s Library.


Referências:

Raccoon City como acontecimento histórico

De todos os grandes desastres que permeiam a linha do tempo de Resident Evil, o mais marcante no coração dos fãs é com certeza o incidente de Raccoon City. Começando com os primeiros assassinatos nas Montanhas Arklay e culminando em uma epidemia zumbi que levou à decisão do governo de esterilizar a cidade, essa história definiu Resident Evil como franquia e é até hoje muito referenciada (e reverenciada) pelos fãs.

Graças a esse apelo, a Capcom (e a Constantin…) faz questão de aludir à cidade o tempo todo: “Raccoon City tudo de novo”, “uma nova Raccoon City”, “uma grande reunião de família de Raccoon” são frases que ouvimos em diversos jogos e filmes posteriores, isso sem contar os retornos da cidade em spin-offs (canônicos ou não) e nas reimaginações.

Mas não é somente para nós do mundo exterior que Raccoon City ficou marcada para sempre. Essas referências que a Capcom faz, além de serem fanservice, também mostram como dentro do universo de Resident Evil o desastre foi impactante na memória dos protagonistas e de diversos outros personagens com os quais eles se cruzaram.

Neste 28 de setembro, portanto, nada mais justo que dedicar um texto para esse acontecimento, não?

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As diversas referências de Resident Evil ao nazismo

Este texto foi publicado originalmente no EvilHazard. Esta versão foi revisada em relação à original, mas seu conteúdo não foi alterado.

Logo após o lançamento de Resident Evil Village, surgiu uma polêmica no Twitter a respeito de uma placa de identificação militar (chamadas de dog tags em inglês) que Karl Heisenberg trazia pendurada no pescoço. Algumas pessoas apontaram as semelhanças (gritantes) com placas utilizadas por soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, e isso levou à especulação de uma possível afiliação de Heisenberg com o nazismo. A Capcom eventualmente negou, e acabou ficando por isso mesmo.

Karl Heisenberg de Resident Evil Village. Ele tem um martelo gigante, usa chapéu e casaco comprido. Seuscabelos são grisalhos e batem no ombro. Sua cara é antipática.

No entanto, convenhamos que mesmo não sendo abertamente nazista, as criaturas que Heisenberg criava em sua fábrica passavam por processos não muito diferentes aos que os nazistas praticavam em seus campos de concentração, não é mesmo? É bem conhecido o nome de Josef Mengele, o mais famoso entre os médicos nazistas que realizavam experimentos horríveis com prisioneiros em Auschwitz e em outros campos. Jogar tinta nos olhos de pessoas de olhos escuros, jogá-las em tanques de água fria, infectá-las com micro-organismos e esterilização forçada com substâncias tóxicas são apenas alguns bárbaros exemplos.

E sabemos muito bem que Heisenberg está longe de ser o único. Muito pelo contrário: era característico da Umbrella realizar experimentos absurdos em seres humanos e o objetivo pelo qual a empresa foi fundada estava ligado à criação de seres humanos superiores, aspiração de Ozwell E. Spencer.

Eugenia

O desejo de Ozwell Spencer era a aceleração da evolução humana por meio dos vírus, a via que ele considerou mais adequada para alcançar seu objetivo. No entanto, ele não pensava em evolução humana em um sentido de melhorar toda a humanidade — para ele, os próprios vírus já fariam um trabalho de “seleção natural”, no qual os mais fracos pereceriam e os mais fortes sobreviveriam. Outro critério era a inteligência, algo que ele considerava nato, ignorando que a inteligência de qualquer um pode ser desenvolvida.

Essas são características tipicamente ligadas à eugenia, um movimento nascido no século 19 que tinha como objetivo melhorar a qualidade “genética” (o termo e o conceito não existiam na época) de uma população por meio da perpetuação de características consideradas melhores e da exclusão daquelas consideradas piores. Na prática, ela contribuiu para justificar “cientificamente” o racismo e a segregação social, pois considerava-se que pessoas não brancas eram inferiores e que a pobreza era resultado de características hereditárias imutáveis.

Ozwell Spencer em Resident Evil 5. Ele é um homem muito idoso cheio de eletrodos em uma cadeira de rodas e uma expressão arrogante.

A eugenia justificou a barbárie perpetrada pelos europeus em suas colônias na África e na Ásia. São notórias as atrocidades perpetradas pela monarquia belga no Congo e pelo Estado alemão na Namíbia, e não é coincidência o modo como a Umbrella tratou o povo de Kijuju e os Ndipaya quando Spencer encontrou as flores que geravam o Vírus Progenitor.

Posteriormente, a eugenia também foi um forte pilar da ideologia nazista, justificando as atrocidades do holocausto.

Humanidade Decadente

Spencer acreditava que a humanidade estava se degenerando.  Não somos apresentados a o que exatamente ele considerava decadente, apenas que em sua visão a forma atual da humanidade está condenada a se autodestruir.

Muitos de nós também pensamos que os seres humanos estão se autodestruindo, mas buscamos resolver isso por meio de políticas de proteção do meio ambiente e de uma educação para a emancipação, por exemplo. Spencer, por sua vez, decidiu seguir ideias mais parecidas com as do nazismo: promovendo aqueles que ele considerava superiores e que os “mais fortes” sobrevivessem. Albert Wesker pensava da mesma maneira e procedeu de maneira muito semelhante.

Spencer em Resident Evil 5 falando que tem o direito de ser um deus, porque ele é um velho nazista nojento e arrogante.

No novo mundo de Spencer, ele seria o comandante supremo da humanidade, o Deus, o Führer (Líder). Como pai dessa nova humanidade, ele se considerava digno de uma característica muito forte do fascismo (e consequentemente do nazismo), que é o culto ao líder.

Campos de concentração

A Ilha Rockfort, um dos cenários de Resident Evil: Code Veronica, é um complexo de treinamento dos grupos paramilitares da Umbrella e também um campo de concentração para os desafetos e traidores da empresa.

O uso do termo não é leviano; de fato, Rockfort foi baseada em um campo de concentração e há inúmeras referências a isso. O local não é simplesmente uma prisão; é um espaço para torturar e controlar inimigos com condições absolutamente insalubres e cruéis. Além das celas a céu aberto e espaços de execução e tortura que encontramos nos primeiros minutos de jogo, temos também aquela “casa” onde moravam os prisioneiros que se assemelha profundamente aos barracões dos campos de concentração nazistas.

Não podemos esquecer que os prisioneiros eram também cobaias dos experimentos. Na “enfermaria”, lemos a nota do anatomista que conta que aprecia ver outras pessoas agonizarem e morrerem, e que Alfred fornecia a ele todos os equipamentos para ele realizar experimentos. Também há um crematório, tal como nos campos nazistas. A ilha possuía ainda um laboratório e diversas BOWs que eram usadas no campo de treinamento, e é bastante claro que os prisioneiros eram envolvidos involuntariamente nisso.

Uma família de nazistas

Uma informação que muitas vezes pode surpreender os fãs de Resident Evil é que a família Ashford, em um conceito inicial, deveria ter origem alemã e ser vinculada ao nazismo. Eles se chamariam Krüger – Alexia seria Hilda, Alfred seria Hilbert e haveria um outro membro da família, o avô deles, que teria se tornado Edward Ashford, um médico nazista. Essas informações são obtidas por meio das artes conceituais de Code Veronica, que podem ser vistas aqui.

Alguns desses elementos se mantiveram no jogo, como a águia fazendo parte do brasão da família Ashford. Talvez, em outras circunstâncias, a ave poderia ser uma referência a qualquer outra coisa, até mesmo a símbolos alemães mais antigos, mas como sabemos dos conceitos iniciais nazistas da família, não há dúvidas de que o brasão é sim uma referência ao nazismo.

Embora esses conceitos tenham sido transformados no produto final, a crueldade e os métodos doentios dos Ashford permaneceram nos personagens.

Aristocracia

Mas não é porque os Ashford se tornaram uma aristocracia inglesa e não alemã que eles não poderiam ser simpatizantes do nazismo. Na verdade, as ideias de antissemitismo, xenofobia e racismo enfatizadas pelos nazistas eram bastante difundidas na Europa como um todo quando da ascensão do partido, e há inclusive a hipótese de que, mais do que um ódio pessoal de Hitler contra os judeus, foi esse clima de ódio já pré-existente que levou os nazistas a incorporarem o antissemitismo em sua ideologia para angariar o apoio das massas. É possível ouvir um pouco mais sobre isso neste episódio do podcast História FM.

O Rei Eduardo VIII da Inglaterra (tio da Rainha Elizabeth) e sua esposa americana Wallis Simpson chegaram a tirar fotos com Adolf Hitler e, embora não se tenha certeza se ele simpatizava de fato com as ideias, sua visita oficial na Alemanha nazista pareceu bastante amistosa. Também é de se mencionar que a irmã mais velha do recentemente falecido Rei Philip (marido da rainha Elizabeth II), a Princesa Cecilie da Grécia e da Dinamarca, era filiada ao partido Nazista.

A ideia de pureza de linhagem é algo bem forte na aristocracia europeia. Se até determinado momento os casamentos entre nobres eram uma questão de alianças políticas, a partir mais ou menos do século 18 começou-se a valorizar a pureza de sangue.

Não é à toa que Spencer, Ashford e Marcus pensavam de maneira semelhante: eles eram fruto desse ambiente de ideias de superioridade. O que eles fizeram foi nada mais que colocar esses pensamentos em prática.

Seres humanos superiores

Se já falamos dos Ashford, podemos agora falar de como o fundador de tudo isso, Ozwell Spencer, levou a cabo suas ideias. O Projeto W, das Crianças Wesker, é a execução plena de seu plano de eugenia.

Spencer selecionou crianças “de todas as nacionalidades” (será mesmo?) com inteligência acima da média. “Selecionar” não é um termo aleatório, pois o aristocrata pensava em termos de seleção natural e de sobrevivência do mais forte, bem ao estilo do pensamento eugenista do século 19.

O meio para alcançar a superioridade seria a compatibilidade com o vírus Progenitor, e a maioria das crianças morreu, sobrevivendo apenas Albert e Alex. Segundo o file Albert Wesker de Resident Evil 5, essa seleção se mostrou seletiva demais, e com isso podemos perceber o quanto esse tipo de pensamento é contrário aos mais fracos fisicamente – como se eles não merecessem dignidade tanto quanto os mais fortes. É ainda notável que Albert e Alex são loiros e caucasianos. Isso provavelmente é proposital para tornar mais clara essa referência da eugenia como fundamentadora das ideias de Spencer.

Albert Wesker em Resident Evil 5 e Alex Wesker em Resident Evil Revelations 2. Ambos são brancos e loiros e arrogantes. O Albert veste uma roupa preta semelhante a um uniforme nazista e a Alex veste um terno branco elegante.

Não poderíamos deixar de mencionar, também, que a própria aparência de Albert Wesker em Resident Evil 5 pode ser uma alusão aos nazistas. A postura militar com um sobretudo preto tem lá suas semelhanças com um dos uniformes nazistas, e o discurso também é muito semelhante, já que Wesker deu continuidade às ideias de criar uma nova humanidade.

Conclusões

Até hoje pergunta-se muito: como os alemães aceitaram e apoiaram Hitler? Muito do poder dos nazistas veio da coação, mas não podemos ignorar que uma parcela muito significativa da sociedade europeia já carregava ideias das quais o fascismo e o nazismo eram fruto, de certa forma, e das quais essas duas ideologias souberam aproveitar-se para alcançar seus objetivos. Isso vai muito além da eugenia e do racismo, mas não cabe abordar aqui. Uma leitura muito recomendada para se aprofundar nisso é o livro Anatomia do Fascismo, do historiador americano Robert Paxton.

Resident Evil trouxe vilões que não se declaravam como nazistas, mas que tinham ideias claramente muito semelhantes. E, ainda, colocou essas ideias em pessoas originárias de países Aliados, inimigos do Eixo, ou seja, aristocratas ingleses e cientistas norte-americanos. Isso contribui para lembrarmos que as ideias que compõem o nazismo não vieram só da Alemanha e da Itália, mas que eram ideias que circulavam na Europa e também em outros lugares do mundo. E que, mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, elas não deixaram de existir.

Como o próprio Spencer escreveu em sua carta a Mãe Miranda, após duas guerras mundiais, suas convicções não se abateram. Não seria de se duvidar que, muito pelo contrário, elas tivessem apenas se fortalecido com o exemplo nazista. Sendo uma pessoa de grande poder, ele conseguiu colocar suas ideias em prática, criando seu próprio projeto horrendo de mundo e deixando um legado de terror para a humanidade.


Algumas referências que uso com frequência além das hiperlinkadas no texto:

Central Smok – O lugar do holocausto na história e outras reflexões sobre nazismo, genocídio, colonialismo e perda de significados, In https://centralsmok.wordpress.com/2020/02/09/o-lugar-do-holocausto-na-historia-e-outras-reflexoes-sobre-nazismo-genocidio-progresso-e-perda-de-significados/

Umberto Eco: O Fascismo Eterno https://historiafm.com/2018/10/24/o-fascismo-eterno/ Acesso em 27 de janeiro de 2020.

Podcast História FM: Holocausto: 75 anos depois de seu fim https://historiafm.com/2020/01/27/holocausto-75-anos-depois-de-seu-fim/ Acesso em 07 de fevereiro de 2020.

Livresca: Continente Sombrio, de Mark Mazower https://centralsmok.wordpress.com/2018/01/06/leituras-e-fervuras-continente-sombrio-de-mark-mazower/

Belgium’s Heart of Darkness https://www.historytoday.com/archive/contrarian/belgiums-heart-darkness Acesso em 27 de janeiro de 2020.

How Britain’s high society fell in love with the nazis https://www.thedailybeast.com/how-british-high-society-fell-in-love-with-the-nazis Acesso em 27 de janeiro de 2020.

MAZOWER, Mark. Continente Sombrio: A Europa no século XX . São Paulo: Companhia das Letras, 2001

ARENDT, Hannah. “O pensamento racial antes do racismo” e “Raça e burocracia” In Origens do Totalitarismo . São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

MAGALHÃES, Marion Brepohl de. “Homens e mulheres falando em genocídio: a experiência imperialista alemã (1884-1945)” In História: Questões e Debates. Curitiba: Editora UFPR, jan./jun. 2010, n. 52,  p. 149-171.

9 reasons to #BringBackJillValentine

Of all the complaints the Resident Evil community has, good or bad, by far the most significant – and thankfully very fair – is the absence of Jill Valentine from the latest games from the main timeline. Loved by so many, she doesn’t seem to be so much to the taste of Capcom’s current team. There is a lot of speculation on the reasons for this, but that’s their problem and not ours, we want her back!

Fans are so displeased with Jill’s disappearance that a social media campaign was created (if I remember well, by Resident Evil Project) with the hashtags #BringBackJill and #BringBackJillValentine to get Capcom’s attention. This text is part of it!

What are your reasons for wanting Jill back? I would love to hear from you. Today, I have just listed a few. Shall we check them?

9. Jill is one of the founders of the BSAA

Along with people like Chris and O’Brien, Jill is one of BSAA’s Original Eleven. She certainly has a very important and very influential role in the organization even if she is no longer active on the battlefield. And, at the current point in timeline, the BSAA is the leading anti-bioterrorism organization in the Resident Evil universe. In a world full of bioterrorism…this is pretty important, right?

8. Something wrong is not right at the BSAA

In Resident Evil Village, we discover that there is something really wrong within the BSAA. There are obvious signs of corruption in the organization, like the alliance with Blue Umbrella, their sending of BOWs to the battlefield, the cover-up of biological incidents… it’s pretty clear that Chris isn’t happy at all about this and Jill certainly wouldn’t be either.

Jill has always been known for her intelligence, responsibility and ability to solve problems. Therefore, she is needed now more than ever, because it is all the values that she built alongside Chris with the BSAA that are at risk.

7. Jill wasn’t around at moments she should have been

One very intriguing thing about RE6’s lame narrative is that, in the process of regaining Chris’s memory, two key people for him aren’t present: his own sister Claire and his lifelong partner, Jill. For me and certainly for much of the community, this is a very serious mistake by Capcom. Maybe it happened behind the scenes, but why not show it explicitly?

In addition to RE6, Village also failed her. If Chris is working in the shadows because of the problems inside the BSAA, Jill would be too, wouldn’t she? Or at least they would be exchanging information, perhaps similarly to what happened in the Raccoon days – Chris pretending crazy and investigating from the outside and Jill staying in the city/BSAA to investigate from inside. Hopefully the corrupt BSAA plot brings something like this to Resident Evil 9.

6. Jill appears in other Resident Evil products and in other games, but not in the main chronology

Almost every time we have a cultural product that brings some reference or easter egg from Resident Evil, Jill is the one to show up. Some examples are the recent RE pack for Dead By Daylight, Marvel Vs. Capcom 3, her outfit in Dead Rising 4, Jill’s Sandwiches shop also in Dead Rising, among others.

Jill in Marvel Vs. Capcom 3

Jill is also featured in other Resident Evil productions, such as the Milla Jovovich films – Jill appeared in 3 of them, two of which were after the character’s last chronological appearance in games – and in the upcoming film Welcome to Raccoon City.

This makes it clear that Jill is the face of Resident Evil. So why leave her out?

5. To value Resident Evil’s female characters

A common complaint in the community lately has been the way in which female characters, once so strong, full of personality and independent, have been overlooked in the latest products of the franchise.

Not that they didn’t show up or demonstrate strength. But especially with Claire, some things turned out quite uncomfortable: in Infinite Darkness, Claire had little screen time, being treated as an accessory to Leon’s story, and was heavily hurt by men (the same can be said about Shen Mei). In RE2 Remake, she is also beaten by Brian Irons, something that bothered a lot of people, even if it was consistent with the situation and the character of the police chief.

Jill is one of the great muses of videogames and Shinji Mikami has always strived for her not to be a mere appeal to sensuality within Resident Evil (something that, should we admit, has been forgotten after he left Capcom…). No wonder her difference from Chris in the original Resident Evil was her greater intelligence, while he was more brute strength (I’m not saying Chis is dumb, okay? He just wasn’t as skilled as Jill was in the first RE).

So, it would be great if Jill’s triumphant return were to follow the old manners of thick-skinned, independent female characters who owned their own story.

4. Alongside Leon, Jill is people’s favourite character

Leon is undoubtedly the most popular character in Resident Evil, thanks to the success of Resident Evil 4 that made his fame go beyond RE fans and spread throughout the gaming world in general. However, almost everybody also knows who Jill Valentine is.

Among fans, Jill receives immense affection for being the first character with whom many of us played with (after all, playing with Chris was harder lol), for being such a charismatic protagonist, for having faced one of the most iconic monsters in videogame history (Hi Nemesis!), for closing the Raccoon City arc and for so many other reasons.

When someone asks on Twitter about people’s favourite character, Jill is always very present. So, a game with her would be without a doubt a success and success is money, right, Capcom?

3. Jill has been missing from the chronology for 12 years

Jill’s last appearance in the numbered games was in Resident Evil 5, which takes place in 2009. After that, the only news we have of her were in a file in Resident Evil Revelations 2, an e-mail she sends to Barry shortly after returning from Kijuju, also in 2009.

This means that for 12 years – both in chronology and in real life – we have no idea of what Jill has been doing! Has she recovered? Is she still at the BSAA?

Yes, it is true that Jill was the main character in Resident Evil: Revelations (set in 2005 and released in 2012) and Resident Evil 3 Remake, but neither of them advances in the story, telling events taking place before Resident Evil 5.

After all, what happened to Jill Valentine?

2. Alongside Chris, Jill is the main protagonist of Resident Evil

This is a sticking point, but we can try to think from the perspective that it all started with Jill and Chris. It was playing with them that we discovered Umbrella’s wrongdoings; Jill witnessed the destruction of Raccoon City; together they founded the BSAA, destroyed Umbrella, uncovered corruption within the FBC and, after hellish suffering, defeated the franchise’s main villain, Albert Wesker.

There are indeed many important events other characters dealt with, but the most definitive ones always happen by the hands of Chris and Jill. Lately we’ve had a lot of Chris, but without Jill, there’s a void of incompleteness.

They work well on their own, but together they are unbeatable! A return from this duo, please!

1. She is Jill Valentine

Zombie Slayer. BOW ass kicker. Pianist. Bomb Disarmer. Master of unlocking. Jill is all that and more.

In all Resident Evil universes, she stands out for her determination, her bravery, her values, her intelligence, and her expertise. She faced terrible threats and cheated death many times. She is highly respected by her friends and colleagues, and by her fans who love her unconditionally.

Jill is an inspiration to all of us and all we want is to be able to live Resident Evil with her again.

So please, Capcom. #BringBackJillValentine!

9 razões para trazer Jill Valentine de volta #BringBackJill

De todas as reclamações que a comunidade de Resident Evil tem, boas ou ruins, de longe a mais significativa delas – e, ainda bem, muito justa – é a ausência de Jill Valentine nos últimos jogos da cronologia. Amada por tantos, ela não parece ser tão do gosto da atual gestão da Capcom. Especula-se muito sobre o porquê disso, mas isso é problema deles, queremos ela de volta!

Tanto é o desagrado dos fãs com o chá de sumiço de Jill que foi criada uma campanha nas redes sociais (se não me engano pelo Resident Evil Project) com as hashtags #BringBackJill e #BringBackJillValentine para chamar a atenção da Capcom. Este texto é parte disso!

Quais são os seus motivos para querer Jill de volta? Gostaria muito de ouvir de vocês. Hoje, listei apenas alguns. Bora lá?

9. Jill é uma das fundadoras da BSAA

Ao lado de pessoas como Chris e O’Brien, Jill é um dos 11 originais da BSAA. Ela certamente tem um papel muito importante e muito influente na organização mesmo que não esteja mais atuando no campo de batalha. E, no atual momento na cronologia, a BSAA é a principal organização de combate ao bioterrorismo no universo de Resident Evil. Em um mundo cheio de bioterrorismo…isso é bem importante, né?

Emblema da organização fictícia BSAA de Resident Evil. Ele mostra o globo e em uma faixa dá o nome da sigla, Bioterrorism Security Assessement Aliance, em tradução livre Aliança de Assistência e Segurança contra o Bioterrorismo.

8. Algo de errado não está certo na BSAA

Em Resident Evil Village, descobrimos que há algo de muito errado na BSAA. Há evidentes sinais de corrupção na organização como a aliança com a Umbrella Azul, o envio de B.O.W.s para o campo de batalha, o acobertamento de incidentes biológicos… fica bem claro que Chris não está nem um pouco feliz com isso e Jill certamente não estaria.

Jill sempre foi conhecida por sua inteligência, responsabilidade e capacidade de resolver problemas. Portanto, mais do que nunca ela é necessária, pois o que está em jogo são todos os valores que ela mesma construiu ao lado de Chris com a BSAA.

7.  Jill não apareceu em momentos em que devia ter aparecido

Uma coisa muito intrigante da narrativa capenga de RE6 é que, no processo de recuperar a memória de Chris, duas pessoas fundamentais para ele não estão presentes: sua própria irmã Claire e sua parceira de toda a vida, Jill. Para mim e certamente para boa parte da comunidade, isso é um erro muito crasso por parte da Capcom. Talvez isso tenha acontecido nos bastidores, mas por que não mostrar isso explicitamente?

Chris Redfield bêbado em Resident Evil 6.

Além de RE6, Village também pecou. Se Chris está trabalhando nas sombras por causa dos problemas dentro da BSAA, Jill também estaria, não? Ou ao menos eles estariam trocando informações, talvez no mesmo sentido do que aconteceu nos tempos de Raccoon – com Chris fazendo a louca e investigando por fora e Jill ficando na cidade/BSAA para investigar de perto. Esperamos que o plot da BSAA corrupta traga algo assim para Resident Evil 9.

6. Jill aparece em outros produtos de Resident Evil e em outros games, mas não na cronologia principal

Quase sempre que temos algum produto cultural que traz alguma referência ou easter egg de Resident Evil, quem aparece é Jill. São exemplos o recente pacote de RE para Dead By Daylight, Marvel Vs. Capcom 3, a roupa dela para Dead Rising 4, a lojinha Jill’s Sandwiches também em Dead Rising, entre outros.

Arte de Jill Valentine de Marvel versus Capcom 3. Ela usa a roupa de Resident Evil 5 e tem duas submetralhadoras.

Jill também é destaque em outras produções de Resident Evil, como os filmes da Milla Jovovich – Jill apareceu em 3 deles, sendo que dois foram depois da última aparição cronológica da personagem nos jogos – e no longa Welcome to Raccoon City que está para sair.

Isso deixa claro que Jill é o rosto de Resident Evil. Então por que deixá-la de fora?

5. Para valorizar as personagens femininas de Resident Evil

Uma reclamação bem frequente na comunidade nos últimos tempos tem sido a forma como as personagens femininas, antes sempre tão fortes, cheias de personalidade e independentes, têm sido menosprezadas nos últimos produtos da franquia.

Não que elas não tenham aparecido ou demonstrado força. Mas especialmente com Claire, algumas coisas se mostraram bastante incômodas: em Infinite Darkness, Claire teve pouco tempo de tela, sendo tratada como um acessório da história de Leon, e foi muito agredida por homens (o mesmo pode ser dito sobre Shen Mei). Em RE2 Remake, ela também apanha de Brian Irons, algo que incomodou muita gente, mesmo que fosse coerente com a situação e com o personagem do chefe de polícia.

Jill Valentine em Resident Evil 5. Ela está muito agressiva, pois está com o dispositivo de controle P30 cravado em seu peito.

Jill é uma das grandes musas dos videogames e Shinji Mikami sempre se esforçou para que ela não fosse um mero apelo à sensualidade dentro de Resident Evil (algo que, convenhamos, decaiu bastante depois que ele saiu da Capcom…). Não à toa seu diferencial em relação a Chris no Resident Evil original era sua maior inteligência, enquanto ele era mais força bruta (não estou dizendo que o Chis é burro, ok? Ele só não era tão habilidoso como Jill no primeiro RE).

Portanto, seria ótimo se o retorno triunfal de Jill seguisse os velhos moldes de personagens femininas casca grossa, independentes e donas de sua própria história.

4. Ao lado de Leon, Jill é a personagem favorita da galera

Leon é sem dúvida o personagem mais popular de Resident Evil, pois graças ao sucesso de Resident Evil 4 sua fama vai além dos fãs da franquia e percorre o mundo gamer de forma geral. No entanto, quase todo mundo também sabe quem é Jill Valentine.

Entre os fãs, Jill recebe um carinho imenso por ter sido a primeira com quem muitos de nós jogamos (afinal, jogar com Chris era mais difícil rs), por ser uma protagonista tão carismática, por ter enfrentado um dos mais icônicos monstros dos videogames (oi Nemesis!), por ter fechado o arco de Raccoon City e por tantos outros motivos.

Quando alguém pergunta no Twitter sobre o personagem favorito das pessoas, Jill sempre é muito presente. Portanto, um jogo com ela sem dúvida faz sucesso e sucesso é dinheiro, né, Dona Capcom?

Jill Valentine em Resident Evil 3 Remake. Ela está olhando para alguém ou algo fora da câmera com uma expressão de quem está indignada.

3. Jill está sumida da cronologia há 12 anos

A última aparição de Jill nos jogos numerados foi em Resident Evil 5, que se passa em 2009. Depois disso, a única notícia que temos dela é em um file de Resident Evil Revelations 2, um e-mail que ela envia a Barry logo após ter retornado de Kijuju, ou seja, também em 2009.

Isso significa que há 12 anos – tanto na cronologia quanto na vida real – que não fazemos ideia do que Jill está fazendo! Será que ela se recuperou? Será que ela ainda está na BSAA?

Sim, é verdade que Jill foi protagonista em Resident Evil: Revelations (que se passa em 2005 e foi lançado em 2012) e Resident Evil 3 Remake, mas nenhum dos dois avança na história e sim conta acontecimentos de antes de Resident Evil 5.

Afinal, o que aconteceu com Jill Valentine?

2. Ao lado de Chris, Jill é a principal protagonista de Resident Evil

Arte promocional de Chris Redfield e  Jill Valentine para a DLC Lost in Nightmares de Resident Evil 5.

Este é um ponto polêmico, mas podemos tentar pensar da perspectiva de que tudo começou com Jill e Chris. Foi jogando com eles que descobrimos os podres da Umbrella; Jill foi testemunha da destruição de Raccoon City; juntos eles fundaram a BSAA, destruíram a Umbrella, desvendaram as falcatruas da FBC e depois de muito sofrimento venceram o principal vilão da franquia, Albert Wesker.

Há de fato muitos acontecimentos importantes com outros personagens, mas os mais definitivos se passam sempre nas mãos de Chris e Jill. Ultimamente temos tido bastante Chris, mas sem Jill, fica um vazio de incompletude.

Sozinhos eles funcionam bem, mas juntos eles são imbatíveis! Por um retorno dessa dupla, por favor!

1. Ela é Jill Valentine

Matadora de zumbis. Chutadora de bunda de B.O.W.s. Pianista. Desarmadora de bombas. Mestre dos destrancamentos. Jill é tudo isso e muito mais.

Em todos os universos de Resident Evil, ela se destaca por sua determinação, sua bravura, seus valores, sua inteligência e sua perícia. Ela encarou ameaças terríveis e enganou a morte diversas vezes. É muito respeitada por seus amigos e colegas e também por seus fãs que a amam incondicionalmente.

Jill é inspiração para todos nós e tudo o que queremos é poder viver Resident Evil com ela novamente.

Então, por favor, Capcom. #BringBackJillValentine!

Jill Valentine em Resident Evil 3 Nemesis apontando a magnum 44 para algo fora da tela, que é o Nemesis, durante a batalha final.

Jason “Rambo”, hero of Penamstan, and war traumas – Analysing Resident Evil: Infinite Darkness, part 3

Warnings: This text contains allusions to very sensitive topics such as war traumas, psychological torture and suicide. It also contains spoilers from the show Resident Evil: Infinite Darkness.

Even though the announced protagonists of Resident Evil: Infinite Darkness were Leon and Claire, the plot of the show revolved around the Penamstan Civil War, of which the protagonist is mainly Jason, the so called “hero of Penamstan”. The war veteran, however, is far from seeing himself as a hero.

Since the trailers, I had a feeling that Jason would be an ambivalent character within the story. This was confirmed when the whole thing came out, and he ended up being the “final boss” of the show. In my view, however, that doesn’t exactly make him a villain, but not exactly an anti-hero either. Although this hasn’t been adequately explored in the plot, he is actually a very complex character who’s not easy to understand within a simple dichotomy between good and evil.

This look made me suspect that Jason wasn’t doing too well.

Jason knows the truth about what happened in Penamstan and only received the hero honour to promote the image of his superior, then Major Colonel Wilson. This is how Wilson achieved the post of Secretary of Defense, one of the most important and influential positions in the American State.

Then, together with the other Mad Dogs, Jason was forced to comply with Wilson’s secret and illegal orders, so that he would provide them with the inhibitor for the virus they had been infected with in Penamstan. And this coercion, along with the traumatic experiences of war, messed up Jason’s sanity and convictions.

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